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Exposição: espaço do outro

Cidade tem diversas opções de exposições
Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo
www.sinprosp.com.br

São Paulo é mesmo um lugar privilegiado. Se você olhar agora no jornal ou pesquisar na internet, vai encontrar, entre o final de agosto e o início de setembro, cerca de 65 exposições em cartaz. São mostras sobre os mais variados temas, de arte moderna aos móbiles de Alexander Calder, do futebol à figura humana, das esculturas de Anita Kaufmann a reproduções do Egito Antigo.

Com tantas e tão diversas opções, não é difícil o professor se perder na hora de escolher uma visita para fazer com seus alunos. Para que o passeio não seja desperdiçado, ou para que os alunos não fiquem sem entender o que foram fazer ali, é preciso selecionar bem proposta e "estabelecer uma ponte clara entre a exposição e os conteúdos discutidos em sala de aula. Seja o assunto do momento, seja algo que já foi, ou um tema que ainda virá". Quem dá a dica é Raquel Funari, professora de História há 25 anos e hoje trabalhando nos colégios Santo Américo e Centro Educacional Brandão.

Raquel acaba de combinar com seus alunos de quinta e sexta séries a excursão que os levará até o Museu de Arte Brasileira, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). É lá que está sediada a vedete das exposições do momento: "Deuses Gregos", que mostra 200 peças de arte greco-romana vindas diretamente da Alemanha. Perguntada por que levaria seus alunos lá, a professora responde algo inusitado. Nada de "o ineditismo dos objetos, ou a beleza da arte da Antigüidade". Para ela, "ir a uma exposição é conhecer e descobrir o espaço do outro". Ou, em outras palavras, é possibilitar a abertura de portas e janelas para vários níveis de percepção, da contemplação estética à crítica social.

Para a professora, que é mestre em História da Cultura e doutoranda na mesma área pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para que uma excursão surta efeito é preciso, primeiro, casar os conteúdos da exposição com aqueles trabalhados em aula. "Sem isso, não que o aluno não se interesse, mas se ele souber o que está fazendo ali, se souber o propósito da visita, certamente vai interagir mais", conta. Com o objetivo claro em mente, aparece o segundo fator para o sucesso: a estrutura que a exposição oferece. "A monitoria é muito importante, o preparo, o jeito de falar e contar as coisas", coloca a professora.

O antropólogo Tiago Oliveira Pinto concorda com ela. Ele é o curador da exposição "Deuses Gregos" e explica que os monitores têm papel fundamental. "Devem fazer do passeio algo interessante, aproveitável". Por isso, o ideal é que o monitor conheça sua platéia, que entenda as necessidades dela. "Os alunos vivem cercados de não: não pode sair da sala sem pedir, não pode conversar, não pode um monte de coisas. Se ele chega à exposição e sente que o ambiente é ainda mais repressivo que a escola, não vai se soltar para usufruir daquela experiência", acredita a educadora. E, junto com isso, a fala desse monitor deve ser sedutora e demonstrar verdadeiro conhecimento. "Sem isso, a criança ou o adolescente deixam de confiar nos interlocutores e aí não se entregam à experiência", completa Raquel.

Há ainda outros detalhes que podem ajudar uma visita a locais como museus a ser bem sucedida. Normalmente a organização da exposição oferece uma ficha que deve ser preenchida pelas escolas no momento da inscrição. Nesse documento está a relação entre a mostra e os conteúdos programáticos pedagógicos. Assim, os monitores podem, com a ajuda do professor, montar roteiros apropriados para cada necessidade, inclusive temporal. Ou seja, se um professor de geometria vai ensinar simetria, formas ou qualquer outro assunto só em novembro, isso não é motivo para deixar de visitar a exposição de Alexander Calder já. O aluno poderia agora travar um primeiro contato e ir montando sua bagagem para quando for estudar o assunto, lá na frente, já conseguir aproveitá-lo de outra forma, com mais repertório.

Aliás, é esse contato a parte mais importante de uma visita, na opinião da professora de História. Para ela, nada substitui esse encontro do estudante com seu objeto de estudo. "Estamos no século 21 e em boa parte das escolas ainda é o giz a ferramenta mais importante para disseminar o conhecimento. E isso é absolutamente anacrônico", protesta. Ela acredita que o ideal hoje é que o aluno construa seu conhecimento, vá montando os quebra-cabeças mentais e chegando a resultados construídos por ele mesmo. E uma etapa importante nesse processo, ainda segundo a professora, é o contato com o novo, o surpreendente, aquilo que fascina. Mas mesmo em tempos de TV, internet e vídeo-games, uma exposição de estátuas e objetos gregos ainda causa esse fascínio? "Ah sim!", comemora Raquel, que continua: "apresentar novas ferramentas e possibilitar um conhecimento prévio daquilo que estamos indo visitar ainda aguça, e muito, a curiosidade dos meninos". Olhar, admirar e até tocar - como foi possível na exposição "Dinos na Oca", no Ibirapuera, entre janeiro e abril deste ano - são experiências que vão se somando no caminho do conhecimento.

Raquel Funari explica que os alunos das escolas particulares vivem sempre nos mesmos círculos. Freqüentam os mesmos clubes, os mesmos shoppings, fazem os mesmos programas. Quando saem desse espaço confortável, atravessam a cidade e vão se deparar com a beleza dos vitrais do Museu da Arte Brasileira, por exemplo, só isso já representa uma grande vivência. Mas chegando lá, esse mesmo aluno se depara com um outro grupo, que também está visitando a exposição, mas que veio lá do Grajaú. E isso também soma grande valor às excursões. E o mesmo acontece com o aluno de escola pública. "Muitas vezes ele nunca saiu do Grajaú e vai lá para o Pacaembu. Esse menino trava contato, de forma singular, com o outro, em suas mais variadas formas: a outra rotina, a outra cidade, o outro cidadão, etc...", aprofunda a professora. "E isso abre um milhão de possibilidades para cada visitante. Independentemente de sua origem, o estudante - se bem acompanhado e orientado - sai mudado de uma exposição", completa. E é essa soma de peças raras, objetos belos - ou estranhos -, registros do passado, o encontro com o outro, as experiências visuais, auditivas, táteis, etc, tudo isso somado é que causa o encantamento, "mesmo nos meninos filhos dessa sociedade midiatizada".

E engana-se quem pensa que a experiência termina quando o ônibus estaciona na porta da escola para devolver as crianças. Depois do passeio, os estudantes vão para casa e trocam com a família a experiência que tiveram. "Se são pequenos, é preciso estimular a troca. Se são mais velhos, a exposição acaba virando o assunto do jantar", brinca Raquel. E essa interação soma mais elementos à experiência do aluno, que chega à sala de aula mudado, fascinado e estimulado, segundo a especialista. "Se ele não participa apenas porque será avaliado, ele chegará à sala de aula no outro dia com vontade de discutir sua vivência, trocar com os colegas o que experimentou", propõe a professora. E é neste ponto que entra novamente o educador. Até agora ele esteve ao lado dos alunos guiando e orientando, percorrendo um roteiro com as crianças e os adolescentes. Mas se a visita foi mesmo transformadora, agora cabe ao docente, segundo Raquel, mediar todas as facetas da experiência (a preparação, a visita, a repercussão em casa, as discussões do dia seguinte, etc...) e facilitar a construção de algo que seja próprio do aluno. "Pode ser um mural, pode ser uma primeira página de jornal. O importante é que a excursão vire um material derivado de tantas experiências", sugere. E para alegria dos estudantes, a professora de História completa seu raciocínio assim: "Normalmente as exposições não dão bons temas de prova - afinal ninguém quer ficar anotando quem pintou a obra, ou quem fez a escultura - mas se for bem conduzida, a visita pode ser o pontapé inicial no hábito da busca, da pesquisa. E isso, o aluno leva para a vida inteira".

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