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Os donos da terra

Os Donos da Terra



Os livros didáticos e a historiografia mais tradicional costumam assinalar que Pedro Álvares Cabral “descobriu” o Brasil em 1500. Assim o Brasil “foi descoberto em 1500.” Será?? Teria sido mesmo uma “descoberta”? Ou será que foi uma “invasão”? Com a chegada dos europeus, eles se deparam com um grupo étnico totalmente distinto.



Os Nativos


Quando Cristóvão Colombo chegou à América (1492), ele não sabia que tinha descoberto um novo continente. Acreditava que estava na Índia. Por isso chamou os habitantes de “índios”. Poucos anos depois, os europeus constataram que a América era um novo continente. Passaram a chamá-la de Índias Ocidentais. Entretanto, quando falamos em “índios”, nós já estamos cometendo uma violência. É como se a gente dissesse que todos as sociedades nativas são iguais, tudo padronizado, tal como uma única estrutura social. Quando foi inventado o “índio”, eles estavam também inventando a sua própria identidade como “europeu”, “evoluído”. Assim como os franceses e italianos são diferentes uns dos outros, também o são os povos “indígenas”. Eles são na verdade várias sociedades com culturas, organização social e aparência física bem diferentes umas das outras. Uma das formas de oprimi-los é achar que todos são idênticos. As tribos melhor descritas pelas fontes dos séculos XVI e XVII pertenciam ao Tupi, pelo fato de terem entrado em contato imediato com o europeu. Contudo, elas foram analisadas segundo a ótica de um outro povo, portador de uma cultura diversa, com valores diferentes e por isso parciais. Assim, a vida do povo Tupi não pode ser generalizada a todas as outras tribos dos demais estoques lingüísticos. A terra é o seu bem mais precioso e o espaço onde ele vive é o fator diferenciador de sua cultura. Um exemplo:



Conforme o lugar, o ameríndio se tornou um exímio caçador ou pescador, coletor, ceramista, trabalhador da pedra ou excelente construtor de embarcações. Até mesmo na construção de malocas, bem como no material empregado e na sua forma, ocorreram variações que tiveram ressonância nas atividades religiosas, na concepção de mundo, nos festejos e rituais das tribos. A própria arte da plumagem, a língua, a educação infantil ou os motivos decorativos dos objetos de cerâmica foram muito diversos.



Mas sempre temos uma pergunta em mente: De onde eles surgiram? Como chegaram na América?? Nenhum cientista sabe ao certo. Há uns 40 mil anos, vários povos vieram da Ásia e chegaram a América, atravessando o estreito de Behring para alcançar o Alasca. Há quem calcule que, em 1500, havia entre 2 milhões a 4 milhões de índios no Brasil. Comparando com Portugal que, na época só possuía 1 milhão de habitantes. Atualmente estima-se que habitam o país cerca de 260.000, o que não chega a representar 0,3% da população brasileira. Calcula-se em 180 as etnias, com mais de 100 línguas praticadas e 532 as áreas indígenas, ocupando cerca de 11% do território nacional. A maioria não ocupa mais seu habitat de origem, cerca de 74%. Dessa forma o “índio brasileiro”, como tal, não existe. Os nativos gostavam de dizer aos portugueses e jesuítas que habitavam a região apenas os Tupis (habitantes do litoral) e os Tapuias (do interior). Os Tupis dividiam-se em sete grupos rivais: potiguares, tabajaras e caetés no Nordeste; tupiniquins e tupinambás na Bahia; tamoios no Rio de Janeiro e carijós e tapes mais para o Sul. Formavam, em seu conjunto, um grande e complexo étnico-lingüístico conhecido com pelo nome de Tupi-guarani. Hoje, os cientistas costumam dividir as sociedades indígenas de acordo com os idiomas e dialetos que falam ou falavam. São basicamente três: O tronco Tupi, o tronco Arawak e o tronco Macrojê;



Como vimos, os Tupis foram os primeiros a entrar em contato com o colonizador e, apesar dos freqüentes combates, acabou sofrendo as conseqüências mais diretas: extermínio, submissão, apropriação de suas terras, destruição de seus costumes e tradições, além da fuga, o que ocasionou sucessivas migrações de suas tribos para o interior, longe do colonizador. Houve uma verdadeira “metamorfose” advinda deste primeiro contato entre as “duas humanidades”. A tão falada “aculturação” ou “perda de sua cultura” não existe! As sociedades indígenas, todavia, não se limitavam a assistir passivamente a conquista da terra pelos portugueses. Ao contrário, foram inimigos duros e terríveis, pois conheciam melhor o território, lutando ardorosamente contra seus opressores, defendendo suas terras e sua liberdade. Tais sociedades se readaptam, tem a construção de novas identidades, uma transculturação. “Não estamos diante de um povo de cultura primitiva. Não estamos diante de um povo de cultura paralela. Estamos diante de uma outra humanidade.” (Levi Strauss - século XX)



A Organização Tribal


Os nativos americanos vivam no chamado estágio paleolítico, embora tivesse adquirido algumas técnicas do neolítico, como a cerâmica, a tecelagem, a construção de embarcações, o controle rudimentar do fogo. Porém, suas atividades econômicas fundamentais resumiam-se na caça, pesca e na coleta, fazendo-o exercer, assim, um controle rudimentar sobre o maio natural em que vivia. Não conhecia a escrita, nem a roda, nem a pólvora, nem domesticava animais. Daí suas dificuldades em relação ao europeu, que era bem mais equipado. Eram panteístas. Além de adorarem vários deuses, eles adoravam também as forças da natureza (vento, chuva, relâmpago, trovão, sol...) e tinham medo dos maus espíritos.



Não podemos falar em “civilizações indígenas” ou em “impérios”. O que existiam e existem são sociedades. O domínio da natureza era exercido pelas tribos, que abrangia um certo número de unidades menores, as aldeias, distanciadas no espaço, mas unidas entre si. Todos trabalham e dividem as coisas igualmente. O cacique é escolhido pela comunidade por causa de suas qualidades pessoais. As decisões importantes são tomadas pela comunidade reunida, pelos mais velhos. São trabalhadores vigorosos. Não havia miséria e as pessoas cresciam saudáveis e belas. A cabana do índio é tão arejada que mesmo o maior calor do mundo você se sente arejado. As malocas ou ocas variam de tamanho, de acordo com o número de moradores. Assim na sociedade tribal, é a solidariedade e a coletividade entre os membros de um grupo ou mesmo de grupos locais diversos um dos pilares de sua organização social. A produção do excedente era mínima e, por conseguinte, o comércio era quase inexistente. Assim, as trocas, em número reduzido, ocorriam quando um grupo produzia o que outro grupo não possuía, ou então, quando das trocas rituais, visando estreitar os laços de amizade intertribais. O trabalho tinha uma divisão natural, ou seja, baseada na idade e no sexo.



- As Mulheres realizavam todos os serviços domésticos, cuidavam da alimentação, fabricavam as farinhas, o azeite de coco, fiavam o algodão, teciam as redes, traçavam os cestos e produziam cerâmicas. Ocupavam-se da maior parte do trabalho agrícola (plantio, semeadura, conservação e colheita) e ajudavam os homens nas pescarias e na coleta. Ainda eram elas que, quando da realização das festas tribais, faziam a depilação e a tatuagem dos homens pertencentes ao seu lar.



- Os Homens – ocupavam-se com a derrubada da mata e com a queimada. Quando a terra estava pronta, eles a entregavam as mulheres, para o plantio. Eles praticavam a caça e a pesca, fabricavam canoas, as armas, os adornos, obtinham o fogo, construção de suas cabanas, cortavam lenha. Eram responsáveis pelas expedições guerreiras e pela proteção da tribo.

- As Crianças – desde cedo eram integradas à vida da coletividade. Os meninos, aos poucos, eram treinados para a caça, pesca e luta. As meninas, para os trabalhos de casa e da lavoura.



- Os Anciãos – gozavam de grande prestígio. Pela experiência de vida acumulada, tornavam-se os detentores das tradições do grupo através das quais se renovava o culto dos antepassados.





Observação

“Até o século XVIII, o que interessava nos índios era a mão-de-obra. No século XIX, é o solo indígena o alvo principal (fronteiras econômicas abertas), ou seja, viram empecilhos. Hoje, é o subsolo. Eles são vítimas do Estado e do Exército, não podendo ocupar áreas de fronteira”. (Prof. Flávio Gomes, UFRJ) Atualmente vemos que o indígena ainda não está inserido na sociedade, que o vê caricaturado, como verdadeiros “fósseis humanos”. Ele é supostamente incorporado, sendo primeiramente dizimado e depois tutelado pelo Estado. A imagem que temos é que os índios querem sempre mais terras, quer manter a sua cultura... O indígena busca a integração, mantendo sua identidade, sua territorialidade, quer os mesmos direitos sociais. Querem uma integração não só geográfica, mas cultural.







O “Descobrimento”

A partir desta frase podemos entender um pouco mais esse longo processo histórico. Com as Grandes Navegações vemos a chegada dos europeus na América. Vemos Cristóvão Colombo e, posteriormente, Cabral no Novo Mundo. O primeiro contato entre as duas humanidades foi extremamente cordial, embora ambos tenham se mostrado cautelosos, precavidos e inseguros. Na carta do escrivão da frota da Cabral, Pero Vaz de Caminha, vemos tais traços. Contudo, esse clima festivo iria desaparecer dando lugar aos choques que inevitavelmente iria surgir, em virtude dos interesses conflitantes do português recém-chegado e dos nativos. A chegada se deu na tarde de uma quarta-feira, dia 22 de abril de 1500. A esquadra deveria chegar à Ásia meridional, contornando a África. Ela afastou-se propositadamente de sua rota e naquele dia chegou ao litoral sul do atual estado da Bahia. A nova região recebe o nome de Ilha de Vera Cruz. Verificado que não se tratava de uma ilha, o local recebe o nome de Terra de Santa Cruz. Posteriormente, por causa do pau-brasil, vegetal bastante encontrado na região, a terra passa a se chamar Brasil. “A espada, a cruz e a fome iam dizimando a família selvagem”. (Pablo Neruda)




Juberto de O. Santos é professor de História, bacharel e licenciado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, lecionando atualmente em cursos pré-vestibulares e preparatórios. Quaisquer dúvidas: historiador_ufrj@yahoo.com.br

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