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A hora e a vez

RICARDO MUSSE 7/7/2005
Agência Carta Maior
Para obter o controle e o comando do PT não basta à esquerda mostrar que tem as mãos limpas ou prometer o resgate dos valores do partido. É imprescindível que ela apresente uma proposta para enfrentar e debelar a crise.

Uma série de paradoxos, de sinais contraditórios, tem dificultado uma compreensão nítida da crise institucional instaurada no Brasil. Uma parte ponderável da esquerda prende-se a análises equivocadas que limitam sua ação política, impedindo-a de aproveitar as oportunidades para se fortalecer numa conjuntura que lhe é favorável.
O caráter atípico da crise torna-se evidente quando se levam em conta os fatores, a dinâmica e os desdobramentos de episódios semelhantes na periferia do capitalismo. Não presenciamos uma mobilização popular para contestar as políticas neoliberais do governo, como tem sido regra recentemente na América Latina, mas antes uma ofensiva da direita e dos setores conservadores. Mas tampouco se trata de uma repetição do paradigma leninista do embate entre revolução e contra-revolução, já que a política governamental passa longe de qualquer laivo revolucionário.
As tentativas de entender a crise brasileira a partir desses modelos só fazem ressaltar a impossibilidade de enquadrar os eventos atuais nesse padrão, impossibilitando uma resposta adequada à situação. Por exemplo, a partir da observação, verdadeira, de que a política econômica do trio Palocci-FMI-tucanato tem beneficiado a elite econômica infere-se, erroneamente, pela inexistência de uma operação de desestabilização do governo. O dispositivo dessa operação já foi acionado, está em pleno funcionamento e mira no impedimento do presidente que foi eleito em 2002 com uma maioria consagradora. Não ver esse processo é comportar-se como os filósofos idealistas para quem só é real o que é racional ou como um juiz que decide pela não existência de um crime, posto que a motivação não é evidente.
O cativeiro categorial não redunda apenas na famosa tese "pior para os fatos", mas gera práticas paralisantes. A direita do PT agarra-se à falsa expectativa de que agradando ao poder econômico não será apeada do poder e dá-lhe cada vez mais do mesmo, ampliando a estratégia de capitulação que é a própria fonte do fracasso. Parte da esquerda assiste a esse movimento como uma confirmação de suas teses, lava as suas mãos, quando não resolve ajudar a pôr álcool na fogueira. Parece oportuno lembrar aqui a famosa piada do Garrincha: tudo bem, as elites não vão querer derrubar o Lula, mas quem combinou isso com elas?
O caráter atípico da situação advém do fato de que se trata, sim, de mais um desdobramento de recorrentes e fracassadas tentativas de gerir o Estado e a crise social adotando políticas neoliberais, ainda que em versão mitigada e com políticas compensatórias como amortecedores. Se essa tática da social-democracia européia não deu certo no coração do Estado do bem-estar social não seria no país campeão em desigualdades sociais que haveria de funcionar. Mas o que parece atordoar a todos é que esse fracasso está sendo capitalizado pela direita que tem demonstrado, além da capacidade de antecipação, uma inesperada força social para quem a supunha derrotada e desmoralizada.
O "campo majoritário", tendência mais à direita e dominante no PT, assinou sem ler um contrato em que se coloca como avalista da política econômica do trio Palocci-FMI-tucanato. Do mesmo modo que na economia, em lugar de promover rupturas, procurou "manter e aperfeiçoar" as práticas políticas do governo anterior. Por conseguinte, está cumprindo o mesmo destino dos grupos políticos que se apresentaram como fiadores do neoliberalismo, na América do Sul ou na Europa. A direção executiva e o comando do PT é hoje um cadáver político. E é exatamente aí que se encontra a oportunidade da esquerda nessa crise. Ela tem tudo para herdar o espólio do mais organizado e aguerrido partido de massas já construído nesse país e que lhe foi usurpado pelo aparelho e pela burocracia partidária e sindical.
Mais para obter o controle e o comando do PT não basta à esquerda mostrar que tem as mãos limpas ou prometer o resgate dos valores do partido. É imprescindível que ela apresente uma proposta para enfrentar e debelar a crise. Não faz sentido, por exemplo, insistir na tese de que é possível governar sem fazer alianças na sociedade e no congresso - mais um ponto em que seu discurso reforça as invectivas dos tucanos, pois é evidente que foi a perda de maioria no congresso que forneceu o combustível da atual crise. Cabe exigir uma política de alianças feitas às claras, em torno de princípios programáticos e que agrupe os setores dispostos a impedir o retrocesso, o que implica um re-direcionamento da política econômica, conjugado com a mobilização da população.
Se o Partido dos Trabalhadores for devolvido a quem de direito ele pertence, à militância e aos movimentos sociais, talvez ainda seja possível reverter as ações de um governo acuado pelo fisiologismo, pela corrupção e pelo temor de um desfecho catastrófico e abrir caminho para as necessárias e urgentes transformações sociais.

Ricardo Musse é professor no Departamento de Sociologia da USP

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