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Mídia e crise política

A chance da grande catarse do jornalismo
Alberto Dines
Observatório da Imprensa

O atual ciclo de denúncias não chega a ser uma antologia de jornalismo mas é uma preocupante coleção de mazelas jornalísticas. Busca-se a credibilidade mas poucos oferecem transparência, pretende-se a moralização da vida pública mas os bastidores da imprensa continuam imersos na sombra:
** Tudo começou com uma matéria de capa da Veja sobre as propinas nos Correios, clássico do jornalismo fiteiro.
** Foi completado por duas entrevistas à Folha de S.Paulo do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) sobre o esquema do "mensalão", clássico do jornalismo declaratório.
** Foi agravado por uma investigação da revista IstoÉ Dinheiro, que dirigiu os holofotes para o publicitário Marcos Valério e está sendo ferozmente contestada por duas concorrentes.
** E, novamente graças à Veja, o vazamento de um documento sigiloso empurrou o furacão para dentro da direção nacional do PT.
Estas cinco matérias, mesmo que sejam as últimas da série, já produziram um dos maiores abalos políticos desde 1945 e, pela repercussão, devem provocar profundas mudanças nos usos e costumes políticos do país.
Resta saber se conseguirão modificar nossos usos e costumes jornalísticos. Entrarão para a história do moderno jornalismo brasileiro pelos efeitos que causaram e ainda causarão. Mas sobre algumas dessas peças jornalísticas pairam sombras no tocante aos procedimentos adotados para produzi-las e aos interesses que as motivaram. [Veja, abaixo, "As primeiras e segundas intenções jornalísticas"]

Operação escusa
Não é o caso das entrevistas concedidas pelo denunciado-denunciante Roberto Jefferson à Folha. A repórter Renata Lo Prete, ex-ouvidora do jornal, teve o cuidado de informar poucos dias depois da primeira entrevista que o deputado Jefferson, na qualidade de fonte habitual, tomara a iniciativa de procurá-la. Cortou pela raiz qualquer tipo de especulação sobre eventuais interesses ou beneficiários das suas revelações.
Carece da mesma transparência a ouverture desta triste e ruidosa temporada através da Veja. Dois meses depois, a divulgação do vídeo da propina nos Correios continua envolta em sombras, rodeada de dúvidas e desconfianças. E, como não poderia deixar de acontecer com fatos mantidos no lusco-fusco da dubiedade, cada vez que a matéria é examinada ou discutida sob o ponto de vista estritamente profissional, mais interrogações levanta.
Caso da entrevista ao Jornal Nacional (Rede Globo, quinta-feira, 30/6) do ex-agente da ABIN, Jairo Martins de Souza, autor da gravação. O araponga - que, aliás, se diz jornalista [veja abaixo comentários de Ricardo Noblat] e faz negócios com jornalistas - revelou que ofereceu o vídeo ao repórter Policarpo Júnior, da sucursal da Veja em Brasília, e que este aceitou-o antes mesmo de examinar o seu teor [abaixo, a transcrição da matéria do JN].
Na hora da entrega, o jornalista teria usado um reprodutor portátil de DVD para avaliar a qualidade das imagens. De que maneira chegou ao jornalista e por que este aceitou o vídeo são questões que até hoje não foram esclarecidas.
Tanto o repórter como a revista recusam-se terminantemente a oferecer qualquer tipo satisfação ou esclarecimento aos leitores. Não se trata de proteger as fontes: elas seriam inevitavelmente nomeadas quando o funcionário flagrado, Maurício Marinho, começasse a depor. Foi exatamente o que aconteceu e hoje Veja carrega o ônus de ter se beneficiado de uma operação escusa - chantagem de um corrupto preterido ou ação formal da Abin para desmoralizar um aliado incômodo (o PTB, de Roberto Jefferson).

O que está por trás?
Diferente é a aura que envolve a segunda bomba do semanário (capa da edição 1.912, de 6/7, de autoria do repórter Alexandre Oltramari): baseada num documento rigorosamente secreto, protegido pelo sigilo bancário, sua obtenção parece livre de suspeitas - resultou de um vazamento ou de investigação, mas é trabalho reporterístico, legítimo. Araponga não é jornalista, vídeo secreto ainda não é reconhecido como gênero de jornalismo. Talvez o seja num futuro próximo.
Diferente dos demais é o desempenho de Leonardo Attuch, da IstoÉ Dinheiro, que revelou a existência da ex-secretária do publicitário Marcos Valério, sua patriótica indignação e, sobretudo, a preciosa agenda de compromissos do ex-patrão.
Revelações arrasadoras que ninguém até agora ousou contestar, porém envoltas em controvérsias no tocante aos seus reais beneficiários e/ou patrocinadores. É um dos seus pontos fortes - franqueia aos leitores a discussão sobre os bastidores da imprensa - mas é também uma de suas fraquezas - evidencia contradições importantes.
A saudável disposição do repórter Attuch em ser sabatinado na edição televisiva do Observatório da Imprensa (terça, 5/7, 22h30, ao vivo pela TVE) coloca-o automaticamente num patamar diferenciado.
Mas as descontraídas declarações da ex-secretária no Programa do Jô (Rede Globo, quarta-feira, 29/6), os diversos textos publicados em IstoÉ Dinheiro e uma discreta matéria ("A mentira da secretária", págs.72-73) enterrada no meio das 31 páginas de denúncias da última edição de Veja reforçam perguntas cruciais:
** Por que uma matéria produzida no início de setembro de 2004 só foi publicada em fins de junho de 2005?
** Se a idéia era transformar o depoimento de Fernanda Karina em matéria de capa (segundo Veja, ela posou para fotografias num estúdio de Belo Horizonte), por que razão só foi revelada no site da revista nove meses depois, durante o primeiro depoimento de Roberto Jefferson na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados?
** Quem procurou quem - Fernanda tomou a iniciativa de procurar o ex-editor de economia do Estado de Minas ou foi o jornalista que chegou à secretária do poderoso empresário-publicitário em meio a uma investigação?
** Por que Veja, a desencadeadora da mais grave crise do governo Lula, agora investe contra a testemunha-bomba Fernanda Karina e CartaCapital, que praticamente omitiu a sucessão de escândalos, agora empenha-se em desacreditar o repórter que descobriu a ex-secretária?
** Justificam-se as suspeitas que atrás desta guerra de denúncias está a guerra das operadoras de telefonia?

Valores a preservar
A imprensa não pode entrar no clima de que o fim justifica os meios. Ela é um meio - ou um conjunto de meios, media - que não pode ser desacreditado. A moralização da sociedade não se faz com golpes de moral duvidosa. A busca da verdade exige um mínimo de transparência dos buscadores.
O atual turbilhão desvenda uma grave crise política mas, acima dela, uma gravíssima crise de valores. Cabe à imprensa preservá-los. Sem valores, a imprensa vai para o brejo - junto com os mensalistas, os ensandecidos, os utopistas, os irresponsáveis e os corruptos, ativos ou passivos.
Este watergate, felizmente, não foi batizado. Não é Correiogate nem Mensalãogate, muito menos PTgate. Melhor seria designá-lo como "A Grande Catarse", purgação. A imprensa não pode ficar de fora.

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