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Mystery Train

O Escritor Pericás e o Império Americano

Por Alexandre de Freitas Barbosa


"Por que sorriem tanto? Têm de sorrir, mostrar as bocarras enormes, os dentes brancos. E ser amigáveis: assim foram ensinados desde criança. Até que, ao menor movimento, lhe arrancam as entranhas. É preciso ficar atento...".


Quem conhece o escritor e historiador Luiz Bernardo Pericás, especialmente as suas pesquisas de mestrado e doutorado - Che Guevara e a Luta Revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997) e Che Guevara e o Debate Econômico em Cuba (Xamã, 2004) - provavelmente ficará surpreso com este Mystery Train.

O autor põe o seu casaco de couro e, de mochila nas costas, movido a charutos e a uísque, parte para desbravar o império no lombo das suas ferrovias modorrentas. A lentidão e os sacolejos do trem dão o ritmo desta narrativa de um escritor completo, que precisa abdicar da concisão historiográfica - que exige profundo conhecimento das fontes, dos atores sociais e da cenografia do palco. Pericás faz isto com primazia, como demonstrou nas duas obras acima citadas. Mas, em Mystery Train, nada pode amarrar a sua imaginação galopante.

A sociedade norte-americana é descrita como o reino do absurdo, da mediocridade, do dinheiro, da repetição, da realidade nua e crua de um cotidiano sem perspectivas poéticas ou transformadoras.

Paralelamente, um desfile de paisagens e tipos humanos revela a diversidade extasiante deste país. Desde a Nova York, metrópole gigantesca com seus taxistas esquisitos, néons por todo lado, transeuntes apressados e carros que cospem óleo, até os mórmons de Utah, passando pelo deserto de Novo México, por Denver, a mais anódina das cidades, pelo brega de Los Angeles, pelas universidades da Califórnia, por Nova Orleans dos adolescentes grotescos e por Memphis, a cidade do mito Elvis.

O historiador fica de escanteio. A riqueza de detalhes é transfigurada pelo julgamento profundamente crítico onde o que é vale é a opinião do autor. Nada é perdoado. Tudo é presente, tudo é falso, tudo é dinheiro.

Os tipos humanos também são diversos - o veterano do Vietnã, o carteiro de braços tatuados, o argelino com mania de perseguição, o negro que tece loas à luta de classes. Contudo, eles cumprem tão-somente o papel de elucidar uma personalidade que devassa as entranhas de uma sociedade vazia. Os personagens contam suas histórias, mas estas servem apenas de convite à imaginação de Pericás, que as transforma em mais combustível. E assim o trem segue adiante.

Toques surrealistas como as aranhas gigantes que comem cabeças, os cupins devoradores, os cães que vão à guerra, revelam que não há saída possível. A civilização gerou seu oposto: a desumanização.

E eis que o historiador sai da toca. O texto literário aos poucos cede espaço à situação dos trabalhadores negros e mexicanos, que pagam a conta do império, à mercantilização das universidades, ao gasto com defesa do governo americano, à pobreza do Sul do país e ao discurso hipócrita da elite liberal e bem-pensante.

O império americano é o país da caricatura e destrói os ídolos do nosso escritor irrevogavelmente modernista. As greves operárias de Chicago e Colorado não existem mais. O sonho revolucionário de Che, uma estampa de camisa. O museu fabricado de Jack London, caído no esquecimento. Não há alternativas. Silêncio e solidão, a engrenagem ferroviária, e os impropérios que lança o autor contra este presente eternamente dissimulado.

Nem mesmo o sebo Revolution Books lhe parece convincente. Reconhece quão fictícios são estes seres que se reúnem em suas tribos pregando o sindicalismo revolucionário e impossível. Nada neste país merece ser levado a sério.

Talvez valha acrescentar que os Estados Unidos figuram mais como tipo ideal de uma sociedade que substituiu os fins pelos meios, e que ultrapassa as fronteiras geográficas desta nação. O escritor não consegue se encontrar em lugar algum. O seu mundo é outro.

Um existencialista, um marxista romântico, um revolucionário desiludido, um latino-americano aventureiro e sem-dinheiro-no-bolso? Talvez todos estes epítetos tenham o seu quê de verdade. Porém, o que salta aos olhos nesta obra é o escritor em processo de lapidação, recolhendo sua matéria-prima das mais diversas procedências, de forma a construir um relato desconcertante sobre o império do efêmero.





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