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Brasil Império

Um casamento dinástico

Em nome do restabelecimento do poder real, d. João VI, o então desacreditado rei português, traçou uma estratégia inteligente para recolocar a dinastia dos Bragança ao centro do poder da Europa, promovendo o casamento de seu filho herdeiro d. Pedro com d. Leopoldina, filha do Imperador da Áustria Francisco I, pertencente a poderosa dinastia de Habsburgo.

Com a queda do Império brasileiro em 1889, àqueles que se opunham ao imperador deposto articularam manobras de toda sorte para difamar a monarquia e membros da família dos Bragança. O principal alvo deste cenário foi d. João VI, descrito como beberrão, covarde, hipocondríaco e afeminado. Por outro lado, a história prova que não foi bem assim. D. João, ao longo de sua trajetória real, mostrou habilidade quando da fuga para o Brasil em 1808. Esperou o momento certo para fazê-lo - ainda que pressionado por todos os lados. Com a transferência da corte para o Rio de Janeiro, o príncipe conseguiu preservar sua vida e a Coroa. Estabeleceu assim, a cede de seu império ultramarino, onde ficou por 13 anos, atingindo o status de rei, onde pode fazer articulações políticas com as pessoas mais importantes e endinheiradas do Rio de Janeiro, que estavam dispostas a apoiar suas idéias dinásticas. Quando d. João voltou a Portugal (devido a pressão exercida pelas cortes de Lisboa), o fez como figura soberana, ainda mais porque deixou no Brasil seu filho herdeiro imediato e então príncipe regente d. Pedro.

Uma das grandes manobras estratégias políticas e diplomáticas de d. João muitas vezes não é lembrada. Trata-se da realização do casamento de seu primogênito com a herdeira da Casa d´Áustria, d. Leopoldina.

Após a devastação napoleônica houve a restauração as casas tradicionais européias, discutida providencialmente no Congresso de Viena, em 1815. D. João era, naquela ocasião, um rei exilado. Aproximadamente dois anos depois do Congresso, d. João VI iniciou seu ambicioso projeto de voltar ao centro da balança de poder da Europa. Como? Com o casamento de seu filho com d. Leopoldina, filha do Imperador Francisco I.

Desvanecidos os perigos contra paz da Coroa lusitana, os anos de 1817 e 1818 mostraram-se recheados de importantes celebrações que tiveram como palco a cidade do Rio de Janeiro. Algumas destas destacam-se pelo caráter inédito, como a coroação de um herdeiro tradicional da Europa ocorrida noutra localidade. Os habitantes da cidade estavam em estado de glória e honra, visto que desde 1808 "conviviam" como rei e toda sua família real. Este entusiasmo coletivo que poderia ser observado pelas ruas do Rio de Janeiro, ficou ainda maior quando souberam da grande notícia que revelava o enlace matrimonial entre o herdeiro do trono lusitano e a arquiduquesa d´Áustria, d. Carolina Leopoldina Josefa.



A corte portuguesa providenciou momentos marcantes na cidade brasileira como o ocorrido em 5 de novembro de 1817 com a chegada de d. Leopoldina e mais adiante, a comemoração do aniversário de d. João VI, ocorrida aos 13 dias de maio do ano de 1818. Assim, a população pode testemunhar um fato inédito, como dito anteriormente, da elevação de um herdeiro de tradicional casa européia abrigado pelo Novo Mundo.

O PESO DO CASÓRIO REAL E SEUS PERSONAGENS

A união matrimonial tinha o peso de restabelecer os laços (enfraquecidos) entre os Bragança e Habsburgo. Esta aliança já havia sido formada quando d. João V uniu-se com d. Mariana, em 1708.

Conforme imagens que veremos adiante, os personagens incumbidos das minuciosas negociações estratégicas que levaram ao acerto final do casamento real foram: do lado da Áustria - o premier austríaco, o príncipe Metternich, filho de Francisco I, imperador da Áustria, rei da Hungria e Boêmia, já do lado luso, o marquês de Marialva, ministro plenipotenciário português.



Marialva foi recebido em Viena, em 17 de fevereiro de 1817. O ministro apresentou-se com uma suntuosa "entourage", composta de 77 pessoas, entre pajens, criados e oficiais, a pé e montados. As carruagens foram acompanhadas por criados de ambos os lados, todos vestidos da mais fina libré. O cortejo real fora fechado com as representações de Inglaterra, França e Espanha. Todos os movimentos dispensados nesta sublime ocasião foram minuciosamente registrados pela Gazeta do Rio de Janeiro, pertencente aos fluminenses.

A GRANDE FESTA

Em 1º de junho o então ministro Marialva coordenou a preparação daquela que seria uma das mais suntuosas funções realizadas em casa imperial européia. Para ocasião, Marialva ordenou a construção de salões nos belíssimos jardins do Augarten de Viena, palco de um baile que abrigaria mais de duas mil pessoas. Os convidados mais importantes, envolvendo todo corpo diplomático e nobreza austríaca, presenciaram tamanha celebração. A festa contou ainda com refinada ceia servida após a dança. Mesas com talheres em prata e ouro, finas taças recebiam o mais refinado vinho. Uma orquestra foi especialmente elaborada (em diversos lugares) para enriquecer o evento e animar o povo presente fora do palácio.


O PREÇO DA RAINHA

A Coroa portuguesa fez questão de não se esquecer de nenhum membro da corte austríaca. Providenciou presentes extraordinariamente valiosos para os grandes da Áustria. A festa promovida por Marialva relatada há pouco, custou mais de um milhão de florins. Jóias e veneras de ordens honorificas atingiram 5.800 libras. A disposição portuguesa em ofertar valiosas fortunas começou logo nos primeiros contatos estabelecidos pelo conde da Barca com respeito às relações diplomáticas para o casamento entre d. Pedro de Alcântara, príncipe real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e d. Carolina Leopoldina Josefa, princesa imperial e arquiduquesa da Áustria.

A estratégia exercida pela Coroa lusitana, de não economizar nenhuma agraciamento traduzido em altíssimos valores, foi responsável por grande parte da divida que o nascente Estado brasileiro teve que herdar. O Imperador Francisco I foi convencido a mandar sua filha para o Brasil após receber um inestimável incentivo traduzido num tesouro composto por jóias, diamantes e barras de ouro.

As riquezas disponibilizadas a Francisco I serviram de fiança para o envio de sua filha aos trópicos, sem saber, que não voltaria viva. A referida união matrimonial esclarecia que muitos interesses (tanto na dimensão política quanto diplomática) estavam em jogo, ilustrados em valores e poderes que reiteravam os laços de sangue de duas casas tradicionais européias.

O CONTRATO

O Arquivo Nacional do Rio de Janeiro dispõe duma cópia do contrato lavrado em Viena, em francês, contendo 12 cláusulas demarcando as possíveis situações a respeito do destino de Leopoldina no "arranjo" de sua vinda ao Rio de Janeiro, na ocasião, sede da Coroa portuguesa. Veremos a seguir, algumas cláusulas do referido contrato, traduzidas em português.

*** S.M. Imperial e Real Apostólica constituída em dote à Sereníssima Princesa a soma de 200 mil florins, pagos em dinheiro em Viena durante a celebração do casório; e, quando do embarque, deveria certificar-se se sua filha levava o "trousseau nécessaire", as jóias, vasos de ouro e prata, etc., etc., conforme o uso estabelecido na Casa da Áustria.

*** Ficava o Príncipe obrigado a dar à consorte uma soma equivalente em contradote, de modo que o total de ambos será de 400 mil florins.

*** D. João ficava obrigado a dar à nora uma pensão anual de 60 mil florins "á titre d´épingles" ("a titulo de alfinetes" - uma espécie de pensão como contratode), que seria paga no montante de 5 mil por mês.

*** S.M. Fidelíssima Francisco I, por sua parte, prometia ao Príncipe esposo, em contraparte, a mesma soma de 60 mil florins "á titre de cadeau de noces" (a título de presente de casamento).

Referência Bibliográfica:
Revista Nossa História - Ano 3 / nº 30 - abril 2006


Escrito por:
CRISTIANO CATARIN
E-mail: cristiano@historianet.com.br
Abril de 2006

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