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Brasil Colônia

Caetana

ALÉM DA RELAÇÃO SENHOR E ESCRAVO

Por Cristiano Catarin

Quando nos deparamos com a temática da escravidão no Brasil logo adquirimos a tendência de relacioná-la na configuração do trabalho extenuante realizado pelos escravos a mando de seu senhor. Deixando, não raro, de mencionar a cultura destes negros que está intimamente presente no dia-a-dia desta relação. Praticamente duvidamos da existência de uma proximidade no domínio existente entre arbitrariedade e obediência. A historiografia, felizmente, está avançando nesta temática e abordando novas considerações que refletem um diferente tratamento da relação entre escravo e senhor.

Em 1835 numa fazenda chamada Rio Claro, localizada na província de São Paulo, uma jovem escrava fora protagonista de um episódio curioso no cenário escravista do século XIX.

A cerimônia foi realizada com as formalidades oficiais, com direito a benção da Igreja. Como todo casamento cristão, a noiva, após aceitar Custódio, seu noivo de maneira oficial, deve entregar-se e sujeitar-se a ele. Mas a jovem escrava de nome Caetana rejeitou tal condição. Concordou em casar-se com seu noivo, que fora escolhido por seu senhor Luiz Marinho Tolosa, mas estava determinada a não entregar-se ao novo companheiro.

Caetana estava sendo forçada e ameaçada pela família caso não cumprisse definitivamente seu papel de esposa. Ela então procurou seu senhor em busca de ajuda, Tolosa não somente concordou em separar o casal recém casado, como também providenciou um pedido oficial de anulação do casamento junto a Igreja. A atitude de Tolosa foi no mínimo curiosa. O pedido de anulação era algo totalmente inédito para época, principalmente tratando-se de um casamento entre escravos. Este corajoso ato da jovem escrava desafiou a tudo e a todos, envolvendo sua família, seu senhor e a Igreja.


O CENÁRIO

Tolosa, junto de sua esposa Ana Joaquina, nasceram em Sorocaba, São Paulo. Ana provavelmente recebeu terras da família como herança. Ambos eram proprietários das “ferramentas” necessárias para o funcionamento da fazenda Rio Claro, além de 50% das terras e escravos da propriedade. Os senhores da jovem Caetana fizeram fortuna com a cafeicultura de modo que em 1834 seus bens acumulavam um valor líquido de 55 contos de réis.

A influência presente na figura de Tolosa fez com que ele adquirisse cargos importantes como juiz de paz (1830) e juiz municipal suplente (1848). Com esta representação, a fazenda Rio Claro aproximou-se rapidamente das linhas de poder, passando pela “freguesia” de depois elevada vila de Paraibuna, estendendo-se até a província do império. As transações que envolviam posse de terra, seja ela por herança, por acertos de contas ou por meio de empréstimos (procedimento extremamente tímido naquela época), nos faz entender e enxergar uma sociedade complexa e intimamente ligada – de modo que as relações entre família e trabalho (comércio) misturavam-se de maneiras opostas: podendo construir ou degradar tal relação.

Caetana tinha plena consciência do tamanho da influência que este homem exercia, e tal condição parece ter servido de combustível para coragem demonstrada pela jovem escrava opondo-se ao seu senhor.

Entretanto, todo prestígio e poder adquiridos por Tolosa fez com que ele ficasse cada vez mais distante dos “assuntos” da fazenda. Caetana, nesta mesma época, teve de se desdobrar para cuidar de sua senhora que ficara doente logo após parir seu quinto filho, do próprio bebê recém nascido e também de outras crianças.


O TRABAHO

Mesmo com a presença das máquinas para facilitar o trabalho nas fazendas brasileiras, a mão-de-obra humana ainda ocupava seu espaço, inclusive de escravos. As relações de trabalho apontadas pelo contexto da fazenda Rio Claro não esclarecem, em detalhes, as designações de tarefas comandadas pelo senhor. Por outro lado, havia sim, uma hierarquia que capacitava à participação de todos: homens e mulheres adultos, jovens e crianças. Os registros não demonstram preocupação em relacionar a origem (se crioulos ou africanos), idade e “tarefa especializada” para cada escravo. O que se sabe é que a fazenda Rio Claro era a que possuía um número maior de escravos. Tolosa acompanhava bem de perto a manutenção de seus escravos, preocupou-se em adquirir homens mais jovens para trabalharem em suas terras.

Caetana nasceu crioula e aprendeu a falar desde cedo o idioma português. Sua criação seguiu-se livre dos traumas e lembranças da terrível travessia do atlântico pelo tráfico negreiro. Também não participou das culturas tribais de aldeias africanas. Com a proibição definitiva do tráfico de escravos no Brasil em 1831, o senhor passou a valorizar mais a gênero crioulo, depositando, não raro, mais confiança na relação de obediência e lealdade. Os registros inerentes à fazenda mostram que Caetana e Custódio tinham sido escravos da chamada elite de Rio Claro. Esse tipo de escravo gozava de mais capacidade, habilidade, inclusive em receber treinamentos e tarefas específicas.

Caetana era mucamba, responsável em cuidar de todas as tarefas da “casa grande” e da senhora. Era também uma personagem que tinha acesso privilegiado aos ambientes privativos da casa criando uma proximidade que despertava confiança a senhora. Mas tal condição trazia, não raro, grande expectativa de obediência e eficiência por parte da senhora.

Toda esta discussão representa uma nova visão do contexto inerente às relações até então tratadas pela historiografia da escravidão. As relações entre senhor e escravo também pode estar além do trabalho, das obrigações, por mais desgastantes e, muitas vezes humilhantes, que seja. Isto não quer dizer que devemos desconsiderar escritores clássicos como Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Emilia Viotti, dentre outros. Este episódio de Caetana, dizendo não ao seu casamento, revela uma nova e feliz abordagem ao tema. A jovem escrava estava disposta a arriscar e enfrentar tudo para ter sua liberdade de volta. Seu conceito de liberdade não era ficar livre do trabalho escravo, mas sim, livre como mulher solteira.



BIBLIOGRAFIA DE APOIO:
GRAHAM, Sandra Lauderadale – “Caetana diz não”: histórias de mulheres da sociedade escravista brasileira, tradução Pedro Maia Soares, Ed. Cia das Letras, SP

E-mail: cristiano@historianet.com.br
Outubro de 2007

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