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Brasil Colônia

Pelas entranhas das Minas Gerais

Percorrer as ruas e ladeiras das cidades históricas mineiras é primeiro passo para entender o que foi o ciclo do ouro e o cotidiano da região no período colonial.
José Modesto Leite Júnior

Os escravos a beira dos rios procurando pepitas de ouro pelas barrancas. O senhorio e suas indumentárias, desfilando sua ostentação em quilates de pedrarias, na apoteose dominical do “teatro das almas”: a Igreja. Os sinos e incensos a clamar por fiéis e o povo serpenteando pelas ruelas em procissão com seus andores, ladainhas e benditos. O pacto colonial, o exclusivo da Coroa, a Casa dos Contratos, o quartel da companhia, o Esquadrão do Vice-Rei e a Intendência do Ouro. A vida acumulada e subtraída no “quinto real” das Casas de Fundição. Eis um pouco do ambiente das Minas Gerais durante o século XVIII. A atmosfera tensa, barroca, cujas curvas saltaram para além das talhas dos grandes artesãos e se imortalizaram na exuberância artística do mestre Aleijadinho, símbolo da época.
Desse painel, desdobram-se diversas indagações. Uma delas é saber como resgatar aquele cenário, de tal forma que ele nos faça sentido hoje. Os livros de literatura, a arquitetura e história nos revelam grande parte desse desejo. Reproduções das canções deixadas em diversas partituras setecentistas também dão muitas pistas. Olhamos esse passado e nele reconhecemos conceitos e categorias que se relacionam com o nosso tempo, com os nossos dias. Não vivemos mais sob as pilastras da escravidão e nem somos mais colônia ibérica, porém sabemos o quanto algumas reminiscências históricas ainda interferem em nossas vidas. Acontece que, se por um lado entendemos até com uma facilidade essas relações, as vezes não nos sentimos parte de tudo isso. Fica como se tudo fosse algo muito distante da gente. Tendemos a pensar que essas coisas não nos dizem respeito.



Experimentando Minas

Para entender profundamente como era a vida nas cidades mineiras à época da exploração do ouro, é necessário ter uma experiência mais íntima com o lugar, seu ambiente e seus povo. Construir o texto histórico com base na atmosfera onde tudo aconteceu. As coisaa adquirem mais sentido quando podemos ver, tocar, sentir. E isso se dá quando nos permitimos o deslocamento, o desapego do nosso cotidiano e mergulhamos nessa “novidade”, diferente daquilo a que estamos acostumados. As ladeiras extenuantes das cidades históricas mineiras precisam ser percorridas para que compreendamos, de fato, que só algo muito valoroso e abundante, como o ouro, poderia justificar a ocupação humana naquela região inóspita. Ainda que por pouco tempo, é preciso sentir-se escravo e povoar a tensão subterrânea das minas espalhadas na região. Crente ou não, vale o mergulho religioso, sem o qual não se compreende nada em Minas. Como se tornasse um confrade na devoção dos altares, na veneração da santária, no desfiar dos rosários. Sentir-se tropeiro, cavalgando pelas ruazinhas de pedra, almoçando lombo com tutu e torresmo e couve na manteiga, e contando causos e mais causos ... Respirar fundo e sentir o cheiro das conspirações, das reuniões secretas, dos autores condenatórios (veja abaixo “A ordem colonial” ).
A idéia é materializar, no resgate desse cenário do século XVIII, a História enquanto processo, fazendo da paisagem privilegiada de Ouro Preto, Mariana, Tiradentes, São João Del Rei, Sabará e região um imenso laboratório da nossa memória. Tentar entender essa “mineirice”, esse homem ouro-pretano, essa vida tão diferente da nossa. A leitura dos depoimentos históricos de todo o acervo visual da região é sempre uma experiência singular, e as sensações produzidas por essa atmosfera barroca – processadas pelo estudo – nos permitem perceber as rupturas e as constâncias de um passado que nos convida a visitá-lo.
Os questionamentos são muitos, e temos sempre mais perguntas que respostas. Mas é, acima de tudo, uma grande experiência de vida. Com base nela, podemos (e devemos) vislumbrar saídas diferentes para os dilemas que nos afligem na sociedade contemporânea.



A ordem colonial

O mundo mineiro do século 18 revela-se melhor quando o lemos a partir de suas imagens. Na atmosfera barroca das Minas Gerais, as representações sociais tinham aspecto teatral, cheio de símbolos, cada qual com seus significados. Numa sociedade de miseráveis e analfabetos cujo conhecimento da escrita se restringia a poucos eleitos, a comunicação se fazia mais eficaz pela reiteração desse símbolos.
Essa simbologia construía um imaginário de opressão e era utilizado para determinar os papéis das categorias sociais no cenário mineiro: o poder dos que ditavam as ordens, o dever dos que obedeciam, , o castigo dos infratores. Havia o entendimento de que as leis de Deus e dos homens estavam escritas nas imagens, monumentos, pinturas e nos vários instrumentos.
No centro político da vila, num mesmo conjunto arquitetônico, reuniam-se todos os elementos daquele poder colonial: o pelourinho, a Igreja, a alfândega, a cadeia pública. Esse ícones representavam fatores como a superioridade do rei, senhor das leis e dos impostos; a supremacia da Igreja no controle da consciência e na justificação da ordem vigente; e a implacabilidade do castigo para quem subvertesse o sistema.
A manifestação das vontades e das contrariedades da Ordem Colonial se dava de maneira pública. A lei se aplicava aos olhos de todos, no centro urbano. Quando uma pessoa era atada ao pelourinho para sofrer castigo por alguma infração, todos que por lá passassem sentiriam no dorso as mãos do poder colonial. As costas rasgadas pelo couro da tortura demonstravam o “castigo exemplar” a quem ousasse subverter a ordem. De um lado do pelourinho, a cadeia e a alfândega – símbolos da mão pesada de “El-Rei”. Do outro lado, olhando para o torturado, a Igreja – guardadora da consciência e distribuidora da culpa em tempos de tensões e ódios

José Modesto Leite Júnior é historiador e professor do ensino médio.
Texto publicado originalmente na Revista Desvendando a História, ano 2, número 9, reproduzido pelo HISTORIANET com autorização da Escala Educacional.

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