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EUA partem para o ataque

Nomeado por Bush com o Congresso em recesso, John Bolton, o novo embaixador dos EUA na ONU, já pôs em campo sua estratégia para enfraquecer a organização. Seus primeiros alvos foram o Tribunal Penal Internacional, o Protocolo de Quioto e o Programa Alimentos por Comida. A análise é do historiador Francisco Carlos Teixeira.

Francisco Carlos Teixeira - "http://agenciacartamaior.uol.com.br/">Carta Maior 08/09/2005

Após os debates televisivos de janeiro/fevereiro de 2003 sobre a invasão do Iraque, bem como as manifestações de massa por todo o mundo contra a guerra, temeu-se que o unilateralismo americano destruísse as Nações Unidas. A instituição perdeu credibilidade e esteve perto da “irrelevância”, do qual foi acusada pelos neoconservadores americanos (os neo.com).
Após o desastre americano no país, o atoleiro político e militar que se transformou a guerra de Bush, muitos voltaram-se para a ONU como o único quadro internacional capaz de negociar uma saída segura para o conflito. Contudo, a nomeação de John Bolton para o cargo de embaixador dos Estados Unidos naquela instituição surge como uma das mais graves ameaças à existência das Nações Unidas e sua missão mundial.

Quem é John Bolton?

O novo embaixador foi nomeado diretamente pelo presidente americano sem conseguir a aprovação do Senado, onde foi sabatinado e colocado em stand by. Ocorre que as credenciais de Bolton, seu “currículo” antes e durante a participação na Administração George Bush, causaram tamanha controvérsia na imprensa e entre os congressistas que o presidente resolveu nomeá-lo durante o recesso parlamentar, rompendo a tradição diplomática do país.
Bolton era, até então, o subsecretário de Estado para o Controle de Armas e Segurança Internacional, cargo no qual cooperava bem mais com o secretário de Defesa, o “falcão” Donald Rumsfeld, do que com seu “chefe” Colin Powell, então secretário de Estado. Nos anos anteriores – afastado da Casa Branca pelos oito anos de Administração Clinton – Bolton notabilizou-se pela defesa dos interesses de Taiwan – a “província rebelde” da China, conforme o governo de Beijing.
Durante todo esse tempo procurou romper com a política estabelecida pelos Estados Unidos desde 1972 (note bem: política formulada pelos republicanos Richard Nixon e Henry Kissinger) de ”One-China, two States” (no caso, a República Popular da China/Beijing e a República da China/Taipé). Para Bolton, a política “chinesa” de Washington, até então uma política supra-partidária, de Estado – era demasiadamente branda com Beijing.
Ao contrário de Clinton & Cia, que consideravam a China Popular como um “parceiro estratégico”, Bolton formula a concepção da China como uma “adversário estratégico”. O reconhecimento diplomático da independência de Taiwan foi defendida por Bolton como expressão da “liderança natural” dos Estados Unidos na Ásia.
Dando forma prática a suas idéias revisionistas e “neo.com”, Bolton abriu um escritório para gerir e defender os interesses de Taiwan nos Estados Unidos, em particular na ONU. Grande fluxo de recursos – patentes, armas, importações – passaram a ser um tema diário das relações entre Bolton/Taipe, ocasionado uma denúncia por parte do Washington Post (09/04/2001) de pagamentos feitos diretamente ao embaixador pelo governo de Taipé.
Evidentemente os interesses de Bolton/Taipé chocaram-se várias vezes com a política oficial da ONU, onde a China Popular é único representante reconhecido de todo o povo chinês. Grande parte da animosidade e do rancor de Bolton contra a ONU advém desse contencioso.
O embaixador, advogado formado pela prestigiosa Yale University – conhecido pela rispidez e maus tratos com funcionários subalternos –, desempenhou uma série de cargos importantes nas Administrações Reagan e Bush (pai), tanto junto ao Departamento de Estado, de Justiça e na notória Usaid. Bolton é, desde 1993, membro sênior do Manhattan Institute, uma think-tank da direita conservadora americana.

Bolton contra a ONU

O novo embaixador americano é um escritor prolixo, bem como um grande “falador”. Em inúmeras entrevistas declarou a inutilidade da ONU e até que a instituição se convertera em risco para a segurança e os interesses americanos. Para Bolton, superada a paralisia estratégica existente durante a Guerra Fria (1945-1991), a ONU perdia rapidamente relevância. Num mundo cada vez mais globalizado, em mudança constante e inseguro, as demarches da ONU, demoradas e exaustivas, poderiam por risco a capacidade de resposta rápida dos Estados Unidos.
Em face de inimigos cada vez mais irresponsáveis – Estados-fora da lei, Estados-falidos ou redes terroristas – o recurso aos debates e autorizações da ONU eram ineficazes e, no limite, colocavam em risco a autonomia estratégica do país. Em suma, por que deveria a América, sendo o país mais poderoso da história, imobilizar-se ouvindo discursos e opiniões de outros países quando sua segurança estivesse em risco?
Foi nesse sentido que Bolton pronunciou sua famosa tirada sobre como seria imperceptível a destruição de 10 andares do prédio da ONU em Nova York...
Da mesma forma Bolton manifestou-se – e convenceu o presidente Bush – da “inutilidade” das ações de paz da ONU, considerando as ações denominadas de “nation building”, como realizadas em Kossovo ou Timor, como inúteis, caras e estranhas aos interesses americanos. O atoleiro político e militar hoje existente no Haiti – no qual o Brasil desempenha um papel de relevância – decorre largamente da concepção de Bolton sobre a atuação da ONU e a política de “reconstrução” de Estados-falidos.
O que Bolton não previa, e não cogitou sequer, foi que no “novo mundo globalizado, inseguro e em mudança constante” a segurança não é um assunto que concerne a apenas um país, por mais poderoso e rico que seja. O fracasso americano no Iraque – incluindo-se aí o fracasso em mobilizar uma coligação internacional, gerando um imenso vazio na área de “manpower” (o chamado “boots on the ground”), com reflexos até na atual tragédia do Mississipi/Lousiana, decorre largamente da arrogância frente à ONU. Em face ao fracasso iraquiano, Washington não teve pudor em pedir socorro à ONU, como também agora no caso da “tsunami” americana.

Bolton e a Política Externa Americana

As ações de Bolton acabaram por chocar profundamente os chineses, perplexos com uma mudança tão drástica nas relações bilaterais. A reação chinesa deu-se através da resolução rápida de suas disputas com a Federação Russa e a Índia, assinando acordos de ratificação mútua de fronteiras (encerrando disputas já quase seculares), de cooperação técnica, econômica e militar. Assim, os chineses receberam tecnologia militar russa, em especial na área de Guerra Anti-Sumarina, carros anfíbios, submarinos de ataque e navios de desembarque, visando manifestar com clareza sua determinação de lutar pela completa unificação nacional, impedindo a independência de Taiwan.
Os russos, por sua vez, irritados e ofendidos pelo constante avanço da Otan sobre os países ex-soviéticos, chegaram ao ápice da irritação com a revogação do CTBT, o acordo de banimento de testes balísticos, o que visava a nova geração de armas necessárias para a montagem da Iniciativa de Defesa Estratégica. Bolton estava na linha de frente de tais iniciativas, declarando ao Senado americano que o “CTBT is dead”. A resposta russa foi a construção de uma nova e poderosa geração de mísseis, o SS-22 Topol-M, capaz de superar as defesas americanas.
Sua chegada ao cargo de embaixador na ONU – o nome menos adequado para um cargo tão sensível – foi marcada, alguns dias atrás, por essa mesma ideologia arquiconservadora, belicista e unilateralista. Bolton procurou cercar sua chegada por um forte discurso denunciando a corrupção na ONU, em especial no Programa Alimentos por Comida, colocado em prática para evitar, ou minorar, as penúrias da população iraquiana durante o bloqueio americano – no qual morreram 300 mil crianças por falta de comida e remédios (1991-2003).
Ocorre que o dinheiro foi mal usado e desviado, tanto pela gestão da ONU, quanto pelo regime de Saddam Hussein. Grande parte da responsabilidade – assumida publicamente pelo secretário-geral, Kofi Annan – decorreu da promiscuidade da ONU com companhias de petróleo americanas e francesas. Bolton também acusa Annan por ações imorais e brutais das forças de paz na África, em especial dos contingentes africanos.
Todos os observadores tinham dúvidas quando Annan foi eleito para ONU e preferiram outros candidatos, como o egípcio Boutros Ghali. Entretanto, foram os Estados Unidos que vetaram candidatos que fossem muçulmanos e francófilos, inventando o nome do atual secretário geral. No caso do Iraque, com as missões de verificação de armas – tanto com Richard Butler, quanto com Hans Blix – Annan foi inteiramente submisso aos interesses americanos, incluindo-se aí a manutenção do bloqueio e a retirada do pessoal diplomático e humanitário, favorecendo o ataque americano em 2003.
Bolton exigiu, ainda, na sua primeira ação nas Nações Unidas, que as referências ao Tribunal Penal Internacional ou ao Protocolo de Quioto fossem retiradas do documento final a ser apresentado ao fim dos trabalhos deste mês de setembro. Da mesma forma, Bolton rechaça a demanda da Assembléia Geral ao Conselho de Segurança, no sentido de que seus cinco membros com direito de veto se abstenham de usá-lo em questões referentes a genocídios, crimes de guerra e limpeza étnica.
Assim, as ameaças constantes de Bolton de considerar a ONU “irrelevante” parecem bastante concretas: seguindo a atual agenda americana, a ONU realmente tornar-se-á, em poucos anos, irrelevante. Talvez aí tenha sentido a afirmação do embaixador em favor da reforma do Conselho de Segurança, com a redução dos países membros a um só representante: o dos Estados Unidos.

* Francisco Carlos Teixeira, colunista da Carta Maior, é professor titular de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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