HISTORIANET

Temática

História para a vida

HISTORIA PARA A VIDA: SABERES QUE NECESSITAMOS


Paulo Robério Ferreira Silva


RESUMO:

Há uma evidente distinção entre a história como disciplina científica, em que a investigação do historiador determina os pontos que provocarão a assimilaridade coletiva e a história para a vida, em que interessa fundamentalmente a sua aplicabilidade cotidiana. A segunda possibilidade instiga o ser humano a transformar os saberes em elementos essenciais e facilitadores para a vivência e sobrevivência. O individuo, ao fazer esta apropriação contribue direta e indiretamente para a construção do mundo desejável. Então o passado deixa de ser o principal objetivo da pesquisa histórica e passa a dividir a atenção também com o presente e o futuro, dado que, principalmente, este último transforma-se no foco do que se pretende alcançar.


PALAVRAS-CHAVE: história para viva; saberes que necessitamos; história e futuro; história e o individuo; viagem pela história.


INTRODUÇÃO

Há uma evidente distinção entre a História como disciplina científica, em que investigação do historiador determina os pontos que provocarão a assimilaridade coletiva e a História para a vida, em que interessa fundamentalmente a sua aplicabilidade cotidiana. A segunda possibilidade instiga o ser humano a transformar os saberes em elementos essenciais e facilitadores para a vivência e sobrevivência. O individuo, ao fazer esta apropriação contribue direta e indiretamente para a construção do mundo desejável. Então o passado deixa de ser o principal objetivo da pesquisa histórica e passa a dividir a atenção também com o presente e o futuro, sendo este último o foco do que se pretende alcançar. Deste modo, nosso trabalho parte do pressuposto que a interpretação da História deve ser efetivada levando em consideração tanto o ângulo material como o mental que antes de se oporem se complementam, como justifica Ciro Flamarion Cardoso.

“De modo didático, o dilema envolvido pode ser definido como uma alternativa entre: abordar o social: privilegiando o ângulo material e das ações que os homens efetivamente realizam; ou fazê-lo dando maior importância ao ângulo mental. Ninguém nega o caráter inseparável do material e do mental. Nenhuma ação individual ou coletiva poderia exercer-se sem estar referida ao mesmo tempo a um projeto, ou a uma ideologia, ou a um mito, etc., que tenha curso na sociedade de que se trate”.

Considerado então a singular ligação entre uma interpretação focada tanto no universo material como no mental é preciso estar atendo a uma outra situação, para que o trabalho que ora ensejamos, possa atingir os objetivos previamente estipulados: é preciso eliminar a “interpretação extremada dos saberes” – ou seja, isto em oposição a aquilo, onde corriqueiramente nos deixamos levar por esta ou aquela afirmativa teórica dos acontecimentos conforme inegavelmente necessitamos. Se uma interpretação extremada de fato ocorrer correremos um sério risco de nos perdermos em um longo debate epistemológico onde a essência que nos cabe expor se perdirá num vazio titânico.


USO DA HISTÓRIA-DISCIPLINA

Na prática docente, os valores tendem a serem justificados pelas inesgotáveis modalidades de ciências, embora, mesmo admitindo que a profusão delas não acompanha as reais necessidades humanas e aceitando este limitado alcance, somos impelidos a justificar o mundo conforme o seu amparo.

Podemos então perceber que a “história-disciplina” não passa de “ficções arbitrárias e passageiras, articuladoras de interesses que não são universais”. Transcender, na hipótese de que tal conceito exposto não precisa ser necessariamente eliminado (isto em oposição a aquilo) – e aí evitaríamos a facilidade dos “extremos”, nos faria repensar a prática docente em que todo esforço estaria, de fato, voltado para contribuir para a formação do individuo, a partir de suas necessidades e expectativas. Os saberes históricos seriam, por fim, destinados à aplicabilidade cotidiana, e neste caso nos pautaremos na essência dimensional da existência inteligível – passado, presente e futuro, para então ensejar uma viagem repleta de medo e expectativas, porém indispensável.


O PASSADO

Nesta caminhada surge o primeiro embate: quando associamos a história como disciplina à soberania da dimensão “passado” em oposição ao presente e ao futuro. Se cabe ao historiador, profissional ou não, fazer “um discurso mutável e problemático – ostensivamente a respeito de um aspecto do mundo, o passado” , cabe ao mundo desvelar estes saberes, não apenas para uso teórico, mas, fundamentalmente, para lhe permitir usufruir de benefícios necessários em um dado momento.
Estes saberes apropriados alimentam agora um novo conflito: entre o hoje e o amanhã, pois “não importa quão sofisticado ou rudimentar, nenhum agrupamento humano sobreviverá por muito tempo se não for capaz de transferir uma quantidade mínima de recursos do presente para o futuro”. Nesta perspectiva o “passado” cede lugar ao que pode ser considerado como elementos “favoráveis” à sobrevivência humana – o presente, compreendido como o agora; e o futuro, o amanhã desejável. A seleção natural proposta por Darwin estaria perfeitamente justificada: o passado é eliminado, pois no momento é “nocivo” – interessa-nos sobreviver, não nos resta muito tempo, é preciso escolher entre o hoje – aquilo que esta ao nosso alcance, e o amanhã - algo que poderá ser realizado ou não.

Por não poder mais sofrer interferência, o passado é facilmente abandonado, em detrimento de algo que pode ser moldado conforme o desejo. Talvez se explique aí a facilidade com que as comunidades (grupos culturalmente identificados) nega e facilmente abandona valores construídos durantes um longo período diante daquilo que para eles é considerado novo. Neste caso “o conflito entre as demandas do presente vivido e as exigências do futuro sonhado é um traço permanente da condição humana”, o que provoca uma repulsa ao que pode ser classificado como velho.

Envolvido entre o presente e o futuro, o individuo e sua comunidade postam-se diante de um novo desafio: afinal, decidir entre o hoje e o amanhã requer domínio de si mesmo e do mundo a sua volta. Deparamos com um fosso profundo que separa as sociedades cultural, econômica e tecnologicamente mais complexas daquelas em estágio rudimentar ou simplório, pois “não existe para o grupo atrasado a possibilidade de escolher o que deseja adotar (de grupos mais evoluídos) e, menos ainda, condições de produzir por si próprio o que adote”. Neste caso, a dificuldade de produzir uma identidade próxima da suas necessidades esbarra na constante falta de conhecimento e interpretação do seu passado o que dificulta uma compreensão do presente e uma tomada de decisão mais segura entre o agora e o depois. “Somos todos construídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa”, observou Montaigne. Então para fazer uma viagem, não confortável e segura mas insitativa, entre o agora e o futuro desejado, precisamos primeiramente juntar os cacos e lhe dar significados, afinal “apostas terão de ser feitas: resguardar-se de todo o risco e jamais apostar é talvez a pior aposta possível”.

ENTRE O PRESENTE E O FUTURO

Se saimos das cavernas e estamos mais próximos do céu, não podemos negar que o “futuro desejado” sempre ocupou um espaço privilegiado no universo humano. “O desejo insita a ação”. Olhamos para o passado com o objetivo de interferir no futuro, de lhe dar forma. Vejamos o que observou Adam Schaff a este respeito: "o futuro não é um destino determinado pelo desenvolvimento da tecnologia, mas obra do homem", obra esta que se faz sempre voltada para alcançar algo de que não dispomos no momento, “aquilo de que os homens carecem é o que eles mais desejam”. Portanto, o propósito da “história para a vida” é focar no futuro – a única dimensão que sofre interferência consciente da vontade humana. “Se nos situarmos nesse mundo e nessa história, mais facilidade temos de compreender o presente. E compreendendo-o, devemos buscar a mudança daquilo que pode ser mudado”.




O CURRICULO

Dado que o futuro interessa significativamente a história para a vida e que estamos nos situando no mundo docente/discente é necessário, sem buscar uma conceituação meramente técnica, mas seguramente prática, tratar da questão do enfoque curricular. Não é o conteúdo, propriamente dito (os saberes sistematizados e os que são construídos a cada instante), que nos interessa agora, mas abordar uma antiga prática apoiada, sobretudo, no modelo curricular da escola pública dos Estados Unidos desenvolvido para levar os imigrantes e as camadas mais pobres daquele país, a absorverem a dita “cultura norte-americana”, onde em sua essência expressa a seguinte linha: “eu penso, planejo, determino o que vocês precisam, e vocês não precisam pensar, apenas executar”. Conscientemente ou não, reproduz-se no Brasil, principalmente nas escolas públicas, metodologia semelhante. O trágico é que o que é produzido lá fora, sobretudo nos países mais avançados, via de regra, tem valor maior que aquilo que nós conseguimos produzir aqui. Esta limitação imposta pela expressão “conseguimos produzir” baseia-se no sistema desenvolvido por Darcy Ribeiro que considera como “fatores fundamentais de mudança cultural (...) a criatividade através de invenções e descobertas” e “a difusão através de contatos entre povos e a inovação através de movimentos sociais revolucionários”. A intensa submissão cultural, ao qual foi e é vítima o povo brasileiro, deste os primórdios, tem provocado seqüelas profundas em nossa sociedade, desestimulando a necessária reinvenção a partir daquilo que consideramos necessário, levando-nos a experimentar um sentimento de inferioridade diante dos outros povos, o que é visível entre regiões do próprio Brasil e daqui em relação a outros países. “Vosso mau amor de vós mesmo vos faz do isolamento um cativeiro”.


VIAGEM PELA HISTÓRIA

Para que este futuro, que ora se constrói, possa atender as reais necessidades do individuo é preciso que ele reaprenda andar; traçar o seu próprio roteiro. Propomos que a história como disciplina didática não seja mais imposta de fora para dentro. O saber universal, sistematizado ou não, é essencial ao desenvolvimento humano, porém a trajetória desta apropriação deve ter início no individuo, a partir de suas necessidades, interpretações e expectativas. Necessário se faz estimular a aprendizagem significativa “que possibilita ao aluno relacionar com sentido o conteúdo a ser aprendido com o que ele já domina”.



O papel do educador não é apenas transmitir informações e mediar à aprendizagem, mas sobretudo estimular o aluno a se apropriar conscientemente de sua própria história; ele como principal agente do mundo que ora se cria.
A partir daí é preciso sistematizar as dimensões seguintes desta viagem conforme o caminho que deseja ser trilhado. Por exemplo: a história micro-regional; do grupo racial ao qual esta inserido; de seu estado; de seu país; e qualquer outra que tenha valor e significado naquele dado momento, objetivando sempre alcançar os saberes universal.


TEORIA DA CONFORMIDADE

Por este caminho haverá segurança para moldar o futuro desejado, como podemos justificar pela “teoria da conformidade” . Neste caso, o que se conforma é fruto da gerência direta de nossas vontades e das ações deflagradas a partir dela. Em síntese, a interferência humana nos diferentes aspectos da vida cotidiana leva a configuração de uma realidade que, conscientemente ou não, é construída a partir da vontade do individuo e da coletividade. Afinal “as formas superiores da sociedade devem ser como um contorno congênito a ela e dela inseparável” e que “emergem continuamente de suas necessidades específicas”. Assim, o Ser desenvolve o domínio necessário para construir, desconstruir e reconstruir o seu mundo.

CONCLUSÃO

Os saberes devem atender a nessecidade humana de construção permanente do futuro, afinal “a história não é uma imagem acabada”. E se é o futuro que nos interessa, necessitamos do presente para moldá-lo conforme as nossas necessidades, e do passado para extrair as informações que darão consistência e segurança a este processo. O papel do educador é estimular o individuo a se apropriar dos elementos que são fundamentais nesta jornada, afinal, “o futuro responde à força e à ousadia do nosso querer”.


Referências:

CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo (Organizadores). Domínios de História. Elsevier, Rio de Janeiro, 1997.
CARDOSO, Ciro Flamarion. Mudança de Rumo na Metodologia dos Estudos Sociais (artigo científico).
GIANNETTI, Eduardo. O Valor do Amanhã. Companhia das Letras, São Paulo, 2005.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª ed. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.
http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=607
PENIN, Sonia Teresinha de Sousa. Progestão, Módulo 1, Caderno de Estudos. CONSED. Brasília, 2001.
RIBEIRO, Darcy. Os Brasileiros, Livro 1 – Teoria do Brasil. 8ª ed. Vozes. Petrópolis, 1985.

----------------------------

Professor de História da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, pós-graduando em História Afro-brasileira pela FINOM, atualmente escreve o livro Manga: Mergulho Em Sua História (título provisório) e prepara pré-projeto de Mestrado com o título: Norte de Minas no Século XVIII: entre o couro e o ouro.
Cardoso, Ciro Flamarion. Mudança de Rumo na Metodologia dos Estudos Sociais
Cardoso, Ciro Flamarion. Domínios da História, p. 15
Keith Jenkins, citado em Domínios da História, p. 15
Giannetti, Eduardo. O Valor do Amanhã, p. 213
Giannetti, Eduardo. O Valor do Amanhã, p. 259
Ribeiro, Darcy. Os Brasileiro, p. 129
Giannetti, Eduardo. O Valor do Amanhã, p. 162
Giannetti, Eduardo. O Valor do Amanhã, p. 197
Aristóteles, citado em Giannetti, Eduardo. O Valor do Amanhã, p. 265
Progestão, Módulo 1, Caderno de Estudo, p. 21
Ribeiro, Darcy. Os Brasileiros, p. 128
Nietzsche, citado em Hollanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil, p. 147
Progestão, Módulo 1, Caderno de Estudo, p. 116
Desenvolvido pelo Professor Paulo Robério F. Silva
Hollanda, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil, p. 188
Adam Schaff
Giannetti, Eduardo. O Valor do Amanhã, p. 277

Pesquisar em
1128 conteúdos

Notícias

MASP

Passagens por Paris - Arte moderna na capital do séc. XIX

Notícias

Universidades latinas atraem poucos estrangeiros

Instituições têm melhorado sua presença em rankings internacionais, mas continua

Roteiros de Aula

Ninguém tira Zero

Província elimina nota zero para proteger autoestima de alunos

Notícias

França e Alemanha lembram 100 anos da Primeira Guerra

Presidentes Hollande e Gauck homenageiam mortos nas batalhas e destacam importân

COPYRIGHT © HISTÓRIANET INTERNETWORKS LTDA

PRODUZIDO POR

SOBRE O HISTORIANET