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O Papa na terra santa

JUDEUS, CRISTÃOS E MUÇULMANOS

"Ninguém pode ignorar quanto o povo palestino teve de sofrer nas últimas décadas. Seu tormento está diante dos olhos do mundo. E ele já foi longe demais. De modo especial, minhas orações estão com aqueles palestinos - muçulmanos e cristãos -- que ainda estão sem uma casa que lhes pertença, um lugar adequado na sociedade e a possibilidade de um trabalho normal".

João Paulo II em Belém, cidade sob controle da Autoridade Nacional Palestina

"Vim ao Yad Vashem prestar homenagem aos milhões de judeus, pessoas que, privadas de tudo, especialmente da dignidade humana, foram assassinadas no Holocausto".João Paulo II em cerimônia no Museu do Holocausto em Jerusalém

As frases acima foram ditas pelo papa João Paulo II em sua viagem pelo Oriente Próximo e Médio, entre os dias 20 e 26 de março de 2000. Aguardada com ansiedade por judeus, cristãos e muçulmanos, a visita do papa foi naturalmente revestida de um caráter político, já que na história dessa região, política e religião sempre estiveram intimamente relacionadas. Se os palestinos (cristãos e muçulmanos) aguardavam a visita, esperando do papa um gesto de apoio para formação de um Estado soberano, os israelenses esperavam um pedido de desculpas da Igreja Católica que fizesse referência direta ao holocausto de judeus pelos nazistas.



Berço das primeiras civilizações da história, a "Terra Santa" também foi palco das três principais religiões monoteístas existentes até hoje: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Terra Santa é o termo utilizado para designar os locais bíblicos do Oriente Próximo e Médio, incluindo as cidades de Belém (cidade natal de Jesus Cristo, onde situa-se a Igreja da Natividade), Jerusalém (onde encontra-se a Igreja do Santo Sepulcro, local da crucificação de Cristo, além das importantes muralhas da Cidade Velha com locais sagrados para cristãos, judeus e muçulmanos) e Nazaré (cidade que abriga a Basílica da Anunciação, onde segundo a tradição cristã, o anjo Gabriel disse a Maria que ela seria mãe de Jesus).
A peregrinação do Sumo Pontífice pelas terras bíblicas foi um marco neste final de século, não somente pela importância histórico-religiosa da região, mas também pelo fato da última visita de um papa ter ocorrido há mais de 35 anos atrás, quando em 1964 Paulo VI esteve em Jerusalém. Naquela ocasião o Oriente Médio vivia num contexto um pouco diferente, já que ainda não haviam ocorrido as guerras árabe-israelenses de 1967 e 1973, responsáveis por uma série de alterações na geopolítica da região com a anexação de territórios árabes por Israel, o que agravou a condição de vida dos palestinos, acentuando o êxodo a que foram submetidos pelo expansionismo de Israel, desde a guerra árabe-israelense de 1948, quando foi consolidado o Estado judeu.
Essa visão, de que o êxodo palestino foi provocado por operações militares de Israel, é sustentada inclusive por parte da historiografia israelense, como os conceituados autores Tom Segev e Avi Schlam.

O SALDO DA VISITA PARA JUDEUS E PALESTINOS

Passados os sete dias de visita, foi unânime a avaliação de analistas, de que a causa palestina mereceu mais ênfase do papa do que a questão da relação judeus-Igreja Católica, durante o Holocausto.
O grão-rabino Israel Meir Lau, uma das principais autoridades religiosas de Israel, assim como a maioria das lideranças judaicas, não ficaram satisfeitas com o discurso do papa no Museu do Holocausto em Jerusalém, pois esperavam uma menção direta ao que vêem como indiferença por parte da Igreja Católica na Segunda Guerra Mundial.
Apesar de lamentar o Holocausto e de criticar o anti-semitismo por parte dos cristãos, João Paulo II não fez nenhuma referência à posição da Igreja Católica, na época liderada pelo papa Pio XII, durante o nazismo. Exceto os avanços na esfera diplomática entre o Vaticano e Israel, sobrou uma certa frustração, já que além das desculpas, a comunidade judaica esperava que a Igreja assumisse um "mea culpa" pela postura no mínimo conivente com o genocídio de judeus pelos nazistas. Lideranças judaicas acusam o papa Pio XII de ter se mantido em silêncio durante a perseguição nazista. Naquela conjuntura, marcada pela crise do Estado Liberal e pela radicalização político-ideológica entre nazifascismo e comunismo, a Igreja já havia se posicionado em outras ocasiões ao lado de grupos de direita, como o apoio dado aos fascistas de Mussolini e de Franco. Essa posição da Igreja, visava fortalecer os grupos de direita, contra o avanço do comunismo "ateu e anti-capitalista", sendo portanto, coerente ideologicamente naquele momento, mas nunca justificável pelo humanismo cristão, e muito menos passível de autocrítica após mais de 50 anos.
Do lado palestino, nada a reclamar. O papa foi explícito e reafirmou ser a favor da fundação de um Estado palestino, além de ter manifestado seu apoio aos mais de 3,5 milhões de refugiados. Ao beijar o solo palestino, num gesto reservado normalmente a Estados soberanos, o papa reiterou que apóia o "direito natural" palestino a uma pátria. Em seu vôo da Jordânia para Cisjordânia, o papa João Paulo II enviou um telegrama para o líder palestino Yasser Arafat, num gesto reservado apenas a chefes de Estado.


JERUSALÉM

A visita do papa a Jerusalém, foi ao mesmo tempo o ponto alto e mais delicado da viagem. Jerusalém, a "cidade da paz", para cristãos, judeus e muçulmanos, é hoje o principal enclave nas negociações de paz, que apesar da morosidade, e de alguns retrocessos, estão sendo realizadas entre palestinos e israelenses, desde 1992, quando os trabalhistas liderados por Shimon Peres e Isaac Rabin venceram as eleições em Israel. O impasse das negociações na "questão de Jerusalém", deve-se ao estatuto da cidade, onde os palestinos reivindicam sua parte oriental como a futura capital da Palestina, enquanto que Israel considera Jerusalém, sua capital "eterna e indivisível".
Sobre essa questão, os palestinos contam com apoio oficial da Igreja Católica, visto que em 15 de fevereiro último o Vaticano e a Autoridade Nacional Palestina comandada por Iasser Arafat firmaram um acordo, que estabelece as bases de suas relações e afirma que qualquer medida unilateral de Israel sobre Jerusalém, seria "moral e legalmente inaceitável".

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