HISTORIANET

Vestibulares

Fuvest 2007

Correção e comentários dos professores Cláudio Recco e Hélio Moreti para o ALFERES VESTIBULARES


QUESTÃO 1

Tendo em vista a economia, a sociedade, a política e a religião, os manuais de História Antiga agrupam, de um lado, as civilizações do Egito e da Mesopotâmia, e, de outro, as da Grécia e de Roma.
Indique e descreva dois aspectos comuns aos pares indicados, isto é, às civilizações
a) egípcia e mesopotâmica.
b) grega e romana.

Respostas:
a) No Egito e na região da Mesopotâmia surgiram civilizações que foram classificadas como "hidráulicas" por terem a sua estrutura material centrada na existência de grandes rios como o Nilo, no caso egípcio e do Tigre e Eufrates, no caso das civilizações da Mesopotâmia. O trabalho era organizado com uma forte presença do Estado centralizado, base da construção de vastos e perenes impérios, a partir de um discurso claramente teocrático. Apesar de conviver com o trabalho escravo, a servidão imposta por esses Estados, mantinha o funcionamento da economia e a construção de obras públicas, testemunhas da grandiosidade desses impérios.

b) As civilizações da antiguidade ocidental, possuem em comum a organização de instituições que garantiram a participação coletiva na política. No caso da Grécia merece destaque a criação do sistema democrático e suas várias possibilidades de participação popular; no caso romano a formulação de leis e de instituições como os Tribunos da Plebe, serviram para ampliação da participação na estrutura do poder. Além disso, o escravismo foi o pilar da economia dessas duas civilizações e esteve presente nas suas respectivas sociedades durante boa de suas histórias.


QUESTÃO 2

Na Europa Ocidental, durante a Idade Média, o auge do feudalismo (século X ao XIII) coincide com o auge da servidão. Explique
a) no que consistia a servidão.
b) por que a servidão entrou em crise e deixou de ser dominante a partir do século XIV.

Respostas:

a) A servidão era uma forma de trabalho que se desenvolveu na Europa Ocidental, durante a Idade Média e que tem suas origens no colonato romano. O camponês era considerado "servo", pois deveria servir a seu senhor, assim como servia a Deus, uma vez que a ideologia predominante considerava que o servo devia obrigações ao dono da terras - o senhor feudal - na medida em que recebera um lote de terra e proteção.
As relações de trabalho servis eram costumeiras, baseadas na tradição, e o servo devia tributos ao senhor, normalmente pagos com trabalho, ou com parte da produção. Dessa forma considera-se que o servo não era escravo, mas também não era um homem livre; era um trabalhador "preso a terra".

b) A perda de importância do trabalho servil esta relacionada à perda de importância da agricultura enquanto atividade econômica predominante. Durante a Baixa Idade Média a Europa vivenciou o renascimento urbano e comercial e um constante êxodo rural. Tanto o comércio quanto a produção artesanal contribuíram para a monetarização da economia e gradualmente os próprios senhores feudais foram transformando as obrigações costumeiras em pagamentos monetários.
O século XIV foi marcado por profunda crise, caracterizada pela Guerra dos Cem Anos, pelos efeitos da mortalidade produzida pela Peste Negra e pela grande fome. As grandes revoltas camponesas, apesar de reprimidas, tiveram como efeito uma ampla ruptura nas relações de trabalho servis.


QUESTÃO 3

As interpretações históricas sobre o papel dos Bandeirantes nos séculos XVII e XVIII apresentam, de um lado, a visão desses paulistas como heróis e, de outro, como vilões. A partir dessa afirmação, discorra sobre:
a) os bandeirantes como heróis, ligando-os à questão das fronteiras.
b) os bandeirantes como vilões, ligando-os à questão dos índios.

Resposta:

a) Na historiografia brasileira temos vários temas controversos, sendo que o bandeirismo é um deles. Existem trabalhos que colocam os bandeirantes como grandes heróis, desbravadores do sertão, homens que permitiram ao Brasil ter o grande território que tem hoje. De fato a ação dos bandeirantes, percorrendo as terras americanas para muito além do Tratado de Tordesilhas redefiniu o traçado territorial colonial e foi decisivo para a configuração estabelecida pelo Tratado de Madrid de 1750.
b) Em contrapartida, existem trabalhos que apresentam os bandeirantes como mercenários, homens cruéis e violentos, que teriam sido os grandes responsáveis pela dizimação de milhares de índios. Existe ainda, uma terceira corrente que, contrapondo a documentação e verificando os relatos de época, afirma que os bandeirantes não são o que podemos chamar de orgulho da nação, pois sua prática foi violenta, no entanto não podemos deixar de considerar o contexto no qual viviam. Era uma época de extrema pobreza, onde a sobrevivência era difícil. Nem bandidos nem heróis, os bandeirantes eram homens rudes, em sua grande maioria pobres, que já não falavam o português, misturavam-no com dialetos indígenas e que incentivados pela coroa portuguesa abasteceram as regiões com mão-de-obra e descobriram novas riquezas num momento de crise.

QUESTÃO 4

(...)
E ninguém percebe
como é necessário
que terra tão fértil,
tão bela e tão rica
por si se governe!
(...)
A terra tão rica
e ó almas inertes!
o povo tão pobre...
Ninguém que proteste!


Esses versos de Cecília Meirelles, em Romanceiro da Inconfidência, evocam, de forma poética, os acontecimentos de 1789 em Minas Gerais. A partir deles, responda:
a) Que razões motivaram os Inconfidentes, tendo em vista as condições das Minas Gerais?
b) Que mudanças eles propuseram?

Resposta:

a) Podemos considerar duas grandes motivações, uma objetiva, devido a grande exploração portuguesa sobre a região, a partir de carga tributária e política fiscal, materializada na "Derrama", numa época de esgotamento de diversas jazidas na região; a outra subjetiva, marcada pela forte influência das idéias iluministas sobre setores elitizados e intelectualizados da sociedade das Minas Gerais.

b) Os inconfidentes defendiam a emancipação do Brasil frente a metrópole portuguesa, com a organização de uma República, apoiada nos ideais de liberdade e igualdade defendidos pelo iluminismo. Propunham incrementar a natalidade, a criação de uma universidade e a elevação de Vila Rica a condição de capital do Brasil.

QUESTÃO 5

As agitações políticas e sociais que marcaram o período 1820-1848, no Ocidente, guiaram-se por concepções decorrentes tanto da Revolução Francesa de 1789, quanto da Revolução Industrial inglesa (em curso desde a década de 1780).
a) Descreva uma dessas concepções.
b) Relacione-as com um movimento social e/ou político do período (1820-1848).

Resposta:

a) A concepção que tornou-se traço comum entre esses dois marcos políticos e econômicos no Ocidente Capitalista foi o Liberalismo. Essência do mundo a partir das idéias e críticas iluministas, essa ideologia defendia a não intervenção do Estado na economia e a concepção de um dos princípios fundamentais para a preservação da dignidade humana era a Liberdade, fosse ela política ou econômica. No campo político, a defesa das possibilidades da ampliação dos direitos de representação, postulava um Estado submisso às necessidades dos homens reunidos e organizados em sociedades (cidadania) e na área da economia a existência de leis de mercado que deveriam substituir a mão forte e pesada do Estado absolutista apontava para a consolidação do capitalismo em escala mundial.
b) Essas concepções estiveram presentes por exemplo nas agitações que culminaram com a derrubada da monarquia Bourbon, imposta pelo Congresso de Viena logo após a derrota de Napoleão Bonaparte e representada nesse momento pelo impopular rei Carlos X. As agitações não desapareceram por completo com a chegada de Luís Felipe de Orleans ao poder e ressurgiriam alguns anos mais tarde, selando o destino da monarquia francesa. A França assim vivenciou outro processo revolucionário e antiabsolutista que alastrou-se por diversas partes da Europa, mesclando em sua bandeira liberal alguns nuances de nacionalismo.

QUESTÃO 6

   

Esses dois quadros, pintados em datas muito próximas, indicam a placidez de São Paulo (1827) e a agitação do Rio de Janeiro (1832) nessa época. Considerando os contextos sugeridos pelas duas pinturas responda:
a) Quais as principais características das duas cidades, em termos econômicos?
b) Quais as diferenças existentes entre elas em termos políticos e culturais?

Resposta:

a) As duas cidades se desenvolviam a partir do comércio, porém em ritmo e com características desiguais.
Desde meados do século anterior, quando foi transformada em capital do Brasil, o Rio de Janeiro passou a concentrar atividades comerciais relacionadas a região mineradora, favorecida pelo seu porto, através do qual entravam as mercadorias metropolitanas e na qual se concentraram os principais mercadores lusitanos que se estabeleceram aqui.
A cidade de São Paulo também cresceu com o comércio, porém em um ritmo menor, pois não envolveu diretamente o comércio da metrópole, nem as empresas lusitanas. A cidade de São Paulo tornou-se centro de comércio de produtos do interior ou do sul do Brasil, destinados normalmente ao mercado interno.

b) O Rio de Janeiro era a capital do Brasil, sede da Monarquia, portanto centro das decisões políticas do país e, ao mesmo tempo, grande centro de difusão cultural desde a chegada da Corte Portuguesa, fortemente influenciada pelo desenvolvimento cultural europeu.
São Paulo era capital de província, de menor importância quando comparada ao Rio de Janeiro. Do ponto de vista cultural predominavam as manifestações provinciais, destacando-se a forte influência da cultura de grupos interioranos na capital, pouco influenciada pela cultura européia.


QUESTÃO 7



Esse quadro, do pintor mexicano José Maria Velasco, pode ser visto como um dos símbolos da modernização da economia da América espanhola no último quartel do século XIX. Sobre tal tema, responda:
a) Que transformações na infra-estrutura de transportes ocorreram na maioria dos países hispanoamericanos?
b) Como esses países inseriram-se economicamente no mercado internacional?

Resposta:

a) A pintura traz a figura de um trem cortando uma paisagem aparentemente virgem formada por uma exuberante floresta tropical. Os transportes sofrem uma dinamização significativa na segunda metade do século XIX, principalmente com a introdução do transporte ferroviário. Países como o México e o Brasil, vivenciam uma expansão notável da sua malha ferroviária em um espaço de tempo relativamente curto.
b) Cabe lembrar que esse aspecto da infra-estrutura tão associado ao progresso, esteve presente na economia latino-americana pelas mãos do capital internacional, determinando muito mais a sua dependência que propriamente o seu desenvolvimento econômico. Nos trechos construídos pelas grandes empresas do setor, a propriedade dos camponeses não era respeitada e a imposição das prioridades do grande capital se sobrepôs aos anseios da maioria da população pobre, reafirmando a exclusão social. As ferrovias foram instaladas em regiões estratégicas e foram fundamentais para escoamento da produção de matérias-primas e produtos agrícolas.

QUESTÃO 8

No Brasil, a defesa de posições culturais nacionalistas se apresenta de formas variadas. Exemplifique-a em dois momentos do século XX:
a) Na Semana de Arte Moderna de 1922.
b) No Estado Novo.

Resposta:

a) A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um movimento artístico-cultural que projetou uma nova visão sobre a cultura, destacando elementos nacionais em contraposição as influências européias até então predominantes. Temas folclóricos, indígenas e relacionados à História do Brasil formaram a base temático do movimento.

b) "Estado Novo" foi a expressão usada por Vargas para se referir ao modelo político autoritário e centralizador que implementou no país a partir de novembro de 1937. Tanto o populismo como as idéias fascistas que serviram de base para esse governo são caracterizados pelo nacionalismo, exaltado pelo governo através de programas de massa, como forma de fortalecer o próprio Estado.

QUESTÃO 9

Em 1930, um golpe colocou Getúlio Vargas no poder. Esse ato foi justificado pelas acusações de que a posteriormente chamada "República Velha" estava "carcomida". Nesse sentido, quais as críticas do grupo vitorioso com relação
a) à predominância de São Paulo na federação?
b) às práticas políticas imperantes nas eleições?

Resposta:

a) Segundo as argumentações da Aliança Liberal, que defendia a candidatura de Getúlio Vargas à presidência, o predomínio da elite cafeeira no governo brasileiro impedia a prática de uma política que atendesse aos interesses verdadeiramente nacionais. As diretrizes da política do café-com-leite, não eram confiáveis na medida em que as práticas econômicas adotadas pelos governos ligados a São Paulo, davam prioridade ao setor cafeeiro em detrimento de outros setores também importantes para a economia nacional.
b) As práticas políticas da chamada Primeira República eram absolutamente corruptas e se fundamentaram em fraudes e pelo controle político de massas de eleitores, viciados no clientelismo típico da política do coronelismo. A proposta do grupo vencedor acabou por se estabelecer na Constituição de 1934, que seria a adoção do voto secreto e a criação da Justiça Eleitoral.

QUESTÃO 10

Nas décadas de 60 e 70 do século XX, as sociedades do Ocidente passaram por agitações políticas e mudanças no que diz respeito à moral, ao comportamento e aos valores, podendo tais mudanças ser consideradas como revolucionárias.
Exemplifique essa afirmação com base na relação entre
a) Vietnã e movimento estudantil.
b) pílula anticoncepcional e movimento "hippie".

Resposta:

a) A década de 60 foi marcada pela explosão de manifestações estudantis em vários países e, de uma forma geral, está associada a luta contra a política imperialista. Nos Estados Unidos o movimento estudantil se organizou em oposição a Guerra do Vietnã, na medida em que eram exatamente os jovens que formavam o contingente militar estadunidense.

b) O movimento Hippie aglutinou jovens que passaram a contestar os valores morais padrão de vida tradicional da sociedade, baseado na valorização do consumo. Apoiada na idéia de "Paz e Amor" esse movimento defendeu, dentre outras coisas, o amor livre, ideal que teve sua materialização facilitada pela invenção da pílula anticoncepcional.



COMENTÁRIO GERAL:

A prova de História da FUVEST, na sua versão 2007 foi direta e objetiva se comparada a sua versão anterior. A tendência à contemporaneidade foi deixada de lado, assim como uma linha interpretativa e de caráter comparativo foi valorizada. Ao analisarmos a prova em sua estrutura geral, encontramos uma preocupação marcante em identificar as bases constitutivas das alterações e ou permanências históricas, presentes no caso das questões de números 2 e 6.
A análise comparativa e até interpretativa aparecem mais claramente nas questões 1, 3 e 8 exigindo do aluno uma capacidade relativa de interpretação e correlação entre o conteúdo adquirido. A ausência de questões que apontassem para a dinâmica do mundo contemporâneo pós Guerra e do Brasil pós Vargas também deve ser salientada, confirmando o comentário sobre o abandono de temas propriamente atuais.
O exame não fugiu do programa do Ensino Médio e para o aluno adequadamente preparado não ofereceu grandes dificuldades.

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