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Vestibulares

2008 – Fuvest – 2ª. Fase

2ª. Fase do vestibular – prova realizada em 7 de janeiro de 2008

Comentários dos professores Claudio Recco e Hélio Moreti para o ALFERES VESTIBULARES de S Paulo.

Q.01
A cidade antiga (grega, entre os séculos VIII e IV a.C.) e a cidade medieval (européia, entre os séculos XII e XIV), quando comparadas, apresentam tanto aspectos comuns quanto contrastantes.
Indique aspectos que são
a) comuns às cidades antiga e medieval.
b) específicos de cada uma delas.

A) As cidades gregas possuíam autonomia política entre si, assim como as cidades medievais quando ganhavam o status de comunas. Nos dois casos o poder político era exercido a partir das necessidades locais, com pouco espaço para outras esferas de poder. Economicamente as cidades gregas e medievais conheceram um razoável desenvolvimento comercial, servindo de pontos de ligação e referência entre áreas de povoamento distantes. Assim as colônias gregas na orla do Mediterrâneo foram interligadas pelas cidades peninsulares e pela ação de sua camada comercial, assim como as áreas do Oriente e a Europa Ocidental foram interligadas pelas atividades desenvolvidas pela incipiente burguesia comercial das cidades medievais.

B) A hierarquização social nessas cidades era um importante ator de diferenciação, posto que no caso grego houvesse uma maior possibilidade de ascensão social se comparada à organização social medieval, mesmo no contexto urbano. Cabe citar a postura notadamente belicosa das cidades gregas, com exércitos próprios que, não raras vezes, se enfrentaram de maneira bastante feroz; essa prática não era comum às cidades medievais, dependentes da proteção de nobres ou exércitos nacionais. No aspecto político, as cidades gregas traziam consigo uma identidade local que as transformava em quase nações autônomas onde não era incomum a prática da xenofobia. A cidade medieval era cosmopolita na sua gênese, servindo de abrigo para imigrantes das mais variadas partes da Europa e do mundo conhecido, explicando em grande parte a riqueza cultural que serviu de matéria-prima para o Renascimento Cultural ao final da Idade Média.

Q.02
Se, para o historiador, a Idade Média não pode ser reduzida a uma “Idade das Trevas”, para o senso comum, ela continua a ser lembrada dessa maneira, como um período de práticas e instituições “bárbaras”.
Com base na afirmação acima, indique e descreva:
a) duas contribuições relevantes da Idade Média.
b) duas práticas ou instituições medievais lembradas negativamente.

a) Durante a Idade Média, em especial a Baixa Idade Média, houve grandes transformações culturais, produzidas pela tradução de obras clássicas e pela incorporação de uma parte de seus conceitos, que deu origem a escolástica, expressão filosófica que procurou combinar o espiritualismo cristão com o racionalismo clássico. A cultura muçulmana, por sua vez, pode ser considerada uma importante referência para a Europa Medieval; a introdução de noções de medicina, química, arquitetura e matemática, dinamizaram de maneira significativa a cultura ocidental e formaram a base de um legado que permanece importante ao longo de séculos. Durante esse período novas técnicas agrícolas se desenvolveram e possibilitaram um aumento da produção.
b) A principal lembrança negativa é o Tribunal do Santo Ofício e a prática da Inquisição, desde o século XII, responsável pelas perseguições, julgamentos, tortura e condenação à fogueira. Além dessa categoria de violência, o período também é associado à eclosão e permanência de diversos conflitos, responsáveis pela dizimação de grande parte da população européia. No aspecto social, a exploração do trabalho servil, determinou condições de vida miseráveis aos não nobres, acentuando de maneira expressiva a hierarquização social, justificada e defendida pela Igreja Católica.


Q.03
Durante o século XVIII, na Europa, constituíram-se dois pólos dinâmicos: um de dimensão cultural, representado pela França, e outro de dimensão econômica, representado pela Inglaterra.
Descreva aspectos referentes ao
a) primeiro pólo.
b) segundo pólo.

A) A França no século XVIII foi, assim como boa parte da Europa, o palco de uma vigorosa onda de oposição à sociedade do Antigo Regime. No caso francês o movimento iluminista assume um papel relevante devido ao absolutismo Bourbon, considerado o mais perfeito exemplo em todo continente, simbolizado pelo rei Luiz XIV, o Rei Sol. Já na fase de decadência dessa dinastia, nomes importantes como Voltaire, Montesquieu e Rousseau teceram críticas a diversos aspectos da sociedade nobiliárquica francesa que receberia um golpe significativo ao final do século com a Revolução Francesa.
B) Economicamente a Inglaterra representou a mudança significativa para o capitalismo europeu ao final do século XVIII, devido ao advento da Revolução Industrial. Processo longo e marcado pela introdução de formas novas de produção, a Revolução Industrial tornou possível para o capitalismo a era da produção em larga escala, a dinamização de centros urbanos, além de trazer no seu bojo o nascimento de uma nova classe social: o proletariado urbano. As novas necessidades do capitalismo vão determinar mudanças expressivas nas relações políticas no Ocidente, além de tornar cada vez mais universal a forma de produção maciça de bens.

Q.04
O estabelecimento dos franceses na Baía de Guanabara, em 1555, é um entre outros episódios que ilustram as relações entre a França e as terras americanas pertencentes à Coroa lusitana, durante os três primeiros séculos da colonização.
a) Explique o que levou os franceses a se estabelecerem pela primeira vez nessas terras.
b) Cite e caracterize uma outra tentativa francesa de ocupação na América Portuguesa.

a) Os franceses nunca aceitaram o Tratado de Tordesilhas e, portanto, não reconheciam o direito atribuído à Portugal e Espanha em 1494. No momento em que os franceses invadiram a Baía da Guanabara vivenciavam um processo de centralização política, marcado pelas disputas religiosas entre católicos e huguenotes, sendo que muitos desses eram burgueses e estavam interessados na expansão comercial, com a conquista de novas terras e mercados, além de um local que servisse de refúgio.

b) A outra tentativa importante foi realizada entre 1612 e 1615 no litoral do atual Maranhão, onde os franceses católicos fundaram o Forte de São Luís, no contexto da União Ibérica, momento em que os franceses pretendiam ampliar suas possessões na América e se conflitavam com a Espanha, potência da época. Durante esse período governo do Cardeal Richelieu, de tendência absolutista, garantia apoio do Estado àqueles que tivesses vínculos político e religiosos com o mesmo.

Q.05
Nos Estados Unidos, a expansão para o Oeste se completou no final do século XIX. Discorra sobre esse fenômeno histórico no que se refere
a) à questão indígena e à incorporação de terras para a agricultura.
b) ao Oeste, como temática da cultura norte-americana, por exemplo na literatura, no cinema e nos meios de comunicação.

A) A expansão norte-americana para o Oeste representou o processo de aniquilação das nações indígenas presentes na região. Ao expandir as fronteiras cada vez mais para o Oeste os colonos, como auxílio das forças militares e das empresas ferroviárias, dizimaram aldeias inteiras, além de destruir completamente os recursos naturais disponíveis para a manutenção dessas comunidades. As terras foram rapidamente ocupadas pelos chamados “desbravadores”, que recebiam amparo legal e material do governo dos EUA (Homestead de 1862). Aos poucos as terras selvagens do Oeste foram incorporadas ao território americano a partir da supostamente “épica” marcha para o Oeste.

B) A expansão para o Oeste é um dos temas formadores da auto-imagem do norte-americano. O cow-boy é apresentado pelo cinema como herói destemido que simbolizaria a ímpeto empreendedor da nação americana. Nos filmes mais antigos as figuras do índio e a do mexicano são apresentadas de maneira caricatural e pejorativa. Na literatura as histórias de mocinhos e bandidos formam o imaginário simplista que reforçam idéias formadoras de um “destino manifesto” na luta entre o bem e o mal. Curiosamente esse maniqueísmo está presente em toda produção cultural dos EUA e ainda determina o tom nas relações entre os governos norte-americanos e as demais nações.

Q.06
A extinção do tráfico de escravos africanos no Brasil ocorreu em 1850.
Com relação a esse marco histórico,
a) explique o papel da Inglaterra nessa decisão.
b) relacione-o com a chegada de imigrantes.

a) Desde 1810, com o Tratado de Comércio e Navegação, a Inglaterra pressionava os portugueses para promoveram o fim do tráfico. Essa situação esta relacionada à expansão das idéias iluministas e principalmente à Revolução Industrial, que passou a exigir a ampliação dos mercados consumidores. Em outros momentos a Inglaterra revitalizou suas pressões, como em 1825 – ao reconhecer a independência do Brasil – e posteriormente em 1831 – quando da organização do governo regencial. A pressões se ampliaram em 1845, com a aprovação do Bill Aberdeen pelo Parlamento Inglês e com o aprisionamento de navios negreiros.
b) A extinção do tráfico negreiro em 1850, com a Lei Eusébio de Queiroz, ocorreu em um momento de expansão dos cafezais, principalmente no oeste paulista, que exigiam um aumento do número de trabalhadores. Para atender a essa demanda, governo e cafeicultores desenvolveram uma política de incentivo à imigração, grande parte deles destinados a lavoura de café, a partir do desenvolvimento do sistema de parceria e do trabalho livre.

Q.07
A vitória do regime republicano no Brasil (1889) e a conseqüente derrubada da monarquia podem ser explicadas, levando-se em conta diversos fatores. Entre eles, explique:
a) a importância do Partido Republicano.
b) o papel dos militares apoiados nas idéias positivistas.

A) O Partido Republicano desempenhou um importante papel no contexto de crise do regime monárquico no Brasil, ao final do século XIX. Apesar de não ser um tipo de proposta política nova, o republicanismo representou a partir da década de 70 do século XIX, um importante ponto de oposição ao governo Pedro II, principalmente por trazer em suas fileiras a elite cafeeira do Oeste Paulista. A partir de uma proposta moderada (patrocinada por Quintino Bocaiúva) com base na organização da Convenção de Itu, o republicanismo ganha legitimidade em todo território nacional. Com apoio de outros setores sociais e com notada participação da imprensa, o republicanismo supera por um golpe militar o regime monárquico.
b) O Positivismo, trazido para a academia por Benjamin Constant, foi um importante ponto de apoio ideológico e filosófico para os militares brasileiros. O Exército ganhou importância depois da Guerra do Paraguai e seus principais líderes, com base no pensamento racional positivista, passam a tecer críticas ácidas ao combalido regime imperial. Matérias como o pagamento de pensões ás viúvas de militares mortos na guerra, a abolição da escravidão e até a suposta venalidade da administração imperial eram tratadas pela imprensa, fazendo com que o governo imperial tomasse medidas repressivas contra as principais lideranças militares. Esse clima de instabilidade foi importante para a eclosão do golpe que poria fim ao governo monárquico.

Q.08
“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. [...] Caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”
Euclides da Cunha, Os Sertões.
Relacione o movimento de Canudos com
a) os problemas econômico-sociais da região.
b) a crença religiosa e a luta política da população.

a) Apesar do arraial de Canudos se localizar no interior da Bahia, supõe-se que a região a que se refere a pergunta é o Nordeste. A população de Canudos provinha de diversos estados do Nordeste, caracterizados por grande pobreza e marginalidade. A pobreza da região está associada à decadência das lavouras tradicionais, às secas – destacando-se a de 1877 – e a concentração fundiária, enquanto a marginalidade está associada às práticas corolenísticas e a ignorância a qual estava submetida a população.
b) A população brasileira é marcada por forte religiosidade, católica, e ao longo do tempo foi influenciada por crenças em Santos e Messias. O movimento de Canudos é considerado um movimento messiânico, sebastianista, pois seu líder, Antonio Conselheiro, pregava a volta do Rei D. Sebastião, que salvaria a todos os seus seguidores.
Quanto a “luta política da população”, considerando-se a população de Canudos, foram considerados monarquistas, em parte pelas críticas de Conselheiro à República, em parte por se colocarem contra a ordem vigente, a recém proclamada República, acusados de subversão.

Q.09

  

Observando essas duas imagens e apoiando-se em seus conhecimentos,

a) descreva os dois personagens históricos, explicando as relações entre o Estado e os trabalhadores.
b) indique, no mínimo, duas outras caracterísitcas desses dois governos denominados populistas.

a) Os dois personagens são respectivamente Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas. Os governos desses dois presidentes foram marcados pela adoção do modelo populista, que consistia em estabelecer um “estado de compromisso” entre os governantes e os governados. Esse tipo de modelo pressupõe uma espécie de pacto entre o líder e a massa de trabalhadores, notadamente das cidades. Por esse pacto o governante defenderia o povo através da implantação da justiça social (justicialismo peronista) e da inserção do trabalhador na vida política nacional (trabalhismo varguista); em troca a população daria incondicional apoio ao presidente. A relação de dependência oriunda desse pacto, destrói a possibilidade de autonomia sindical e cria um contexto para o estabelecimento do culto à personalidade do líder, que aos poucos se transforma em símbolo nacional
b) Em comum esses dois governos foram caracterizados por um forte incentivo á industrialização nacional, com efetiva participação do Estado na economia. Podemos apontar que esse modelo possibilitou também a implantação de Estados de exceção tanto no Brasil quanto na Argentina, ou seja, na medida em que os interesses políticos foram substituídos pelo “pacto de compromisso”, as necessidades nacionais foram confundidas com as necessidades de governo; assim, as regras institucionais passaram a ser colocadas em segundo plano, abrindo espaço para a ditadura.


Q.10
Índia e China ocupam, no atual cenário mundial, um lugar tão importante que já se fala, entre estudiosos de geopolítica, em denominar o século XXI como o “século asiático”.
Sobre as trajetórias históricas contemporâneas desses dois países, iniciadas, respectivamente, em 1947 e 1949, é possível estabelecer mais de um paralelo, ressaltando semelhanças e contrastes.
Indique o processo histórico
a) da Índia, a partir de 1947, e seus desdobramentos posteriores.
b) da China, a partir de 1949, e seus desdobramentos posteriores.

a) Em 1947 foi formalizada a Independência da Índia, depois de algumas décadas de lutas contra a Inglaterra. O processo de independência é tradicionalmente considerado pacífico, devido a predominância da política de “não-violência” e de “resistência pacífica” liderada por Gandhi. A independência promoveu a divisão da região em Índia (de maioria hindu) e Paquistão (de maioria muçulmana), e imediatamente iniciou-se a “questão da Caxemira”, região de população muçulmana sob governo hindu. Em 1971 a província de Bengala se separou do Paquistão com o apoio da Índia. Nas décadas seguintes os conflitos tenderam a se intensificar e os dois países iniciaram uma corrida armamentista e a fabricação de armas nucleares. Desde 2002 a região voltou a ser alvo de disputas entre as duas nações.
b) Em 1949 os comunistas tomaram o poder. A Revolução Chinesa vitoriosa foi liderada por Mão Tse Tung que implementou reformas estruturais no país, organizando um modelo socialista com diferenças em relação à União Soviética. O modelo maoísta perdurou até os anos 70, quando se estabeleceram relações diplomáticas e comerciais com países capitalistas, porém apenas no início dos anos 90, sob a liderança de Deng Xiaoping, que a abertura se aprofundou com o estabelecimento de uma “economia socialista de mercado”. Desde então a economia chinesa é a que mais cresce no mundo, absorvendo grande parte dos investimentos internacionais.


COMENTÁRIO:
O exame de História, segunda fase da FUVEST 2008 manteve as mesmas características dos exames anteriores. Foi uma prova abrangente, fiel aos programas de História do Ensino Médio. Algumas questões trouxeram no seu corpo a importante estratégia de correlacionar tempos e espaços diferentes, postura adotada também na primeira fase, mostrando a preocupação em estabelecer uma uniformidade para as duas fases do vestibular. Em particular a questão de número 5, relativa aos EUA , trouxe uma abordagem interessante ao associar o processo de expansão para o Oeste e a criação cultural dos meios de comunicação norte-americano sobre o tema, exigindo do aluno o discernimento entre os fatos e as representações dos fatos. A interpretação também é exigida na questão de número 2, que relativisa a imagem da Idade Média. Nas questões menos interpretativas e mais conceituais (ou mesmo factuais), o conteúdo cobrado não foi estanque e procurou na medida do possível identificar o quanto o candidato estaria familiarizado com os principais temas e tópicos dos programas de História.

Veja como foi a prova Discursiva da UNICAMP

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