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De bandidos a mocinhos

No final de 1981, num congresso de historiadores norte americanos, em Los Angeles, Richard Morse, figura paternal no campo de estudos latino americanos nos EUA, foi chamado para fazer um balanço da produção brasilianista. Apesar de ter escrito uma das primeiras teses de doutoramento sobre o Brasil, publicada em português em 1954 com o título A formação histórica da cidade de São Paulo, Morse negou que fosse brasilianista. Contou que tivera cinco empregos como professor universitário, um como chefe de departamento, um lecionando história do Caribe, outro história da América Espanhola e dois como “generalista”, mas “sem ser de 4 estrelas”. Embora não se reconhece como brasilianista, ao longo da carreira manteve relações profissionais e pessoais com o brasilanismo e o Brasil.
Ao historiar um pouco da própria vida, Morse fez um corte entre o que veio antes e depois da “miniexplosão” de estudos brasilianistas em meados dos anos 60. falou de uma época em que “os brasilianistas estavam deliciosamente nas margens da academia”, e quando “congressos de historiadores serviam para beber e jogar pôquer, e não, como agora, para mercado de escravos” (onde professores recém doutorados são negociados). A miniexplosão se deu, continuava Morse, pela invasão burocratizante do governo e das fundações culturais (como Ford, Carnegie, Tinker) na vida universitária norte americana. A Revolução Cubana, entre outros eventos políticos, gerou um crescente interesse pelo misterioso e desconhecido pedaço do continente ao sul dos EUA. E, não mais que de repente, havia dinheiro para financiar os estudantes e professores que se dispusessem a tender essa nova “prioridade nacional”: estudar a América Latina.
Professores com teses já feitas sobre outras áreas receberam e aceitaram propostas para mudar de ramo e se especializar em América Latina. Criaram-se centros de estudos com financiamentos generosos do Estado e das fundações. Bolsas foram providenciadas para estudantes de pós graduação. As universidades passaram a oferecer ótimas colocações para economistas, cientistas políticos, críticos literários, antropólogos e historiadores com especialização em América Latina. Organizaram-se cursos de pós-graduação em história do Brasil, da Argentina, do México, sobre a narrativa na América espanhola, sobre desenvolvimento, revolução, política externa, problemas agrários, para dar alguns exemplos. Acabava de ser inventado o campo de estudos latino-americanos, uma área nova na tradição americana cada vez mais importante de area studies.
Seria equivocado, no entanto, atribuir tanta agitação tão-somente à curiosidade súbita do governo norte-americano em saber o que se passava do lado de baixo do Equador. Do fim dos anos 50 até meados dos anos 70, viveu-se nos meios universitários norte-americanos a Guerra do Vietnã, a intervenção na República Dominicana, as guerras coloniais africanas, a ascensão e o terrível fim da Aliança Popular no Chile, os movimentos negros, a cultura negra, jazz, blues, rock, para não falar do misticismo hippie. A populosa geração concebida na euforia supersônica que se seguiu a Segunda Grande Guerra, os chamados filhos do baby boom, passou pela universidade provocando uma rápida expansão nesse período. Viveu-se, enfim, a longa e calorosa década chamada the sixties. E foi assim, neste clima, que o Terceiro Mundo passou a existir para os jovens norte-americanos.

Eles pendiam mais para Kennedy do que para Jimi Hendrix

É nessa conjuntura que se forma a segunda leva de estudiosos americanos interessados no Brasil, “the modernizers of the 60’s”, no dizer de Morse. Se estes professores tinham, por um lado, alunos curiosos e animados com as lutas de libertação do terceiro mundo, sentiam, por outro, a necessidade de demarcar um território próprio em um campo acadêmico ainda mal explorado. A carreira universitária norte-americana dependia de publicações, e era imprescindível que a pesquisa de doutoramento, freqüentemente a primeira investida do estudioso em águas brasilienses, virasse livro. Os tempos visavam, quase sempre, à política ou à economia neste período. Pode-se citar como das pesquisas maia importantes os livros de Thomas Skidmore, Politics in Brazil, 1945-64: Na experiment in democracy (1968), Robert Lavine, The Vargas regime (1968), Alfred Stefan, The Military in Politics: Changing Paterns in Brazil (1971), bem como as análises de Joseph Love sobre o regionalismo gaúcho (1971) e as de John Wirth sobre a política do aço e do petróleo no país (1970). O programa de pesquisa dos brasilianistas seguia basicamente a mesma problemática do latino-americanismo: estudar a ausência de democracia e desenvolvimento no continente. Pendiam mais para John Kennedy do que para Jimi Hendrix.
Embora bem recebidos pessoalmente, pela decantada hospitalidade brasileira, os brasilianistas foram duramente criticados pela inteligentsia local. Dizia-se que gozavam de privilégios nos difíceis caminhos para as fontes e arquivos fechados aos pesquisadores nacionais. Eram acusados de colaborar com as “forças ocultas”, a CIA, por exemplo. A crítica mais dura: apesar de tanto financiamento a disposição, os brasilianistas produziam trabalhos simplesmente empíricos, meros catálogos, incapazes portanto de contribuir muito para o esclarecimento dos problemas e questões nacionais. Eram vistos, em suma, como o braço intelectual do imperialismo, colecionadores de dados úteis aos interesses dos Estados Unidos, aliados da ditadura.
Tal hostilidade começou a ceder já em meados dos anos 70, à uma convivência mais amena, devido, em parte, a internacionalização – forçada pelo exílio – da intelectualidade latino americana, e à hospitalidade retribuída de alguns brasilianistas que procuraram ajudar os exilados. Ficou claro para os brasileiros que a maioria dos brasilianistas era liberal ou de centro-esquerda, contra a ditadura e que poucos colaboravam com a CIA, pelo menos diretamente. Os exilados, sobretudo os teóricos da dependência, chegaram, inclusive, a ter grande influência nos meios universitários norte-americanos, criando assim uma base para o diálogo. Posteriormente, como mostra José Carlos Sebe em seu livro Introdução ao Nacionalismo Acadêmico: Os Brasilianistas, o fim da censura no Brasil na última metade dos anos 70 (bem como o fim da expansão universitária norte-americana) fez com que as obras brasilianistas passassem a ser apenas mais uma, entre várias interpretações, tirando-lhe o caráter de uma das poucas palavras e pesquisas permitidas. Os intelectuais nacionais começaram a reconhecer, já a esta altura, a contribuição dos norte-americanos, pelo menos ao nível de pesquisa.
A geração brasilianista que iniciou a pós graduação a partir dos anos 70 enfrenta, então, um contexto intelectual bastante mudado. A geração anterior já ocupa as cadeiras de um sistema universitário que não se expande mais e, onde muitos “terrenos” acadêmicos já estão demarcados. As relações com os colegas brasileiros são, felizmente, bem mais fraternais do que 15 anos atrás. Mas ficou uma, pelo menos uma, questão básica: pra que serve o brasilianismo? O relatório de mais uma nação, como quer Clifford Geertz? Uma fonte de saber para a formação mais inteligente da opinião pública e da política externa dos EUA? Uma contribuição norte-americana às lutas libertárias no continente? Talvez seja Aléxis de Tocqueville, adaptado por Richard Morse – quem tem a resposta mais interessante : serviria para focalizar aquilo que os EUA podem aprender com o Brasil. Inverter, ao nível do texto a relação “centro” versus “periferia”. Uma espécie de antropofagia oswaldiana às avessas. Ou, se quiserem, o avesso do avesso. Mas daí provavelmente haveria uma mudança: brasilianeiro, em vez de brasilianista.

Mattew Shirts e Antonio Pedro Tota
Retratos do Brasil, Vol 2, Ed Política, págs 321 e 322

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