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Minha história, sua história, nossa história
Livro aborda a importância da História Oral
Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo
Do SINPRO - SP

Lançado agora em novembro, o livro História Oral – como fazer, como pensar (Editora Contexto) chama a atenção não apenas por trazer explicações detalhadas sobre o que é esse método, mas principalmente por conseguir desenvolver e aperfeiçoar antigos conceitos, ajudando a derrubar alguns estereótipos e indicando os caminhos para a concretização sustentada da prática da história oral. Na visão de José Carlos Sebe Meihy e Fabíola Holanda, autores da obra, a técnica representa uma possibilidade de reconstrução da história a partir de relatos narrados pelos envolvidos (direta ou indiretamente) nos mais diferentes episódios. Em outras palavras, resgata os acontecimentos a partir das memórias e lembranças de pessoas que de alguma forma estão ligadas aos fatos. Os grandes acontecimentos mundiais, as reviravoltas vividas por um país ou até mesmo os percalços enfrentados por pequenas comunidades ganham vida na voz de populares, anônimos, testemunhas, parentes dos personagens envolvidos, dentre tantas outras fontes.
O problema que sempre se levanta quando o assunto em pauta é a história oral é a questão da validade e da legitimidade das fontes. Críticos do método alegam que não se pode confiar, ou não se deve balizar a construção da história a partir do relato de gente comum. Mais ainda: dizem que as entrevistas são carregadas por um excesso de subjetividade, que acabaria por afetar o rigor científico. Seria assim preciso ouvir especialistas e consultar documentos. Sem isso, a fonte de informação invalidaria a pesquisa. O que Sebe, professor de História da Universidade de São Paulo, e Fabíola, professora de História da Universidade Federal de Rondônia e pesquisadora do Núcleo de História Oral da USP, mostram no livro é que essa é uma polêmica ultrapassada. “Quem alega que as nossas fontes não são válidas não conhece de verdade o método da história oral”, explica Fabíola, “Temos uma técnica bastante bem embasada, cheia de etapas válidas e que consegue transformar um relato falado num documento histórico de valor real. Além disso, é a comparação dos vários documentos que constrói a versão da história”, defende.
Contar histórias
Segundo a especialista, as etapas de produção são muitas – e todas bastante rigorosas e cuidadosas. Primeiro é feita uma entrevista, que nem é exatamente uma entrevista no sentido tradicional da palavra, porque os historiadores não buscam respostas, mas perseguem narrativas – a idéia do livre contar histórias. Então, em vez de perguntas, eles oferecem alguns estímulos para que o colaborador vá desvelando sua versão dos acontecimentos. Cabe aqui explicar que, antes dos trabalhos do Núcleo da USP, chamava-se o entrevistado de informante. “Agora passamos a chamá-lo de colaborador. E não é só uma mudança de palavras, é de postura e de papel”, ensina a pesquisadora, antecipando uma característica que será explicada mais adiante. Depois da entrevista, o relato é transcrito, vira texto escrito. Nessa etapa, ainda temos um produto bastante semelhante ao que está na gravação. O momento seguinte é o que os historiadores chamam de textualização. Nesse ponto, os estímulos dados pelos entrevistadores começam a sumir, e a fala passa a ganhar a forma de um texto documental. Em seguida, manifesta-se o que chamam de transcriação – e aqui, o que era oral (ou indicação de oral), como pausas, ironias, gaguejadas, risos, frases incompletas, se transmuta para um texto sem essas interferências. E nesse ponto entra novamente em cena o colaborador.
O livro de Sebe e Fabíola propõe que o antes informante e agora colaborador seja visto como uma espécie de co-autor do documento gerado a partir de seus relatos. Portanto, depois de transcriado (para manter a fidelidade à linguagem agora usada pelos historiadores orais), o texto volta para o colaborador, que lê, confirma se é aquilo mesmo e, se não houver nada a mudar, assina um termo de cessão, confirmando que aquilo tudo que está registrado é verdade e que foi ele quem revelou todas aquelas histórias. Ou seja, um depoimento transforma-se em um texto com garantias. Na verdade, apontam os autores, essa briga da validade das fontes revela um pensamento que ainda permeia a cabeça e a atuação de muitos historiadores: que a história é feita por poucos e somente as fontes oficiais têm o direito legítimo de contá-la. Evidentemente os autores discordam dessa perspectiva. Para eles, a história é uma construção coletiva, cada um dá uma parcela de colaboração e é aí que reside a beleza da história oral. O grande desejo desse método “é dar variadas vozes para a história, é quebrar a tradição de que só quem foi bem sucedido conta o que aconteceu”, explica Fabíola.
Mas e se o colaborador mentir? E se a memória dele falhar? “Entendemos que esses comportamentos, mentir, omitir, exagerar também fazem parte das lembranças, porque elas revelam a versão que aquela pessoa quer construir de um fato”, afirma Fabíola. E completa: “mas a história é feita de versões mesmo”. Segundo ela, o interessante na história oral é que ela dá voz às variadas dimensões de um mesmo episódio ou acontecimento e isso é valoroso. Ao contar a história de uma greve, por exemplo, ouve-se o patrão, o empregado, a esposa do patrão, a esposa do funcionário, o líder sindical. E os pesquisadores estão preparados para a possibilidade de cada uma dessas fontes carregar mais as tintas em um ou outro aspecto; omitir ou acentuar outros. É no embate das versões que se constrói o contexto daquele momento, que se entende os discursos que estão em choque e que se disputa a construção da História com H maiúsculo. É também no embate que se torna a História mais democrática, mais próxima do que aconteceu.
“A discussão sobre o que é “A” verdade é infrutífera, porque por trás de cada fala há a voz de um grupo, de uma família, de uma categoria, que entra na disputa pela versão final”, continua a especialista. O que os historiadores buscam é dar uma visão cada vez mais ampla e mais humana dos fatos. Por isso, a entrevista corre solta e o colaborador fala o que acredita ser mais importante. O embate e a comprovação ou não dos fatos narrados não acontece durante a entrevista. Acontece depois, durante o confronto dos vários depoimentos.
Democratizar a história
A primeira parte do livro estende-se até aqui. Em um segundo momento, talvez o mais importante para os educadores de forma mais ampla, pretende apontar formas de aplicar todos esses conceitos renovados nos mais variados usos e projetos. Fabíola revela que o Núcleo de História Oral vem dando suporte a uma série de grupos que estão desenvolvendo trabalhos de história oral. “São equipes de Santa Catarina, de Porto Velho e de outras localidades que viram na história oral uma maneira de resgatar o passado ou de contar uma história que nunca foi contada, ou recontar uma história que só foi ensinada de um jeito até hoje”, comemora. E o sucesso do método, mesmo apesar das críticas, vem de uma proposta nobre, a de democratizar a história e de fazer cada população se apropriar de sua memória. E, segundo os autores, tomar posse do seu passado, de suas origens pode ser o primeiro passo na direção da cidadania, de uma existência mais democrática.
Em sala de aula, acredita a professora da Federal de Rondônia, o uso da história oral costuma apresentar muito bons resultados, mesmo nas séries iniciais. Normalmente o trabalho começa com a coleta de depoimento de pais e avós. E colocar os alunos em contato com suas origens familiares sempre traz gratas surpresas e algumas possibilidades. “Entre elas, a de fazer a história do passado e do presente ocupar mais espaço na vida desses estudantes”, propõe Fabíola. Numa linguagem pedagógica e mais conhecida dos professores, aproximar qualquer conteúdo do estudante é a melhor maneira de fazer com que ele se envolva com a discussão e produza sentidos para os diversos conteúdos ensinados.
Outro excelente resultado aparece no gosto que os hitoriadores-mirins desenvolvem pela pesquisa. “Eles são colocados diante de um método, têm de seguir um roteiro, depois têm que processar os resultados e montar um relatório. Essa é uma atividade de pesquisa e, se for bem conduzida, faz despertar esse prazer na busca, na descoberta, o que é fundamental para fazer nascer cientistas, pesquisadores”, afirma, otimista. Para a pesquisadora, conseguir que os jovens se deixem invadir pela força simbólica de ser dono do próprio passado traz à tona uma velha máxima, repetida desde sempre nas escolas, mas que, nesse caso, apesar de ser um clichê, faz todo o sentido: quem não conhece seu passado, não pode construir o presente e nem se projetar no futuro.

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