HISTORIANET

Notícias

O assassinato de Saddam Hussein

Nada há para lamentar quanto a Saddam Hussein e sua trajetória. Mas ele merecia um julgamento em corte internacional. E merecia ser julgado por todos os seus crimes, não apenas que se aproveitasse o primeiro julgamento para enforcá-lo às pressas.
Flávio Aguiar - Carta Maior

As imagens e o áudio foram eloqüentes: Saddam cercado por encapuzados em estilo Ninja. Os carrascos dizendo impropérios para o condenado. Aquilo não foi uma execução, foi um assassinato, antecedido por um seqüestro.

Os Estados Unidos não entregaram à Cuba ou à Venezuela o terrorista Luis Posada Carriles, que confessou ter explodido um avião da Cubana com 170 mortes, alegando risco de maus tratos. Não hesitaram em entregar Saddam Hussein ao governo fantasmal do Iraque, mesmo sabendo que punham o nó da forca em seu pescoço. E na farsa de julgamento que se seguiu.

Nada há para lamentar quanto a Saddam Hussein e sua trajetória. Mas ele merecia um julgamento em corte internacional. E merecia ser julgado por todos os seus crimes, não apenas que se aproveitasse o primeiro julgamento para enforcá-lo às pressas.

Há muito, entretanto, o que aprender em sua trajetória. Saddam Hussein pertencia ao partido Baath, um partido de intenções reformistas em sua origem. Era um dos militares daquela região criados sob a inspiração de introduzir reformas modernizantes em seus países, na tradição de Gamal Abdel Nasser. Eram de estilo autoritário e pretendiam tornar seus países independentes dos múltiplos imperialismos que sobre eles se abateram com cupidez reforçada. Opunham-se a regimes títeres, como os do Xá da Pérsia, hoje o Irã dos aiatolás.

Os países do Ocidente reagiram com suas forças militares e com seus serviços de inteligência, para neutralizar as aberturas políticas que punham em risco seus interesses, particularmente os petrolíferos, mas também os da guerra fria contra a União Soviética. Saddam cresceu politicamente nesta pendência. Conseguiu esgueirar-se entre seu partido, suas promessas reformistas, as disputas étnicas e religiosas em seu país. Manteve o poder com mão de ferro e passou a esmagar opositores, inclusive na própria família. Esmagou o povo curdo, que já fora esmagado na Turquia.

Mas fez tudo isso com o beneplácito dos Estados Unidos e da Grâ-Bretanha, porque tornou-se uma alternativa ao Irã dos aiatolás depois da queda do Xá. É bom lembrar que os aiatolás religiosos tornaram-se a única força política organizada de resistência ao regime do Xá Rehza Pahlevi depois que as outras foram desarticuladas com ajuda da CIA.

Na verdade Saddam não contou apenas com o beneplácito dos Estados Unidos. Ganhou armas químicas para usar contra os iranianos. Também usou-as contra os curdos. Aparentemente, por alguma razão até hoje não bem explicada, Saddam não se sentiu satisfeito com as retribuições e garantias recebidas. Quis mais, e invadiu o Kuwait. A partir daí caiu em desgraça. Houve aí uma analogia com os talebãs do Afeganistão. Instigados e armados pelos Estados Unidos contra os soviéticos, depois tornaram-se incômodos para a hegemonia norte-americana na região, e foram derrubados. Daí, é bom lembrar, também nasceu Osama Bin Laden.

Por fim, montou-se a farsa das armas de destruição em massa, nunca
encontradas, para justificar a invasão do Iraque, que trouxe o caos ao país.
Seguia-se o novo modelo conservador norte-americano, gestado inclusive em algumas cátedras universitárias, de uma política de terra arrasada
politicamente para depois "montar-se uma democracia". O resultado aí está. Nem democracia, nem mesmo um sistema judiciário no país. E de quebra a contínua negação pela superpotência das instâncias internacionais de julgamento.

Esse processo conseguiu o que parecia impossível. Transformou Saddam, de assassino que era, num mártir investido de dignidade diante de carrascos grotescos que mais pareciam seqüestradores, não em alguma periferia urbana, mas a serviço da política terrorista da maior potência militar que o planeta já viu.

Pesquisar em
1128 conteúdos

Notícias

MASP

Passagens por Paris - Arte moderna na capital do séc. XIX

Notícias

Universidades latinas atraem poucos estrangeiros

Instituições têm melhorado sua presença em rankings internacionais, mas continua

Roteiros de Aula

Ninguém tira Zero

Província elimina nota zero para proteger autoestima de alunos

Notícias

França e Alemanha lembram 100 anos da Primeira Guerra

Presidentes Hollande e Gauck homenageiam mortos nas batalhas e destacam importân

COPYRIGHT © HISTÓRIANET INTERNETWORKS LTDA

PRODUZIDO POR

SOBRE O HISTORIANET