HISTORIANET

Moderna

Thomas Muntzer

RESENHA: THOMAS MÜNTZER, TEÓLOGO DA REVOLUÇÃO. ERNST BLOCH.
Patrícia Matos de Mello.

Principais propostas de Thomas Müntzer e as repercussões do anabatismo.

A obra de Ernst Bloch tem bastante importância por ter a proposta de contribuir para um campo pouco explorado pela historiografia: a vida de Thomas Müntzer e suas considerações teológicas. Como Bloch aponta no início de seu livro, o tema é pouco abordado devido à escassez de fontes e, assim, fala apenas resumidamente sobre o nascimento de Müntzer e sobre sua vida antes de assumir sua missão teológica ou revolucionária. Portanto Bloch concentra sua análise a partir do momento em que Müntzer inicia sua pregação.

Müntzer fazia parte de um contexto histórico marcado pela crise do antigo sistema feudal e pela transição para nova forma de organização da sociedade com o advento das cidades e o desenvolvimento do capitalismo. Ligado ao mundo da aldeia, Müntzer organiza suas propostas entorno dos problemas vividos por ele e pelos camponeses em geral. Uma das principais questões de sua formulação teológica é a igualdade. Através do sacrifício de Cristo na cruz todos os homens se tornaram iguais perante Deus e livres do “jugo do pecado”. Com base nisso, Müntzer coloca no mesmo patamar tanto os senhores como os servos e é criticado por Lutero, uma vez que estaria reduzindo a liberdade a algo meramente carnal. Esse traço do pensamento de Müntzer (associado ao lema "omnia sunt communia") foi interpretado por alguns como uma formulação pré-socialista. No entanto, o que está em questão é algo muito diferente do socialismo do século XIX e no máximo pode-se dizer que isso se refere ao comunismo primitivo do início dos séculos da Era Comum e à preocupação em se viver, em todos os sentidos, segundo a natureza humana do Filho de Deus.

As reformas religiosas do século XVI, para além das preocupações doutrinárias, reinterpretam a relação do homem com Deus e a relação dos homens entre si. Nesse sentido, é fundamental pensar a questão do livre arbítrio. Ao se aceitar a tese do livre arbítrio, confere-se ao homem o poder de escolha e de intervenção no seu próprio destino e nega-se, portanto, a onipotência divina. Para Müntzer é importante sustentar essa tese, pois toda sua proposta se concentra na alteração da realidade da vida na aldeia através da atuação do homem e não através da intervenção milagrosa da onipotência divina (muito embora os sinais de Deus que garantissem o apoio e vitória à causa fossem importantes). Esse é um grande ponto de divergência entre Müntzer e Lutero, já que, o segundo, ao negar a existência do livre arbítrio (e sustentar a tese do servo arbítrio) transfere todo o poder a Deus, que predetermina todas as coisas. Ligado a isso, Lutero ainda defende a idéia de vocação, de um chamado ao qual cada um deve responder ao longo de sua vida e, nesse sentido, prende o homem cristão à realidade em que vive e restringe seu campo de atuação à esfera meramente espiritual.

Ernst Bloch expõe as principais características da teologia luterana, da católica e trata bem superficialmente da doutrina calvinista. O autor aborda também o alcance do movimento anabatista não só na Alemanha, mas ainda na Hungria, na Ucrânia, no Missouri, na Holanda, na França etc. Todavia, o fator fundamental para o posterior sucesso do movimento iniciado por Müntzer foi justamente a alteração de suas propostas iniciais. Menno Simons foi o responsável pela renovação do anabatismo, que consistiu na incorporação de elementos de orientação calvinista. Essa doutrina menonita teve repercussão inclusive na Inglaterra em 1648 no movimento dos levellers e dos diggers com os ideais milenaristas do quinto Império universal, já defendido por Müntzer. Essa fusão de elementos teológicos diversos e contraditórios nos faz pensar sobre o papel da religião num mundo onde Deus ainda não foi morto, pelo contrário, está vivo, fala e atua através dos novos profetas, (seja para garantir a igualdade, a liberdade e o estabelecimento da Jerusalém terrestre em Müntzer, seja para garantir o cumprimento da vocação de cada homem e conferir a salvação aos eleitos em Lutero) e, o mais importante, nos permite refletir sobre os limites tênues entre religião e política, pelo menos nesse momento.

Pesquisar em
1128 conteúdos

Notícias

MASP

Passagens por Paris - Arte moderna na capital do séc. XIX

Notícias

Universidades latinas atraem poucos estrangeiros

Instituições têm melhorado sua presença em rankings internacionais, mas continua

Roteiros de Aula

Ninguém tira Zero

Província elimina nota zero para proteger autoestima de alunos

Notícias

França e Alemanha lembram 100 anos da Primeira Guerra

Presidentes Hollande e Gauck homenageiam mortos nas batalhas e destacam importân

COPYRIGHT © HISTÓRIANET INTERNETWORKS LTDA

PRODUZIDO POR

SOBRE O HISTORIANET