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Dândi Negro

Dândi Negro
Por Petrônio Domingues

Filho de ex-escravos nascido no fim do século 19, Lino Guedes destacou-se como jornalista, escritor e ativista político, respeitado entre a sociedade intelectual paulista.

É comum pensar que o negro depois da abolição da escravatura ? 13 de maio de 1888 ? ficou completamente a deriva, excluído do mercado de trabalho e da vida nacional. O retrato completo dessa explicação aponta para um negro anômalo: desempregado ou realizando serviços braçais, analfabeto, desarticulado social e politicamente, despreparado para o mundo civilizado e a vida moderna e, por fim, soterrado em seu complexo de inferioridade. Essa explicação esquemática, simplista e reducionista tem sua parcela de verdade, mas não é tudo que pode (e deve) ser dito acerca do destino dos ex-escravos e de seus descendentes. A história é mais complexa, multifacetada, contraditória e rica de fatos, cenários, personagens e contextos do que se imagina.
Além dos negros que ficaram marginalizados ? que por sinal foram muitos ? houve aqueles que também ascenderam social e culturalmente, destacando-se em profissões de prestígio, sendo reconhecidos em ambientes letrados e respeitados pelos mais diferentes extratos da sociedade. Um desses casos foi Lino de Pinto Guedes ? comumente conhecido como Lino Guedes ? nascido na cidade de Socorro, interior de São Paulo, em 24 de junho de 1897. Seus pais eram dois ex-escravos que levavam uma vida humilde e pacata. Quando recém-nascido perdeu o pai, o que fez com sua mãe ficasse responsável pela educação dele e de sua irmã, Gracinda Guedes. Com parcos recursos materiais, recebeu ajuda do ?coronel? Olympio Gonçalves dos Reis, um dos líderes políticos mais poderosos da cidade. Foi a partir dessa relação paternalista de ?proteção? e dependência desse coronel que Guedes conseguiu ingressar na escola, num período em que não era fácil arcar com as despesas dos estudos em que vários estabelecimentos de ensino de São Paulo (e de outros lugares do país) se recusavam a matricular crianças negras.
Depois de ter concluído o equivalente ao atual ensino fundamental, mudou-se para a cidade de campinas em 1912, a fim de dar continuidade aos estudos na escola normal e tornou-se professor. Na nova cidade, ampliou seu círculo de amizades, passou a freqüentar novos ambientes e descobriu outros horizontes culturais. Como resultado, desistiu da carreira de docente e assumiu a sua verdadeira vocação: o jornalismo. Seu primeiro emprego foi no jornal Diário do Povo, onde foi contratado como revisor auxiliar. Em seguida trabalhou no Correio de Campinas como revisor-chefe e na redação do Correio Popular.

Militância Escrita

Paralelamente ao trabalho na grande imprensa, dedicou-se a militância em defesa da ?classe dos homens de cor? (como se falava na época). Afinal, um de seus grandes sonhos era ver a elevação moral, social e cultural desse segmento populacional. Munido de muita disposição de luta e de um discurso cada vez mais racializado, freqüentou grêmios recreativos e eventos sociais da comunidade negra e, principalmente, engajou-se obstinadamente na chamada imprensa negra ? jornais criados por e para os afro-brasileiros. O primeiro desses jornais a contar com sua colaboração foi A União, em 1915, quando Guedes dava os primeiros passos na profissão. Em companhia de Gervásio de Morais e Benedito Florêncio, fundou o Getulino em 1923. vale ressaltar que, em termos de militância, sua grande inspiração foi o abolicionista negro Luis Gama, conhecido pelo apelido de Getulino. Foi, aliás, para homenageá-lo que Guedes convenceu os companheiros a escolher a alcunha como título do novo jornal. Mas esse, assim como outras publicações do gênero, não teve vida longa. Três anos depois Getulino encerrou suas atividades.
Tudo indica que Guedes passou a achar a cidade de campinas pequena para suas ambições pessoais e profissionais, por isso transferiu-se para a capital paulista ainda em 1926. Começou a trabalhar no Jornal do Comércio, tendo atuado, até o fim de sua vida, em vários órgãos da imprensa escrita: O Combate, A Razão, Correio Paulistano e, por último, Diário de São Paulo, no qual por vários anos chefiou o seu departamento de revisão. Essas várias mudanças de emprego podem evidenciar o quanto Guedes era respeitado e transitava no meio jornalístico de São Paulo, não lhe faltando oportunidade de trabalho.
Em São Paulo deu continuidade à sua militância em defesa dos direitos dos negros, participando de associações recreativas e reuniões sociais da comunidade negra, até que, em 1928 colaborou com Argentino Celso Wanderley na fundação do Progresso, jornal cujo objetivo declarado era angariar recursos para a construção de uma herma à Luis Gama. Nele, Guedes procurou convencer seu público leitor que suas propostas em prol da ascensão do negro eram as melhores. Baseavam-se num discurso moralizador, nacionalista, de valorização da raça, da educação formal e da cultura ocidental.

Declínio e Literatura

Devido a seus posicionamentos político-ideológicos, entrou em divergência com algumas das principais lideranças afro-paulistas. Fora acusado de ser arrogante, personalista e elitista, em descompasso com os anseios da maior parte da população negra. O fato é que, se, na época de sua chegada a capital, Guedes foi elogiado, depois passou a ser criticado, o que o fez perder cada vez mais espaço no movimento associativo da ?classe dos homens de cor?.
Simultaneamente a carreira profissional e ao engajamento político, ele também se dedicou ao mundo da literatura. Sua paixão era a poesia. E, ao traduzir em linguagem poética, seus desejos, sonhos, expectativas, alegrias e frustrações, Guedes notabilizou-se por escrever, o que foi denominado na literatura negra ? uma literatura produzida por afro-brasileiros voltada a tratar de suas questões. Suas primeiras poesias foram publicadas nos jornais da imprensa negra, tanto em Campinas quanto em São Paulo. Em 1924 publicou o livro Luís Gama e sua Individualidade Literária, como forma de render, mais uma vez, tributo ao seu maior ídolo. Dois anos depois deu-se o lançamento de Black, seu primeiro livro de poesia.
Segundo o prefaciador de uma de suas obras, ele escreveu o primeiro livro intrinsecamente getulino no Brasil, ou seja, um livro em nome da e para a comunidade negra. Essa opinião é de certa forma compartilhada por David Brookshaw, para quem Lino Guedes foi o primeiro poeta negro do Brasil a experimentar a alma de seu povo.

Texto publicado originalmente na revista Desvendando a História, no. 19

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