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Desejo e História

Desejo de pastor confunde-se com política externa dos EUA

Declarações do pastor Pat Robertson propondo que governo dos EUA mate Hugo Chávez foram condenadas pela Casa Branca, mas práticas similares fazem parte da história da política externa norte-americana. Entre o desejo do pastor e a história, a distância é menor do que parece.

Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior


O embaixador da Venezuela nos Estados Unidos, Bernardo Alvarez, rechaçou e condenou as declarações do pastor Pat Robertson, ex-candidato presidencial pelo Partido Republicano e fundador da Coalizão Cristã, que defendeu o assassinato do presidente venezuelano, Hugo Chávez, por agentes do serviço secreto dos EUA. Além de repudiar a manifestação de Robertson, classificando-a como um ato terrorista, Alvarez exigiu uma condenação clara e precisa por parte da Casa Branca. “Este senhor fez uma incitação ao terrorismo, ao pedir a organismos do governo norte-americano que assassinassem o presidente Chávez”, disse o embaixador.

As declarações do pastor fundamentalista foram feitas em seu programa nacional de televisão transmitido pela Christian Broadcast Network. “Se ele pensa que estamos tentando assassiná-lo, penso que, na verdade, deveríamos fazer isso mesmo. É muito mais barato do que iniciar uma guerra”, disse Robertson.

Durante uma entrevista coletiva à imprensa, no Pentágono, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, criticou a declaração e negou a intenção de cometer qualquer tipo de ato violento contra Chávez. Essa não é a posição do governo dos EUA, garantiu, só a “opinião de um cidadão”. Mas o cidadão em questão já foi uma figura poderosa na máquina republicana e representa ainda hoje um setor ultra-conservador que desempenhou um papel importante nas duas últimas eleições.

O cidadão Robertson é ainda o fundador de um dos movimentos fundamentalistas cristãos mais poderosos dos EUA, que constitui uma das mais fortes bases de apoio de George W. Bush. A influência política do pastor ajuda a entender os comentários calculados de Rumsfeld. “Sem dúvida isso seria contra a lei. Nosso governo não faz coisas como essa. Ele é um cidadão privado e os cidadãos privados dizem todo o tipo de coisas todo o tempo”, comentou o secretário.

Diante da repercussão negativa em torno de suas declarações, Robertson tentou consertá-las, dizendo que seu discurso foi “mal-interpretado”. “Disse que nossas forças especiais deveriam derrubá-lo e derrubá-lo pode ser várias coisas, inclusive seqüestrá-lo”, afirmou. O pastor acrescentou: “há várias maneiras de tirar um ditador do poder, além de matá-lo”.

A reação de Chávez

Chávez estava em Cuba, quando soube das declarações feitas pelo pastor. “A mim, não importa o que esse senhor opine. Não sei quem é essa pessoa. Prefiro falar da vida e estive trabalhando esta manhã com Fidel Castro”, disse o presidente venezuelano quando deixava Havana rumo a Jamaica. No dia seguinte, Chávez deu sua resposta, propondo ao governo dos EUA oferecer gasolina barata aos trabalhadores norte-americanos mais pobres.

O combustível seria fornecido diretamente aos setores mais pobres da população, sem a atuação de intermediários que, segundo ele, “especulam, aumentam os preços e exploram os consumidores”. A Venezuela é o quinto produtor de petróleo do mundo e tem um dos preços mais baixos da gasolina em nível internacional. O governo dos EUA não respondeu à oferta.

O terror como política externa

Apesar da condenação protocolar de Rumsfeld e da tentativa de “recuo” do pastor, caso o seu desejo fosse atendido (via assassinato ou seqüestro), não seria uma prática inédita por parte do governo dos EUA. Em seu livro “O terror como política externa dos Estados Unidos”, Noam Chomsky relaciona diversos casos de assassinatos e golpes cometidos contra líderes internacionais, patrocinados direta ou indiretamente pela Casa Branca.

Conforme lembra Chomsky, os EUA praticaram terrorismo na Nicarágua, apoiaram países terroristas como Turquia e Indonésia, respaldaram Sadam Hussein em seu plano de aniquilação dos curdos, foram aliados de Bin Laden na luta contra os soviéticos no Afeganistão. Na América Latina, não foram poucas as vezes em que o governo do Washington apoiou ditaduras que usaram e abusaram da prática da tortura e violaram todos os direitos humanos conhecidos. Isso aconteceu na Argentina, no Brasil, no Uruguai, no Chile e em vários outros países. No caso chileno, a intervenção resultou no assassinato do presidente socialista Salvador Allende.

No mesmo livro, Chomsky lembra ainda que, através de sua política externa, comportando-se como senhores do direito internacional, os EUA boicotam e chantageiam as instituições internacionais, desprezam a soberania das nações e o direito dos cidadãos ter o controle sobre suas próprias vidas. Assim, as declarações do pastor Robertson escancarariam práticas que já foram utilizadas diversas vezes como política de Estado por Washington, práticas que, quando exercidas por outros países, dependendo do contexto, são classificadas como “terroristas” pela Casa Branca.

Chomsky cita ainda outro dado para atacar a posição ambígua dos EUA contra o terror. Em dezembro de 1987, a Assembléia Geral das Nações Unidas emitiu uma resolução condenando a praga do terrorismo e chamando os Estados a combatê-la. A resolução foi aprovada por maioria, com a abstenção de Honduras e votos contrários de Israel e dos EUA. Por que esses países votaram contra? Porque havia no texto um parágrafo que mencionava que ela não restringia o direito dos povos de lutarem contra o racismo e os regimes coloniais ou contra a ocupação militar de uma potência estrangeira. EUA e Israel não aceitaram esse parágrafo. A principal causa, diz Chomsky, é que, naquela época, a África do Sul era um de seus principais aliados e ainda sustentava o regime de apartheid, combatido pelo Congresso Nacional Africano, considerado oficialmente como um grupo terrorista. Isso para não falar do problema dos territórios ocupados por Israel na Palestina.

Assim, entre as afirmações aparentemente tresloucadas de Robertson e a política externa real dos EUA ao longo da história recente, a distância pode ser muito menor do que aparece nas declarações oficiais. O pecado do pastor foi escancarar isso de modo explícito.

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