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A nova Bolívia

Voltam as lutas pelo poder entre liberais e nacionalistas

Há no governo boliviano consenso de que o êxito do governo de Evo depende de sua capacidade para avançar na nacionalização do gás e do petróleo, que segue a passo lento, pelas dificuldades de gestão próprias, mais do que pelo boicote externo.

Pablo Stefanoni - Especial para a Carta Maior

LA PAZ - A lua-de-mel foi curta. A Bolívia parece ter voltado rapidamente à sua rotina dos últimos anos: as disputas regionais, a tensão entre oficialismo e oposição e a intermitência de conflitos corporativos, que, quando coincidem no tempo, dão essa imagem de caos que às vezes é a única conhecida no exterior.

Hoje a polarização no país se dá entre duas visões antagônicas. O governo Evo Morales alenta um projeto nacionalista que combina o velho sonho nacional-popular latino-americano (com seus mitos e realidades) e as reivindicações de descolonização da sociedade, promovida pelo indianismo. Frente a isso, a oposição encarna uma cruzada de defesa das instituições democráticas e do estado de direito supostamente seqüestrados pelo "populismo autoritário" do mandatário indígena. Nada de novo sob o sol. É a história da Bolívia e da América Latina, que enfrentou sucessivamente liberais contra antiliberais, com diversas formas e roupagens. Hoje a batalha se dá no interior da Assembléia Constituinte. Tanto a direita quanto a esquerda sabem que o que se decidir ali marcará a política boliviana nos próximos anos. Vem daí a intensidade da disputa e a dificuldade para se chegar a consensos.

O sociólogo Carlos Laruta vê o perigo de uma "essencialização" das visões políticas, com o efeito de uma repolarização no país e o risco de reaparição dos pêndulos regionais, com um aumento das mobilizações e medidas de força, "tanto no oriente, quanto no ocidente". Porém, apenas analistas abertamente conservadores, como Cayetano Llobet, crêem que o governo indígena poderia seguir o destino de seus antecessores: o abandono antecipado do poder.

Ante uma potencial "venezuelanização" do país, Evo Morales tem uma força social considerável e incondicional, quase "militar", a dos camponeses e indígenas. Ele cuida desse apoio quase obsessivamente. Toda semana viaja ao interior com algum presente debaixo do braço: hospitais, escolas, estradas, planos de políticas públicas. Ali também há mais de 1,6 mil médicos cubanos atendendo aqueles que sempre estiveram fora do horizonte visual do estado.

É nos camponeses que Evo Morales realmente confia - e nisso os mais alinhados são os cocaleiros do trópico de Cochabamba. Os setores urbanos são considerados "convidados" no interior do governo. Por isso não é casual que uma grande parte da bancada constituinte do Movimento ao Socialismo (MAS) - considerado o "instrumento político dos sindicatos" - provenha dessas bases camponesas. As forças armadas "nacionalistas" são usualmente seduzidas para se somarem à "revolução democrática e cultural" junto aos empresários "patriotas", em uma espécie de reedição da aliança de classes nacionalista e revolucionária dos anos 1950. No plano institucional, nesses oito meses de Morales no poder, o parlamento brilhou por sua ausência e as principais medidas de governo foram tomadas por decreto.

"Na época neoliberal, a governabilidade se sustenta através de quatro poderes fácticos: partidos políticos, empresários privados, Igreja e organismos internacionais. Hoje a governabilidade se baseia nos movimentos sociais e Evo Morales não tem praticamente apoio nos velhos poderes", diz o assessor presidencial Walter Chávez. E agrega que, "diante dessa legitimidade, o bloco conservador - liderado pelo partido Podemos, do ex-presidente Jorge 'Tuto' Quiroga - se refugia no regionalismo".

Daí vem, sem dúvida, a munição mais grossa contra a política do MAS. Até agora, a posição governamental para estes setores se adequou a relações de força conjunturais: em março último, ao apoiar a Lei de Convocatória para a Assembléia Constituinte e para o referendo autonômico, prevaleceu a tese da "saída pactuada". Assim, se dizia que o MAS votaria "Sim" à autonomia, e a nova Constituição seria aprovada por dois terços. Porém, o presidente Morales não tardou a desfazer os acordos.

Primeiro, adiantou que votaria "Não" às "autonomias da burguesia", e logo começou a relativizar os dois terços e a defender a maioria absoluta, com a qual conta o partido do governo. A reação foi a paralisação cívica em Santa Cruz, Tajira, Beni e Pando, que mostrou uma forte capacidade de mobilização regional. Mas esta foi, pela primeira vez, erodida pela forte capacidade de mobilização dos movimentos sociais.

Há concordância, dentro e fora do palácio, que o êxito ou fracasso do governo Evo Morales será decidida em sua capacidade para avançar na nacionalização e industrialização do gás e do petróleo, a passo lento, pelas dificuldades de gestão próprias, mais do que pelo boicote externo. Ali estão os recursos para satisfazer uma população que hoje se entusiasma com a existência de uma cara morena no palácio Quemado, mas que começa a reclamar mais atenção às suas penosas condições de vida.

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