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A Igreja e as questões sociais

Por Mariza Magalhães

Uma Igreja voltada para as questões sociais

A história nos mostra que o poder temporal sempre andou de mãos dadas com o poder espiritual. Presenciamos essa situação na França da idade moderna , em Portugal do mesmo período e no Brasil a situação não podia ser ao contrário.
A história também nos mostra que a partir do golpe militar de 1964, no Brasil, essa união deixou de existir por alguns membros da igreja católica.
A década de 1960 é marcada por profundas mudanças em âmbito político, econômico, social e religioso. Estamos no signo da Guerra Fria. Os países da América Latina, com exceção de Cuba, seguiam as doutrinas do mundo capitalista que era representada pelos Estados Unidos. A população da América Latina era discípula das ideologias capitalistas, se não obedecessem as determinações ideológicas capitalistas eram perseguidos, presos e torturados.
No Brasil de 1960, os jovens estudantes que militavam na JUC denunciavam os males do capitalismo, reivindicavam a substituição da economia de mercado, que visava lucro, por uma economia mais igualitária de acordo com os princípios sociais.
É dentro desse contexto histórico que o papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II. Iniciado em 8/11/1962 e terminou no papado de Paulo VI em 8/12/1965.

É por isso que vamos encontrar, alguns religiosos dominicanos, jesuítas e alguns intelectuais comprometidos com as questões sociais, estão engajados na vertente progressista da igreja católica que caminhava nas determinações do Concílio Vaticano II. A Igreja progressista é também acompanhada pelos estudantes que faziam parte da A C (Ação Católica): JEC; JOC e JUC (Juventude Estudantil; Operária e Universitária Católica)
As contribuições ideológicas que ajudaram a formar o grupo de esquerda da igreja católica, não vinham só do Concílio Vaticano II, vinham também de teólogos alguns franceses como: Congar, Chenu que ofereciam idéias voltadas ao trabalho social, no qual o ser humano era respeitado, aceito no seu todo.
O que diferenciava a igreja progressista da igreja conservadora eram as suas práticas. A conservadora era contemplativa enquanto a progressista era participativa. Para o grupo progressista o pobre não só necessitava do pão para matar a sua fome, era necessário também esclarece-lo por que passava fome e quem o fazia passar a fome.
Essa forma de pensar e atuar da esquerda católica não agradavam os grupos comprometidos com a política capitalista vigente na época eram os religiosos conservadores; o governo brasileiro os empresários e estudantes comprometidos com as questões capitalistas. Neste momento todos os olhares estão voltados as atuações políticas dos cristãos esquerdistas.
Ainda no início da década de 1960, vamos encontrar militantes católicos preocupados em criar o MEB (Movimento pela Educação Básica) a finalidade era atuar em regiões populares de baixa renda, com os objetivos de alfabetizar e conscientizar politicamente as camadas populares. Em 1962, os militantes da JUC e do MEB criaram a AP (Ação Popular) , movimento político não-confessional dedicado à luta pelo socialismo e ao uso do método marxista.

Foram essas práticas que tornaram a Igreja católica progressista contra o golpe militar implantado no Brasil em 1964. E foi por isso que seus membros foram perseguidos, presos, torturados físico e psicologicamente, em alguns casos chegando a morte.
Diante dessa situação e com medo que o clero progressista transmitisse idéias comunistas ao povo, o Estado autoritário resolveu o problema vigiando a liberdade de pensar a agir dos religiosos. As missas passaram a ser vigiadas, qualquer discurso mais inflamado poderia dar conotação de fala comunista e o padre seria preso para verificação.
Religiosos progressistas não mediam sacrifícios para defender o pensamento da Esquerda cristã. São exemplos D. Hélder Câmara e Frei Tito.

A CNBB surgiu em 1952, como órgão oficial da Igreja Católica e tinha a sua frente d. Hélder Câmara. Em 1965 ele deixa a Secretária-Geral da CNBB para ser arcebispo de Recife. Mesmo ausente da CNBB, continuou exercendo uma grande influência através dos bispos seus amigos.
O secretário geral tinha a função de articular as ações que dinamizavam a conferencia, esta era uma associação dos bispos para um único fim. Daí a necessidade de transferi-lo para não influenciar os bispos com suas idéias progressistas.
Frei Tito de Alencar era da Ordem dos Dominicano, preso quando o Convento Alberto Magno situado no bairro das Perdizes, foi invadido pela polícia política de São Paulo. Este frei fazia parte do grupo de religiosos que absolveram as idéias do Concílio Vaticano II com o intuito de diminuir as diferenças sociais e econômicas que existem até hoje no país.
Frei Tito foi barbaramente torturado físico e psicologicamente na OBAN e no DOPS aparelhos de repressão do Estado, as palavras dos seus torturadores: delegado Fleury e capitão Albernaz "Se não fala, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis.Se sobreviver, jamais esquecerá o preço da valentia." ficaram impregnadas em sua memória. Em momentos de crise emocional os fantasmas dos seus torturadores surgiam. Não conseguindo viver com esses fantasmas optou pelo suicídio. No dia 8/8/1974, dia de São Domingos, fundador da Ordem Dominicana, enforcou-se em um bosque da cidade de Lyon na França.

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