HISTORIANET

Notícias

I'm Sorry!

JOSÉ SARNEY

"I'm sorry!" (Desculpe!)
"Cinco balas em nossos corações" era a faixa que estava na estação de Stockwell, em Londres, onde tinha sido executado, por engano e pela Scotland Yard, o brasileiro Jean Charles, um mineiro de Gonzaga, seduzido pelo paraíso da emigração.
A faixa estava errada. Não eram cinco balas, eram oito, seguindo o treinamento científico das polícias londrinas, treinadas em Israel, que mandam atingir o cérebro dos perseguidos e, depois, mais alguns tiros de confirmação. Assim determina o manual: "atirar para matar."
Isso, no mundo de hoje, é o exercício da violência cotidiana. Nos países subdesenvolvidos a ação é mais artesanal. Os grupos de extermínio atiram sem normas científicas.
Os ingleses foram os mestres dos americanos na forma de tratamento entre as pessoas e as nações, na manifestação da arrogância, da prepotência e na noção de superioridade. Assim, no passado, trataram suas colônias; e o Brasil, em muitos episódios de sua história, não foi exceção na convivência com eles.
Blair e Bush adotaram uma política comprovadamente ineficaz e frustrante: combater o terror com o terror.
Essa pobre e desolada mãe de Gonzaga que recebe o corpo morto do seu filho nada tem a ver com essa política. Ela é uma vítima no fim da cadeia interminável dos inocentes.
Lembro-me de Fernando Pessoa no poema "O Menino da sua mãe". Certamente ele não pensava no terror dos nossos dias. "No plano abandonado/ Que a morna brisa aquece,/ De balas trespassado/ - Duas de lado a lado -,/ Jaz morto, e arrefecerá". Depois, continua: "Tão jovem! Que jovem era!/ (Agora que idade tem?)" E conclui: "Lá longe, em casa, há a prece:/ "Que volte cedo e bem'/ Jaz morto, e apodrece,/ O menino da sua mãe."
Nada existe mais desastroso, decepcionante nos resultados e estrategicamente inútil do que a guerra do Iraque. Cada dia chega um corpo morto de um jovem americano com sua vida encerrada pela política de Bush.
O terror é a mais odienta forma de violência, porque atinge os inocentes sem clemência.
O que aconteceu com Jean Charles, jovem, saído de sua pátria, buscando a esperança de dias melhores, alimentando seus pobres e miseráveis pais condenados à pobreza absoluta?
Cartas de amor, as visitas de férias e os gestos de ternura acabaram-se. O que resta é o pobre corpo fuzilado, com o pavor e o medo dos homens que o agarravam.
No chão do trem está terminada a sua vida. Ontem chegou a Gonzaga o que seria uma esperança de futuro: "o menino da sua mãe."
E Blair, generoso e humano (sic), promete US$ 500 mil de ajuda e delicadamente balbucia uma fórmula de cortesia: "I'm sorry!" (Desculpe!).
Mas determina à polícia: continuem a matar, de preferência latinos e muçulmanos. "Esse é nosso dever. Estamos estressados com os acontecimentos de Londres." Ninguém pode negar aos ingleses a solidariedade e a revolta pelo que ali aconteceu. Mas é impossível atendê-los, oferecendo-lhes, sem revolta, o "menino da sua mãe", que chora em Gonzaga.
Triste do mundo em que vivemos ou, como dizia Lampião, "Meganha é meganha". Blair ou Bush.

Texto publicado na Folha de São Paulo em 29 de julho de 2005
Reprodução autorizada pelo senador José Sarney em email ao Historianet em 5 de agosto de 05

Pesquisar em
1128 conteúdos

Notícias

MASP

Passagens por Paris - Arte moderna na capital do séc. XIX

Notícias

Universidades latinas atraem poucos estrangeiros

Instituições têm melhorado sua presença em rankings internacionais, mas continua

Roteiros de Aula

Ninguém tira Zero

Província elimina nota zero para proteger autoestima de alunos

Notícias

França e Alemanha lembram 100 anos da Primeira Guerra

Presidentes Hollande e Gauck homenageiam mortos nas batalhas e destacam importân

COPYRIGHT © HISTÓRIANET INTERNETWORKS LTDA

PRODUZIDO POR

SOBRE O HISTORIANET