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Contribuições de Edward Said

Paulo Robério F. Silva

Neste pequeno texto pretendo refletir sobre algumas contribuições de Edward W. Said, um dos mais importantes intelectuais que questionou o imperialismo, para as Ciências Humanas. Como sugere Said, antes vamos conhecê-lo: filho de árabes cristãos, Edward Said nasceu em 01 de novembro de 1935 na Palestina, portanto durante a colonização inglesa, e faleceu em 24 de setembro de 2003, vitimado pela leucemia. A criação do Estado de Israel, logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, obrigou a migração da família para o Egito (1947); depois para o Libado; e finalmente, quando tinha 17 anos, para os Estados Unidos.
Sua formação intelectual sofre, portanto, influências da cultura autóctone e ocidental (britânica e estadunidense) – o que, acreditamos, foi um dos principais motivos para o refinamento de suas reflexões desta relação colonialista estabelecida entre o Ocidente e o Oriente. Licenciou-se em Princeton e doutorou-se em Literatura Comparada em Harvard (EUA). Foi pesquisador em Stanford e desenvolveu atividades docentes em Harvard e na Universidade de Columbia, Nova York.
Quanto às questões relacionadas ao Oriente foi enfático em defender a necessidade de se estabelecer outras relações entre o Leste e o Oeste, que não apenas as marcadas pela dicotomia dominador-dominado. É, exatamente destes estudos, que localizamos algumas importantes contribuições de Edward W. Said para as Ciências Humanas. Assim, as abordagens a serem desenvolvidas aqui referem-se à clássica obra Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente publicada publicado em 1978.
O ensaio, referência para os estudos relacionados ao imperialismo e ao colonialismo, não despertou muito interesse de imediato, sendo sugerido, inclusive, que fosse publicado em forma de monografia. Foi o contato com editores da Pantheon Books que possibilitou a publicação do livro nos Estados Unidos em formato convencional. Um ano depois sai a uma edição na Inglaterra. A esta altura o interesse pela obra crescera vertiginosamente. Em 1980 foi publicado na França e atualmente esta traduzido em mais de 34 línguas.
As críticas, tanto positivas como negativas, fez e faz de Orientalismo uma das mais importantes obras sobre o colonialismo, pós-colonialismo e o imperialismo. Neste aspecto, algumas interpretações equivocadas ou descuidadas têm insinuado que Orientalismo cumpre o papel de oposição ao ocidente e que evidencia “testemunho de feridas e registro de sofrimento” dos povos árabes. O próprio Said responde a este equívoco: “Deploro uma caracterização tão simples de uma obra que é – aqui vou deixar de lado a falsa modéstia – bem nuançada no que diz sobre diferentes povos, diferentes períodos e diferentes estilos do Orientalismo”. E concluí: “Ler minhas análises de Chateaubriand e Flaubert, ou de Burton e Lane, exatamente com a mesma ênfase, extraindo a mesma mensagem redutora da fórmula banal de um ‘ataque à civilização ocidental’ é, creio eu, ser simplista e incorrer em erro” (SAID, 2007: 447).
A publicação de Orientalismo no Brasil só ocorreu em 1990 pela Companhia das Letras e a edição de 376 páginas esta esgotada. No mercado, atualmente, esta disponível uma versão de bolso, com acabamento inferior, porém preço mais acessível, publicado pela Companhia de Bolso. A primeira tradução foi feita por Tomás Rosa Bueno e a segunda por Rosaura Eichenberg – esta considerada “menos dura” que a primeira.
Assim, diante da grandiosidade da obra, selecionei alguns pontos que, penso, podem contribuir para uma reflexão quanto ao trabalho daqueles que se inserem no complexo e instigante universo das “Ciências Humanas”. Os temas são: o homem e a produção do conhecimento, o político e o não-político, a questão da autoridade, verdades x representações, perspectiva libertária e a experiências humanas.


1. O homem e a produção do conhecimento

Ao pensar esta questão a pergunta que se formula relaciona-se a um problema ainda não resolvido nas Ciências Humanas, e que, por tal motivo, é objeto de intensos debates por fundamentar os trabalhos de investigação na academia: é possível a existência de conhecimentos que estejam desvinculados do homem? Em outras palavras, existem essências nos conhecimentos científicos que perpassem as concepções humanas? Este questionamento tem valor por ser orientador de toda investigação e dos postulados vinculados. A metafísica, por exemplo, vai afirmar o essencialismo, princípio que também norteia os discursos de Weber e Foucault.
Diante deste dilema, entre a efetiva participação do homem na produção do conhecimento e um conhecimento que se constitui sem esta interferência, Said, então, afirma que “Ninguém jamais inventou um método para distanciar o erudito das circunstâncias da vida, da realidade de seu envolvimento (consciente ou inconsciente) com uma classe, um conjunto de crenças, uma posição social, ou do mero fato de ser um membro da sociedade” (SAID, 2007: 37-8).
Sendo assim, o conhecimento científico é fruto do próprio homem, originado de suas diferentes e dinâmicas realidades. Não pode ser aceito, como em muitos casos se propõe, como objeto de abstrações (como se estas abstrações também não se fundamentassem naquilo que o homem sabe). O que se formula e passa a ser utilizado numa perspectiva de verdade nasce de diferentes conhecimentos prévios e de interesses que atendem a propósitos definidos. Edward Said nos ajuda a pensar a não-existência de essencialismos nas ações humanas – tema que tem provocado inúmeras e intensas divergências.


2. O político e o não-político

Para fundamentar melhor uma compreensão sobre as produções cientificas, portanto, o conhecimento formalizado, Edward Said propõe também que se pense a relação do político e ideológico com as produções científicas. Salienta que as Ciências Humanas reluta em perceber a presença dos aspectos políticos nas obras dos diferentes autores, estando propensa a aceitar, sem muita dificuldade, as influências que se configuram internamente, ou seja, dentro do próprio campo ou afins, num processo de reprodução quase que “despretensiosa” daquilo que já foi produzido e que, portanto, está estabelecido como verdade.
É possível entender esta argumentação, tão presente no meio científico, com um exemplo retirado de determinados discursos: “Mas sempre restará o perene mecanismo de fuga que consiste em dizer que um erudito literário e um filósofo, por exemplo, recebem um treinamento em literatura e filosofia respectivamente, e não em política ou análise ideológica. Em outras palavras, o argumento do especialista pode funcionar com muita eficácia para bloquear a perspectiva mais ampla e na minha opinião, mais séria em termos intelectuais” (SAID, 2007: 42-3).
O que se observa, enfim, é que a produção e difusão do conhecimento científico, que não é aleatório (embora possa ser processado inconscientemente) adquire também a qualidade de não-ingenuidade, ou seja, vincula-se a interesses que são, via de regra, políticos, portanto, fruto das relações humanas.


3. A questão da autoridade

A difusão dos discursos que legitimam o conhecimento formalizado esta necessariamente relacionado à outra situação que merece atenção neste processo de afirmação de verdades. Trata-se da identificação de quem se qualifica como autoridade para difundir tais “verdades”. É preciso então perguntar como esta autoridade se constitui e qual o seu papel neste processo. Said nos encoraja a responder a estas indagações, salientando que “Não há nada misterioso ou natural sobre a autoridade. É formada, irradiada, disseminada; é instrumental, é persuasiva; tem status, estabelece cânones de gosto e valor; é virtualmente indistinguível de certas ideais que dignifica como verdadeiras, e de tradições, percepções e julgamentos que forma, transmite, reproduz” (SAID, 2007: 49-50).
Desta forma, a formação da autoridade também esta relacionada aos interesses que impulsionam o homem em busca do conhecimento formalizado. Não pode se pensar a autoridade fora daquilo que ela se propõe autorizar. Dito de outro modo, o propagador erudito é parte sistemática das redes de conhecimento que se configuram e se estabelecem como verdadeiras.


4. Verdades x representações

Os conhecimentos científicos supõem, então, verdades. Este conceito, no entanto, carece ser refletido, sob pena de que compreensões defeituosas possam induzir a submissão e a alienação humana – elementos que contradizem e eliminam o princípio de uma perspectiva libertária balizada na autodeterminação. Para Edward Said o que circula não é a “verdade” mas representações. “O valor, a eficácia, a força, a aparente veracidade de uma afirmação” depende tanto de quem a produz com de quem a absorve. “E, para obter os seus efeitos, essas representações (tidas como verdades) se baseiam em instituições, tradições, convenções, códigos consensuais de compreensão...” (SAID, 2007: 52).
Observa-se assim, que a veracidade de uma afirmação esta relacionada a três elementos que se complementam: produção, divulgação e recepção, o que possibilita o surgimento de configurações passíveis de assimilação e aceitação que não escapam das tramas e dos jogos de interesses.


5. Perspectiva libertária

Pensando, então, que o conhecimento científico não escapa da interferência direta do homem, que esta produção não é ingênua, que ela se estabelece através de autoridades que fazem parte do próprio processo de produção do conhecimento, e que este conhecimento não passa de representações que se camuflam em verdades irredutíveis, Said abre espaço para uma outra reflexão: qual perspectiva impulsiona o homem a produzir o conhecimento?
Ao analisar sua própria obra, Said responde: “Talvez a tarefa mais importante de todas seja a de empreender estudos das alternativas contemporâneas ao Orientalismo (elemento vinculado as ideologias dominantes), perguntar como é possível estudar outras culturas e povos a partir de uma perspectiva libertária, ou não repressiva e não manipuladora. Mas nesse caso seria necessário repensar todo o problema complexo do conhecimento e poder” (SAID, 2007: 55).
Entra em cena, e de forma evidente, a relação entre conhecimento e poder. O poder que utiliza o conhecimento formalizado para afirmar e reafirmar seus interesses. Desta forma, a efetiva utilização de uma perspectiva libertaria, que privilegia a autodeterminação dos sujeitos individuais e coletivos, para se concretizar com algo “verdadeiro” teria, necessariamente, de superar paradigmas, estereótipos, mitos, enfim aquilo que hierarquiza e, portanto, desqualifica o homem diante do próprio homem.


6. Experiências humanas

Por tudo isso, Edward Said nos mostra o que muitos insistem em não querer ver: a realidade. O mundo humano nada mais é que aquilo que o homem produz em direta relação com o real. A fuga ou camuflagem deste “mundo real” é, provavelmente, a melhor estratégia humana para garantir os benefícios daqueles que produzem e dominam os discursos.
Deixemos com o próprio Said as conclusões daquilo que percebi com contribuição para as Ciências Humanas:
“O pensamento e a experiência moderna têm nos ensinado a ser sensíveis ao que esta envolvido na representação, no estudo do Outro, no pensamento racial, na aceitação irrefletida e acrítica da autoridade e das idéias autorizadas, no papel sóciopolítico dos intelectuais, no grande valor de uma consciência crítica e cética. Se lembrarmos que o estudo da experiência humana tem em geral uma conseqüência ética e política, no melhor e no pior sentido, talvez não fiquemos indiferentes ao que fazemos como estudiosos. E que melhor norte para o estudioso do que a liberdade e o conhecimento humano? Talvez devêssemos nos lembrar também de que o estudo do homem em sociedade é baseado na história e na experiência humana concreta, e não em abstrações austeras ou em leis obscuras e sistemas arbitrários. O problema é, portanto, fazer o estudo se ajustar à realidade e ser de certo modo modelado pela experiência., que seria iluminada e talvez alterada pelo estudo” (SAID, 2007: 435-6).
Só mais uma questão: afinal, qual a ciência que não é humana?

Referência:

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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