HISTORIANET

Brasil Colônia

O norte de Minas Gerais

O Bandeirante Matias Cardoso e a ocupação do Norte de Minas
*Eduardo Rodrigues da Silva


Resumo: Neste presente artigo intencionamos verificar a participação do bandeirante Matias Cardoso de Almeida no início da ocupação do norte de Minas. Essa região já se encontrava povoada pelos nativos, quando por volta de 1690 , a expedição comandada por ele conquista o sertão mineiro escravizando-os, e ocupando o São Francisco com povoamentos permanentes. Período também do início do povoamento pelas fazendas de gado. Por meio deste estudo pretendemos identificar e descrever algumas condições históricas do povoamento da região. No intuito de descobrir em que a região favorecia para que ocorresse a ocupação, por meio dos paulista e nordestinos.

Unitermos: Norte de Minas, Matias Cardoso de Almeida, colonização, condições, ocupação

A ocupação da região norte-mineira data do final do século XVII, através de dois movimentos populacionais: um deles vindo de Pernambuco e Bahia e o outro de São Paulo. Como nos mostra Mata-Machado:

O sertão Noroeste de Minas foi ocupado simultaneamente pelos vaqueiros que seguiram o curso do rio desde a Bahia e Pernambuco, e pelos bandeirantes paulistas que, movendo guerra ao gentio, fundaram povoados e se estabeleceram, como grandes criadores.(MATA-MACHADO, 1991, p.24).

Em 1553, a expedição de Espinosa-Navarro advinda de Porto Seguro (Bahia), adentrou a região alcançando o Rio São Francisco, por onde, retornou a Bahia. Sua expedição foi apenas de reconhecimento do local, nada concretizou em termos de povoamento. Por isso a historiografia atribui a bandeira de Matias Cardoso de Almeida como responsável pela ocupação efetiva da região a partir de 1690.
Matias Cardoso saiu de São Paulo por volta de 1690, teve por motivo o serviço militar da campanha contra os índios do Ceará e do Rio Grande. Chegando a superfície plana do Rio Verde, margem do Rio São Francisco onde assentou o arraial de Morrinhos, fixando então a era definitiva da conquista ( VASCONCELOS,1948).
Para Brasiliano Braz:

Matias Cardoso desceu o São Francisco com um exercito de 600 homens acampou em Morrinhos e ai esperou o cel. João Amaro que veio no ano seguinte [1691] com igual numero de combatentes (...) Terminada a campanha, o tenente general fixou-se em Morrinhos (BRAZ, 1977, p. 42).

O mestre-de-campo Matias Cardoso era o maior e mais famoso caudilho da época. Já havia ele subido ao sertão “até o Paraopeba, como ajudante de Fernão Dias, e até ao Sumidouro com D. Rodrigo de Castelo Branco, além de muitas outras entradas e façanhas nos sertões de São Paulo” (VASCONCELOS, 1948, P.26).
Matias Cardoso quando sai da campanha contra os índios no nordeste fixa definitivamente em Morrinhos. No que diz respeito sobre a sua morte nada sabe. Giselle Fagundes e Nahílson Martins comenta sobre o retorno da expedição de Matias Cardoso e de seu companheiro Gonçalves Figueira:

Gonçalves Figueira e seu cunhado Mathias Cardoso (este era casado com Inês Gonçalves, irmã de Figueira), após deixarem a guerra no sertão nordestino encaminharam-se para o norte de Minas, onde juntos com muitos parentes e pessoas próximas fundaram as grandes fazendas de gado que nos primeiros anos dos setecentos se tornariam essenciais para o abastecimento das minas. Mathias, antes mesmo de sua entrada na guerra, já havia estabelecido o seu arraial na beira do São Francisco, e os seus parentes acabaram concentrando-se nas margens do dito rio, enquanto os Figueiras fixaram-se junto ao Verde Grande. É de 1690 a concessão de 80 léguas quadradas ao tenente-general e outras dezenove pessoas ( FAGUNDES e MARTINS, 2002, p.65).


Um fato que não podemos esquecer, que bem antes da chegada dos baianos e paulistas no norte de Minas, já existia a presença de vários grupos indígenas. Portanto, os primeiros habitantes dessa região foram os nativos. O tenente-general Matias Cardoso juntamente com os seus comandados exterminaram, capturaram e vendeu milhares de índios previamente condenados a servidão.
Dessa forma, segundo José Maria “após quatro anos de campanha, em que os grupos indígenas que estavam estabelecidos foram massacrados e/ou transformados em escravos. (...) Os integrantes da expedição criaram vários povoado e se estabeleceram na região como criadores de gado” (OLIVEIRA (org.), 2000, pp.180-181).
Em sua análise Diogo Vasconcelos também afirma dizendo que os chefes paulistas por volta do ano de 1690:

Tratou de cercar os bandos desagregados e de reduzi-los à escravidão. Criaram-se, por isso, as diversas fazendas de criar que datam desta época, nas quais se recolheram os escravizados, que se estabeleceram com os vencedores na zona fértil. (...) Realizaram, portanto, os paulistas os intentos com que subiram para o sertão e nunca mais voltaram a São Paulo. (VASCONCELOS, 1948, P.30).

As fazendas de gado, do nordeste, seguiram a margem do Rio São Francisco e alcançaram o norte de Minas. A pecuária alcançando o sertão de Minas, somada com outras condições foi outro meio eficiente para a ocupação e estruturação da região. No dizer de Caio Prado esta parte de Minas é, “geograficamente e historicamente um prolongamento da Bahia. Foi povoada pelas fazendas de gado que subiram no século XVII as margens do São Francisco, alcançando já nesta fase o seu afluente Rio das Velhas” (PRADO, 2006, p.197).
Dentro desse contexto, o Rio São Francisco e seus afluentes tiveram um papel fundamental na ocupação da região, serviu de via para transporte de pessoas, mercadorias e alimentos (milho, feijão, carne seca, rapadura, farinha etc.).
Portanto, era estratégico que os povoados ficassem localizados às margens dos rios navegáveis. E parte da produção regional sendo comercializada dentro dos limites dos mesmos. Por conta da atividade pecuária desenvolvida, o rio São Francisco recebeu a denominação de Rio dos Currais. Importante meio de contato entre o nordeste e o centro sul do país, sendo assim, mais tarde, passou a ser chamado de Rio da Integração Nacional.
Como bem observamos, nos primeiros tempos da ocupação à expansão das fazendas pelo velho Chico, se fez pela violência contra os nativos, até porque as terras ocupadas eram deles, porém era preciso que se tornassem submissos. “Derrotados” os grupos indígenas; Matias Cardoso firmado nas relações de parentesco, repartiu as terras para seu filho Januário Cardoso e seus parentes. Da expedição do mestre-de-campo Matias Cardoso originou os principais povoadores da região. Entre eles podemos destacar Januário Cardoso e Antônio Gonçalves Figueira. Como descreve Mata-Machado:

A Januário Cardoso é atribuída a fundação dos arraias de São Romão e Porto Salgado, hoje Januária. A Antônio Gonçalves Figueira, os de Manga, Barra do Rio das Velhas (Guaicui) e Formigas (Montes Claros). (...) As terras adjacentes foram repartidas por Januário Cardoso a seus parentes de São Paulo. Seus primos, capitão Francisco de Oliveira e D. Catarina Cardoso do Prado ocuparam terras do alto-médio São Francisco; o sobrinho Matias Cardoso de Oliveira, instalou-se na região do Urucuia; Domingos do Prado Oliveira em Pedras do Angico ( São Francisco) e Salvador Cardoso Oliveira em Pedras de Baixo (Pedras de Maria da Cruz) (MATA-MACHADO, 1991, P.35).

A partir daí, no século XVII, já era possível observar vários currais nas beiras dos rios (tanto de baianos como de paulista) e surgimento de pequenos povoados. Tendo como maioria dos moradores os índios. Os principais povoados da ribeira do são Francisco, no período colonial, “foram os portos distribuidores de sal – Morrinhos, São Romão e Guaicuí - e os centros distribuidores de produtos agropecuários – Pedras de Maria da Cruz e Januária” (MATA-MACHADO, 1991, p.35)
Alguns fatores ligados à pecuária merecem destaque para o processo de ocupação regional. O solo é pouco fértil, porém a região foi favorecida pelas extensas pastagens naturais, presença de água e terrenos salinos. A existência do sal foi essencial, pois este pôde ser aproveitado pelo gado. Entretanto, como nos é lembrando por Mata-Machado, essas terras não eram tão abundantes em sal que dispensassem a importação deste.
No período colonial, os currais de gado utilizaram grandes espaços territoriais. A pecuária sendo praticada em regime extensivo, executado pela maioria de homens livres: grandes proprietários, vaqueiros, moradores, agregados libertos e pela pequena parcela de escravos – índios e negros. A mão-de-obra negra quase não foi usada na região, muitos dos quais viviam aqui eram foragidos. Dessa forma, ocuparam espaços para formação de vários quilombolas. Já o escravo da terra, indígena, foi bastante utilizado nos primeiros anos do povoamento.
As fazendas eram compostas por pouca mão-de-obra, este pode ser um dos motivos para que o povoamento acontecesse de forma menos numerosa e gradativa. Pois:

(...) o pessoal empregado é reduzido: o vaqueiro, e alguns auxiliares, os fábricas. (...) Nas fazendas muito importantes há às vezes dois e até três vaqueiros. (...) Os fábricas são em número de dois a quatro, conforme as proporções da fazenda, são subordinados ao vaqueiro e auxiliam em todos os serviços (PRADO, 2006, p. 192).

No início da colonização, a região norte-mineira, pertenceu às capitanias de Pernambuco – margem esquerda do Rio São Francisco – e da Bahia – na margem direita. A concessão de sesmarias, sem dúvida, foi responsável para o povoamento gradativo da região, originando as primeiras propriedades onde predominava a pecuária como principal atividade econômica.
A respeito das doações de sesmarias Brasiliano Braz afirma que:

(...) havia fortes razões de ordem administrativa e política que justificavam a doação de grandes patrimônios territoriais a determinadas famílias cujos chefes, elevados assim à condição de verdadeiros potentados, representavam a força do rei, no sertão sem lei, sem policiamento e sem outra autoridade (BRAZ, 1977, p. 39).

Na concepção de Mata-Machado duas famílias foram fundamentais no povoamento do sertão do São Francisco. São elas a Casa da Torre localizada na margem direita, encabeçada por Garcia D´Àvila; e a Casa da Ponte de Antônio Guedes de Brito na localização oposta. Nessas sesmarias a pecuária se expandiu rapidamente pelo costume de arrendamento de terras “praticadas por seus proprietários bem como pela concessão de parte das crias aos vaqueiros, os quais, muitas vezes, formavam seus próprios currais” ( OLIVEIRA (org.), 2000, p.183).
Caio Prado Jr. em uma análise mais detalhada afirma:

Contribuiu ainda para a multiplicação das fazendas o sistema de pagar o vaqueiro, que è quem dirige os estabelecimentos, com ¼ das crias, pagamento que só se efetua decorridos cinco anos, acumulados as quotas de todos eles. O vaqueiro recebe assim, de uma só vez, um grande número de cabeças, que bastam para ir-se estabelecer por conta própria (PRADO, 2006, p.191).

Os pecuaristas da época criavam cavalos para guiar as boiadas. Com isso, pode-se considerar as rotas das boiadas como um dos fatores para a formação de muitos povoados. Em princípio, esses povoados tendo a função de atender os vaqueiros no momento em que por eles passavam, servindo como uma parada para alimentar e descansar.
Paralelo à pecuária desenvolveu-se a agricultura de subsistência como o arroz, feijão, mandioca (farinha), milho e cana-de-açúcar (cachaça e rapadura). Os vaqueiros para complementar sua alimentação, plantavam nas vazantes e brejos. No período de enchentes derrubava as matas e se instalava no cerrado. Esse “ciclo natural do rio: seca, enchente, cheia, vazante - sempre possibilitou a essas populações o acesso a terras periodicamente fertilizadas pela matéria orgânica ou lameiro...” (COSTA, 2005, p.311).
Os ocupantes da região encontraram vários recursos naturais que facilitaram a sua instalação no local. Várias espécies de ervas medicinais, de frutos silvestres e madeiras que podiam ser usadas tanto como lenha, construções diversas ou na fabricação de canoas e barcos. No século XIX quando passaram por essa região os viajantes estrangeiros Spix e Martius, eles descreveram a utilidade de uma das mais abundante árvore dessa localização: o Buriti. Saber aproveitar os recursos naturais è uma herança colonial passada de geração após geração, ou seja, uma interação entre a natureza e a população. Sobre os multiusos dessa madeira pelos moradores os viajantes nos conta:

Ele fornece aos habitantes fio e fibras resistentes, tiradas da epiderme das folhas; com estas, dá coberta para palhoças; fazem-se gradeados e ripas, com a parte periférica de seu caule; remos, com a haste de suas folhas; uma bebida muito agradável, semelhante a água de bétula e suscetível de fermentação alcoólica, com a seiva contida no caule; e um saboroso petisco è preparado com a polpa do fruto, misturando com açúcar, que, com o nome de saieta, é doce apreciado e artigo de comércio do sertão de minas com a costa. Todas estas utilidades tornaram quase sagrada para os sertanejos a preciosa árvore e, nalgumas regiões, com, pó exemplo, em São Romão, é costume dar-se em dote à filha também um certo número de buritis (SPIX, MARTIUS apud FAGUNDES; MARTINS, 2002, P.68)

A caça e a pesca complementavam a alimentação dos habitantes. De acordo com Mata-Machado em algumas localidades como Formigas, Cotendas, Coração de Jesus, Januária e Manga havia depósitos de terras salitradas (salitre), matéria-prima para a fabricação de pólvora usada para a caça. O que facilitava para se ter uma boa atuação na atividade.
Através da caça e da pecuária bovina extraia uma matéria-prima de suma importância para época, o couro. Constituía não só um produto de exportação, mas também, era empregado no cotidiano das pessoas, na casa, na fazenda, para embalar os produtos ou até mesmo na fabricação de roupas. “Os animais selvagens forneciam suas peles, que serviam para confecção das vestimentas dos vaqueiros e era um produto de exportação de excelente aceitação no mercado” (MATA-MACHADO, 1991, p.66).
A pesca foi facilitada pelo rio e por diversas lagoas, onde próximos delas instalavam as pessoas, retirando o barro para construírem suas casas, fabricarem potes para reserva de água e panelas. Os moradores preferiam construir sua casa na beira do rio ou então, na ilha, “é aí que os vazanteiros estabelecem moradias e constroem os sistemas de quintais ao redor da casa, com o plantio de frutíferas e a criação de pequenos animais” (COSTA, 2005, p.313).
No período da colonização, como analisamos, o norte de Minas apresentava muitas condições para a ocorrência de sua ocupação permanente. Seu povoamento no sentido norte para o sul ocorreu quase exclusivamente por força do grande centro que foi a Bahia, com a sociedade açucareira. Já o papel povoador vindo do sul, ocorreu da ganância dos paulistas por ouro, metais preciosos e mão-de-obra barata e farta.
Nota-se que a bandeira do tenente-general Matias Cardoso na região foi diferente. Sendo que aos bandeirantes foi atribuída a fama de que sempre anda a viajar, vistos como nômades. Aqui eles estabeleceram povoamentos sólidos, efetivos, permanentes e construiu uma nova vida longe dos grandes povoados, o litoral.
Importante enfatizar, que nesse período, não tinha descoberto ouro em Minas Gerais. Portanto, baianos e paulistas – com a indiscutível ajuda dos nativos – baseados na pecuária e utilizando os recursos que a região dispunha, foi o elemento fundamental e estimulador da ocupação do sertão norte-mineiro.



Referências Bibliográficas
BRAZ, Brasiliano. São Francisco nos Caminhos da História. São Francisco: Lemi, 1977.
COSTA, João Batista de Almeida.Cerrados Norte Mineiro: populações tradicionais e suas identidades territoriais.In: ALMEIDA, Maria Geralda (Org.). Tantos Cerrados: múltiplas abordagens sobre a biogeodiversidades e singularidade cultural. Goiânia: Ed. Vieira, 2005.
FAGUNDES, Giselle; MARTINS, Nahílson. Capítulos Sertanejos. Montes Claros, 2002.
MATA-MACHADO, Bernardo. História do Sertão Noroeste de Minas Gerais 1690-1930. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1991.
OLIVEIRA, Marcos Fábio Martins [et al.]. Formação Social e Econômica do Norte de Minas. Montes Claros: Ed. Unimontes, 2000.
PRADO, Caio Junior. Formação do Brasil Contemporâneo. 23 ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.
VASCONCELOS, Diogo. História Média de Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1918.

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