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Medieval

Entre véus e espadas

Na sociedade machista da Idade Média, rainhas subverteram a ordem ao acompanhar seus exércitos em grandes campanhas bélicas.

Por Luciana de Campos *

A imagem da rainha guerreira que discute em pé de igualdade com seu esposo e rei está exposta em um filme de 1968, estrelado por Katherine Hepburn e Peter O’ toole. Eles representam respectivamente Leonor d’Aquitânia , rainha da França e posteriormente da Inglaterra, e, ele, o rei Henrique II Plantageneta. Essa mesma produção, O leão no inverno, contou com uma refilmagem mais drmatizada em 2003, feita para a televisão e estrelada por Gleen Close e Patrick Stewart. O que nos chama a atenção logo nas primeiras cenas da nova versão é a imagem da rainha montada em um cavalo, portando equipamentos bélicos como uma pesada armadura usada em combate, numa época em que as mulheres geralmente permaneciam confinadas nos castelos, conventos ou campos.
Essa representação parece estranha para os tempos atuais, mais ela foi mais comum do que imaginamos.
As duas versões, a cinematográfica e a televisiva, mostram a vida da rainha Leonor d’Aquitânia, que nasceu e governou uma das regiões mais ricas e prósperas da França no século 12. essa mulher, que foi dada em casamento aos 15 anos ao jovem Luís (que timha 17 e, mais tarde, seria o rei da França Luís VII), desfiou seu esposo quando, no natal de 1150, decidiu tomar as armas e partir com o exército de cavaleiros franceses rumo a 2a. Cruzada. Junto às tropas, Leonor não deixou de lado nenhum dos confortos da corte. As pesadas carroças, que deveriam transportar apenas armas e víveres, tanto para os soldados como para os animais, transportavam também louças, artigos de toucador e tudo o que as rainhas e damas da corte julgavam necessário para lutar em Jerusalém contra os mouros.

Rei neurótico, rainha nervosa.

Em pleno século 12, as mulheres – principalmente as aristocratas – estavam deixando o conforto e a segurança dos castelos para se aventurarem na mais masculina das atividades medievais: a guerra. Segundo relatos da época, tanto as carroças carregando artigos femininos quanto a presença das mulheres na marcha militar causavam espanto e indignação. Segundo os padrões sociais de então, elas estavam condicionadas a parir, orar e trabalhar. Qualquer outra atividade que fugisse dessa tríade não era bem vista.
Mas, apesar da relutância de seu esposo Luís VII, Leonor partiu para a Terra Santa. Mesmo com todo o preparo e a benção do papa, a cruzada não obteve o sucesso pretendido e, no retorno para a França, o casal real fez uma pequena parada em Roma para anular o casamento. Assim ocorreu, em 21 de março de 1152, pelo sínodo de Beaugengy. O rei ascético e a rainha temperamental, cujo espírito guerreiro era insubmisso, não podiam mais permanecer juntos.
Passadas seis semanas do divórcio, Leonor casou-se com Henrique II Plantageneta, rei da Inglaterra. Ela se aproveitou do fato de ser mãe de oito filhos e os insurgiu contra o pai, numa revolta de 1173. Novamente, a rainha tomou as armas para assegurar a herança de seus filhos.
O caso da rainha Leonor – que ficou conhecida como uma das mulheres mais belas, inteligentes, ricas e poderosas da Idade Média – não foi isolado. Muitas outras rainhas não tiveram seus feitos de guerra popularizados como os da governante francesa. Entre elas podemos citar Isabel de Jerusalém, que foi rainha dessa cidade no século 13 e mãe de outras duas mulheres rainhas e também guerreiras: Sibila e Melisenda de Lusignan. A exemplo de Leonor, tomaram as armas e defenderam suas terras e posses contrariando assim os modelos medievais de comportamento feminino.

Obediência e servidão

A mulher medieval não possuía garantias legais nem pelo direito civil, nem pelo direito canônico, que as entendiam como um sujeito incapaz de tomar qualquer decisão no campo político ou social. A mulher devia dedicar-se aos afazeres da casa, à criação dos filhos e à oração. As penalidades para as mulheres que cometessem algum crime eram diferentes das aplicadas aos homens. A quem alugasse casa à mulheres solteiras fora dos bairros autorizados caberia a pena de exílio. O homem que dormisse com uma mulher virgem ou com uma viúva honesta com menos de 25 anos, e não casasse com ela, era condenado a “pagar-lhe casamento”. Caso não tivesse bens para tanto, seria açoitado pela vila onde residia. O adultério era punido, se não houvesse perdão do marido, com execução capital dos dois culpados. No entanto, se o adúltero fosse de maior condição social do que o marido, a sentença não seria executada sem a confirmação do rei.
Devendo obediência, servidão e reverência ao homem, as mulheres estavam sempre confinadas em casa onde, em meio as tarefas de fiar, tecer e bordar, entretinham-se em ouvir as narrativas que as transportavam para lugares distantes – e sempre as ensinavam que não era permitido voltarem-se contra a servidão. Inferiorizadas na esfera familiar e também na religiosa, as mulheres encontravam na literatura um meio de extravasar seus sentimentos de rebeldia contra a tirania imposta pelos homens. Somente nas linhas cantadas pelos trovadores as mulheres estavam representadas e, sutilmente, conseguiam expor seus sentimentos.
As mulheres guerreiras e as personagens míticas também foram protagonistas de muitas narrativas e essas, mesmo sendo descritas por homens, conservavam traços da sua força contra a vassalagem. Aquelas imagens associadas ao mal e aos malefícios ocasionados pela mulher e também pelo convívio com elas, impregnaram boa parte de literatura medieval. Representando a mulher em constante situação de submissão, a literatura mostrava que era preciso exercer sobre ela um controle rígido e, dessa maneira, representá-la como a única culpada pelos males do mundo.
A distinção entre homens e mulheres na Idade Média pode ser definida assim: os homens sempre estiveram associados à força, virilidade, potência e sabedoria, enquanto as mulheres eram frágeis e estúpidas. Tudo o que se referia ao universo feminino era algo descartável, necessário somente para a perpetuação da espécie. E foi esse o pensamento responsável por permitir que a mulher não tivesse obtido nenhum espaço em praticamente toda a Idade Média, com a construção de uma imagem sempre negativa.
Algumas rainhas, mesmo ocupando alta posição social e dedicando-se aos afazeres exclusivamente femininos, conseguiram interferir em muitas questões de Estado que eram pertinentes aos homens. Aquela influência, apesar de ter causado transtornos e constrangimentos em uma sociedade machista, indicou que o sexo feminino também detinha grande poder de decisão e que poderia fazer valer a sua vontade, mesmo nos momentos de maior adversidade. Mulheres guerreiras, rainhas, damas ou simplesmente anônimas ceifeiras de trigo, todas elas contribuíram para a realização das Cruzadas e de muitas outras batalhas.
Apesar de todas as restrições sociais, políticas e religiosas da Idade Média, conseguiram assegurar seu espaço na história mostrando a importância nem dos mais complicados embates sociais do ocidente: a guerra.

Luciana de Campos é mestre em História

Texto publicado originalmente na Revista Desvendando a História, ano 2, número 9, reproduzido pelo HISTORIANET com autorização da Escala Educacional.

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