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A Pedra Escrita

Por Pedro Silva
de Portugal

As terras da Beira Alta escondem belezas naturais indescritíveis e os nossos antepassados cedo se sentiram atraídos por elas, apesar do seu rigoroso Inverno. Parece, no entanto, que, actualmente, o ar puro que se pode, ainda, respirar por esta zona do nosso Portugal compensa, com juros, algum do frio ou da interioridade que possa consubstanciar a zona da Beira. Nesta nossa primeira viagem optámos por um monumento lítico (isto é, de pedra) tratado com escasso aprumo, mas que, ainda assim, pela sua raridade e pelo estado de conservação merece uma visita.
Confesso que foi complicado encontrar o local onde se encontra a famosa "Pedra Escrita" de São Pedro do Sul (a poucos quilómetros de Viseu), em primeiro lugar porque as placas de sinalização são de tal modo pequenas que, na estrada que temos de levar para aí chegar, ou vamos com extrema atenção ou então temos de encontrar alguém que amavelmente nos indicou a zona e, em segundo lugar, porque, à falta de caminho, desde a estrada até o local do monumento, a deslocação tem de ser feita a pé, como antigamente, e, como se sabe, o povo de agora tem pouca vontade de locomoção pelos seus próprios membros
inferiores.
Sendo um pessimista por natureza, quanto mais andava menos julgava merecer o esforço e que, por certo, não iria encontrar nada de especial. Felizmente, quase sempre encontro algo de surpreendente.
A "Pedra Escrita" é um monumento de certa maneira imponente, principalmente se imaginarmos que ali residem vestígios insculpidos desde há milhares de anos. Protegida por um toldo de madeira, algo que convém ressalvar pela positiva, a mesma não possui nenhum placa explicativa e parece-me que merecia.
Não sendo a minha área a arqueologia, ainda assim não deixei de reparar em várias figuras circulares (visíveis a olho nu, apenas três, próximas umas das outras) que, de acordo com alguns, seriam representações solares, enquanto que outros as reclamam como escudos arcaicos. Num monumento de cariz religioso, inclino-me para a teoria dos símbolos solares, de cariz concêntrico, mas não se pode descurar igualmente a referência que Rudolf Koch faz sobre um símbolo similar aos presentes, acreditando que "a trindade corpo, mente e alma é novamente manifestada na sua totalidade. A essência imortal, a alma, é o ponto central. O círculo interno representa a vida intelectual, a mentalidade humana, enquanto o círculo externo representa o homem corpóreo" (O Livro dos Símbolos, p. 15, Vida Editores). Se atentarmos na foto, podemos então compreender com aquilo que se
pretende nesta explanação.
A ajudar a tudo isto, destaque para a trama, à esquerda dos círculos, que segundo o mesmo autor, na p. 62, realça, para representações similares, a significação de "dia e noite, luz e
trevas, abertura e encobrimento". Estaremos então perante uma mensagem dos nossos antepassados, de demonstração de uma mentalidade racional, da crença em algo superior, e uma manifestação de reconhecimento da sua própria personalidade.
Independentemente das interpretações possíveis, o certo é que este monumento singular justifica a nossa deslocação e permite-nos sonhar um pouco com aquilo que éramos, há milhares de anos atrás, e com a evolução possível que tenha acontecido. Creio, porém, que é maior a nossa estupefação hoje perante o monumento lítico do que o era na altura, talvez porque acreditamos estar perante uma raça sub-humana, ou equivalente, quando, na realidade, tratava-se de um conjunto de homens e mulheres com uma maneira de pensar efetivamente racional que, extrapolando um pouco aquelas que consideramos as suas funções primordiais (que, à luz da vida atual, acreditamos terem sido apenas alimentação, procriação e pouco mais…), consideram legar aos vindouros conjuntos vastos de monumentos, a sua grande maioria de significados duvidosos - sobretudo porque interpretados com a mentalidade do homem moderno, ou para os mais rigorosos, pós-moderno.
Cremos tanto na superioridade da nossa intelectualidade que cometemos o erro crasso de menosprezar o pensamento de todos aqueles que contribuíram, de maneira fundamental, para a evolução da própria espécie. Há antropólogos e sociólogos que defendem que, à nossa maneira, a evolução foi demasiado escassa e eu, enquanto mero apreciador do dia-a-dia e das notícias do mundo, acredito que, por vezes, parecemos mais bárbaros que os povos pré-históricos! Mas isto são contas de outro rosário, como sói dizer-se…
A grande conclusão desta nossa primeira viagem é que, acima de tudo, há um mundo lítico, esquecido pela grande maioria de nós, desejoso de se dar a conhecer e todos, sem exceção, terão algo a aprender com os que vieram muito antes de nós. E a pedra resiste ao passar do tempo - admirá-la é uma obrigação, um alimento da alma. Ignorá-la é um ato tão sem sentido quanto destruí-la.

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