HISTORIANET

Brasil Colônia

Um espatáculo sagrado

A religiosidade no Brasil colonial muitas vezes ditou o cotidiano dos fiéis adoradores. No Rio de Janeiro do século XVII este fenômeno não ocorreu de maneira diferente. Desta forma, a Coroa portuguesa demonstrava seu poder de influência exercido por meio da representação da força divina, sobretudo, nos locais de adoração presentes no mundo católico. Identificada como uma das principais atividades litúrgicas, as missas ocorriam como grandes e importantes eventos, o suficiente para exigir extensos preparativos por parte dos líderes religiosos. A opulência do catolicismo era representado pela riqueza contida na decoração (pragmaticamente elaborada) das igrejas. No entanto, esta preocupação com o luxo e o belo ganhou ainda mais força com a "necessidade" da celebração de datas e fatos considerados importantes. A ocasião tão solene que veremos neste artigo refere-se ao nascimento do herdeiro direto ao trono luso ocupado pelo então rei d. José I.


Uma Ocasião Especial

Em maio de 1762, durante o reinado português de d. José I, a Coroa deparou-se com uma ocasião sublime - o nascimento do príncipe da Beira, neto do rei - uma notícia merecedora de comemoração em grande estilo. A partir de então, todos os esforços seriam destinados a este evento, muito aguardado pela realeza portuguesa.

A Igreja Nossa Senhora do Monserrate, situada no alto do morro de São Bento (na cidade do Rio de Janeiro) foi escolhida para abrigar esta importante celebração que envolvia a continuidade da trajetória do trono luso. Esta importante data ficaria marcada por pelo menos dois fatores: 1) refere-se aos preparativos para solenidade (cuidadosamente elaborados pelos organizadores) e 2) o impacto visual e sonoro que seria apresentado aos fiéis presentes na ocasião.


O Espetáculo da "Armação"

Construída no século XVII, a Igreja do Monserrate pertencia ao mosteiro de São Bento. A realização dos festejos religiosos estava marcada para o dia 7 de maio de 1762, após esperarem (ansiosamente) por 4 longos meses de intensos preparativos. Os abrigos religiosos daquela época carregavam, costumeiramente, grandes requintes decorativos quando da realização de missas, dentre outras atividades litúrgicas.

Entretanto, em dias especiais como a comemoração de feriados santos (costume católico), os templos sagrados recebiam roupagem ainda mais esplendorosa. O que dizer então de um dia tão aguardado pela Coroa portuguesa? Era "simplesmente" a comemoração do nascimento do herdeiro direto do então rei d. José.

Não foi por acaso que os organizadores envolvidos em tal celebração se empenharam por cento e vinte dias, dedicação concentrada principalmente com os detalhes decorativos da capela do Monserrate. Este esforço fora desenvolvido para atingir o coração dos presentes por meio da atração que exercia aos olhos e ouvidos.

Nossa Senhora do Monserrate portava grande opulência em riquezas e luxuosidade, ilustrada com refinados trabalhos em madeira que revestiam tetos e paredes internos (revelando diferentes e surpreendentes formas, tudo muito valorizado a uma fina camada de ouro), esculturas em pedra, etc... Quanto mais se aproximava do altar maior (local onde ficava a imagem da Santa Monserrate) maior era o número de esculturas, enfeites, detalhes e adornos riquíssimos. Toda beleza, inclusive de difícil descrição, ficaria ainda mais impressionante com a armação - prática decorativa que envolvia trabalhos com tecidos nobres utilizados no revestimento das partes douradas da capela, ganhando assim, desenhos decorativos elaborados com fios de prata e ouro. Um grande arranjo de iluminação artificial também colaborava para o embelezamento da igreja, sobretudo, no altar maior que abrigava a Senhora do Monserrate. Neste dia o local contou com cento e vinte castiçais de prata - valorizando ainda mais a imagem da santa virgem.

O Entendimento Limitado a Sons e Imagens

O forte impacto proporcionado aos fiéis pelos muitos enfeites decorativos ganharia outro auxílio de igual potencial - os efeitos sonoros providos das vozes de cantores (coro) e também dos instrumentos tocados por músicos contratados da Irmandade de Santa Cecília - uma associação religiosa que reunia profissionais da música no Brasil colonial. Durante a solenidade valorizada pela missa realizada dentre os festejos comemorativos, destacou-se a Igreja do Monserrate, comparando-a com outros templos católicos da cidade. O brilho extra caracterizado pelas vozes dos monges cantores colaborou para tal elevação. Os presentes recebiam desta forma, grandes estímulos visuais e sonoros tornando-se figura presente de beleza e luxuosidade impressionantes e, um tanto quanto misteriosa, visto que a compreensão dos significados mais profundos não acompanhava a mesma dimensão do vislumbre estético.

Os adornos contidos na grande quantidade de ouro, prata, luzes e sons eram componentes para se chegar num determinado entendimento. Todo aparato decerto comovia os presentes, mas estava longe de colaborar na instrução ou esclarecimento com as mensagens litúrgicas. A verdade é que tanto os cânticos como também os discursos (baseados em extratos da bíblia sagrada) eram proferidos em latim, prática comum em todo mundo católico.

A grande quantidade de leigos que compareciam na igreja acompanhava a um desfile de ritos realizados em língua estranha. O fato da população, em sua grande maioria, ser composta de analfabetos e carente duma formação teológica mais consistente, acrescenta a satisfação por parte destes ou o limite do acompanhamento e prazer estético resultantes dos estímulos proporcionados pelos preparativos já mencionados.

Por outro lado, para os organizadores do "espetáculo", era importante e significativo a interação entre beleza e luxo, características das missas solenes, e os sentimentos religiosos dos católicos que acompanhavam. A música e os elementos decorativos, para eles, era a expressão do reconhecimento como símbolos na transmissão aos mais humildes dos fiéis da grandiosa glória de Deus. Capacitando, e acima de tudo, orientando os adoradores a obedecerem Seus mandamentos, e por conseguintes, obedecerem as normas de "Sua Majestade Fidelíssima" - rei de Portugal.

Desta forma, observamos a transformação (em destaque) da igreja do Monserrate em obra de arte e suas atividades solenes (missas), em espetáculo público. Para os fiéis bastava ter bom olhos para se certificar dos inúmeros preparativos visuais, bons ouvidos para acompanhar belas melodias e por fim, ter uma boa alma para se emocionar. Os efeitos do espetáculo penetravam aos súditos do divino num espírito determinado exclusivamente aos sentidos, eliminando qualquer possibilidade da razão.


Escrito por:

CRISTIANO CATARIN
Fevereiro de 2006

Não deixem de acessar meu BLOG. O endereço é: www.historiaecia.zip.net

Pesquisar em
1128 conteúdos

Notícias

MASP

Passagens por Paris - Arte moderna na capital do séc. XIX

Notícias

Universidades latinas atraem poucos estrangeiros

Instituições têm melhorado sua presença em rankings internacionais, mas continua

Roteiros de Aula

Ninguém tira Zero

Província elimina nota zero para proteger autoestima de alunos

Notícias

França e Alemanha lembram 100 anos da Primeira Guerra

Presidentes Hollande e Gauck homenageiam mortos nas batalhas e destacam importân

COPYRIGHT © HISTÓRIANET INTERNETWORKS LTDA

PRODUZIDO POR

SOBRE O HISTORIANET