HISTORIANET

Notícias

Começa a era Evo Morales

Primeiros acordos internacionais são focados na garantia de direitos fundamentais: alfabetização, documentação e saúde. O maior apoio popular de um presidente na Bolívia é a garantia para a reconstrução de um estado forte e multicultural.
Emir Sader

Depois de superar com grande sucesso o período transitório, que começou na vitória eleitoral de 18 de dezembro - passando pelas viagens ao exterior e pelas cerimônias de posse -, começa a era Evo Morales. Começa com um apoio popular e internacional inédito, com um selo claramente de esquerda e com um cronograma altamente favorável à realização dos seus objetivos.

ALAFABETIZAÇÃO, SAÚDE e DOCUMENTOS
Evo Morales é o primeiro presidente latino-americano eleito que faz sua primeira viagem internacional a Cuba. O segundo país visitado foi a Venezuela. O que por si só revela a opção política e ideológica do novo governo. Em Cuba, assinou convênios de apoio para terminar com o analfabetismo - tornando a Bolívia o terceiro país do continente, junto com Cuba e a Venezuela - a lograr esse objetivo. Receberá também de Cuba apoios na área de saúde pública. Na Venezuela, Evo Morales conseguiu apoio para a extensão da documentação legal a todos os bolivianos - um problema gravíssimo, especialmente para os camponeses, um problema que se reflete em enormes filas na principal avenida da cidade, de gente pobre tentando regularizar sua documentação. Além disso, a Bolívia receberá todo o diesel de que necessita, em troca de alimentos - segundo Hugo Chaves, da mesma forma que faz com outros países do continente, como o Uruguai, a Argentina, a Venezuela não quer receber nada em dinheiro, apenas em alimentos e outros produtos que necessite.

Evo Morales conseguiu o perdão de parte considerável da divida com a Espanha, mas aqui reside uma jogada do governo espanhol para tentar obter, em troca, proteção dos interesses da Repsol. A atitude original desta companhia era a de, necessitando Evo de uma confirmação no Congresso, obter garantias para as empresas petrolíferas. Porém, ao triunfar Evo no primeiro turno, agora o governo espanhol mandou a Felipe Gonzalez, para ver se consegue algo do novo governo. A Repsol e a Total já retiraram os documentos que haviam apresentado à Justiça, reafirmando a necessidade de arbitragem internacional dos acordos estabelecidos, afirmando que estão dispostas a negociar nas condições estabelecidas pela nova lei de hidrocarburetos, o que é uma importante vitória do governo. A Petrobrás já havia manifestado também sua disposição de renegociar os preços e os termos do contrato anterior.

ESTADO MULTICULTURAL E FORTE
O governo de Evo Morales - que se inicia hoje na Bolívia - é o primeiro governo no mundo que afirma que vai sair do modelo neoliberal. Afirma, com um plano de governo que se inicia com um choque produtivo, em que o Estado tem um papel decisivo. Nas palavras de Álvaro Garcia Linera, vice-presidente da república e um dos mais importantes intelectuais da nova geração do continente, na praça São Francisco, para centenas de milhares de pessoas:

"Olhando para o futuro, temos a decisão, a vontade de construir um Estado forte, sólido, do qual nos sintamos orgulhosos, estejamos onde estivermos. Tem que haver um Estado forte na economia, para que não apenas sejam o mercado e a livre competição que distribuam os recursos. Tem que haver um Estado forte que priorize o que é necessário para a pátria, que proteja a todos, mas fundamentalmente aos mais vulneráveis, aos mais esquecidos, que a maioria do nosso país e que hoje, com um Estado forte no plano econômico, encontrarão melhores opções para o desenvolvimento."

"Não queremos nunca mais um Estado sem povos indígenas. O Estado de todos; de mestiços e indígenas, de profissionais e trabalhadores, de camponeses e estudantes. Queremos um Estado multicultural, em que os distintos povos, os distintos idiomas, as distintas cores valham igual: que valham igual um vestido e uma saia, um poncho e uma gravata, uma cor de pele mais clara e uma mais escura."

"A luta pelo poder gerou muitos conflitos, muitos mortos, muitos feridos e muitos danos. No entanto, este 18 de dezembro o povo foi muito claro. O empate catastrófico - entre os setores conservadores e os sociais - foi resolvido de forma inapelável. As pessoas, o povo, o cidadão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, do campo e da cidade, empresários, profissionais, indígenas, camponeses, operários, cooperativistas e comerciantes optaram pela mudança."

"Compete agora aos povos indígenas, ao mais nobre, ao mais verdadeiro da nossa pátria, a seus trabalhadores, a sua gente empobrecida e à gente simples, ocupar o mando da nação e conduzir-nos por um caminho de bem-estar, por um caminha de unidade e de integração nacional.

APOIO POPULAR
Para colocar em prática sua plataforma de governo, que começa pela nacionalização dos recursos naturais e pela convocação da Assembléia Constituinte, Evo Morales conta com grande apoio popular, revertendo uma rejeição fabricada - como ele disse no seu discurso de posse, no Congresso Nacional: "Estamos submetidos por alguns jornalistas e meios de comunicação a um terrorismo mediático". Em março de 2005, as pesquisas indicavam que Evo tinha uma rejeição de 73% dos consultados e apenas 21% de apoio. Em setembro, Evo superou a casa dos 30% e, no inicio da campanha eleitoral, em outubro, chegava aos 44%.

Nas eleições de dezembro Evo teve 54% dos votos - apesar de que cerca de um milhão de pessoas, a maior parte camponeses, não puderam votar -, pesquisa de dezembro ainda lhe dava 65% de apoio e, agora, no momento de tomar posse Evo possui 74% de apoio. Esse apoio é mais avassalador na região ocidental do país: em La Paz, tem 80% de apoio, em El Alto, 85%, em Cochabamba, 78%. Em Santa Cruz de la Sierra, bastião da oposição a seu governo, Evo conta com 61% de apoio e 28% de rejeição.

UM ARCO-ÍRIS DE BOM AUGÚRIO
Entre as medidas que mais efeito tem, Evo anunciou que o que se costuma chamar - nos EUA - de czar da luta contra o narcotráfico, será um cocaleiro. "Vou colocar como vice-ministro de Defesa Social - que se ocupa do tema - um cocaleiro", anunciou ele em Cochabamba na semana passada.

O anuncio, hoje, do ministério, dá inicio prático ao funcionamento do governo, que contará com a convocação da Assembléia Constituinte em junho, para sua eleição em agosto, quando se acredita que o governo terá mantido sua alta popularidade, o MAS - como mencionou ontem Evo na praça - pode varrer e constituir uma enorme maioria e assim colocar em prática o objetivo de refundar o Estado boliviano - dando cara nova ao poder já no primeiro ano da era Evo Morales.

Evo e Álvaro irão a Sucre dar posse aos novos governadores, enquanto o cenário popular mais atraente ficará nas mãos de Hugo Chávez que, gripado, não pôde responder aos apelos da massa para falasse, irá hoje a um ato na Universidade San Andrés, antes de retornar, com sua enorme comitiva, que ocupa dois aviões, a Caracas, para participar do Fórum Social Mundial.

No sábado, quando retornávamos de Tiwanakum surpreendentemente um imenso arco-iris estendia-se sobre La Paz, quase como um prenúncio de que os votos indígenas de um bom governo para Evo e a frase de Hugo Chaves de que o Che estaria baliando de alegria pelas nuvens da Bolívia, encontrava seu desenho visual nos céus da nova Bolívia

Texto de Carta Maior

Pesquisar em
1128 conteúdos

Notícias

MASP

Passagens por Paris - Arte moderna na capital do séc. XIX

Notícias

Universidades latinas atraem poucos estrangeiros

Instituições têm melhorado sua presença em rankings internacionais, mas continua

Roteiros de Aula

Ninguém tira Zero

Província elimina nota zero para proteger autoestima de alunos

Notícias

França e Alemanha lembram 100 anos da Primeira Guerra

Presidentes Hollande e Gauck homenageiam mortos nas batalhas e destacam importân

COPYRIGHT © HISTÓRIANET INTERNETWORKS LTDA

PRODUZIDO POR

SOBRE O HISTORIANET