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Futuro do Professor

Moacir Gadotti fala sobre o futuro do professor
Por Francisco Bicudo
Texto do boletim do SINPRO SP

A série O FUTURO DO PROFESSOR entrevista Moacir Gadotti, professor da Universidade de São Paulo, diretor do Instituto Paulo Freire e autor de livros como "Pedagogia da práxis" (Cortez, 1994), "Perspectivas atuais da educação" (Artes Médicas, 2000), "Pedagogia da Terra" (Peirópolis, 2001) e "Um legado de esperança" (Cortez, 2001).
O especialista condena a visão neoliberal da educação - que ele chama de extremamente instrucionista - e defende que o professor resgate e reforce o seu papel de construtor da cidadania, para, como dizia Paulo Freire, "poder vivenciar a experiência tensa da democracia".

"As novas tecnologias da informação criaram novos espaços do conhecimento. Cada dia mais pessoas estudam em casa pois podem, de lá, acessar o ciberespaço da formação e da aprendizagem a distância, buscar "fora" - a informação disponível nas redes de computadores interligados - serviços que respondem às suas demandas de conhecimento. Por outro lado, a sociedade civil (ONGs, associações, sindicatos, igrejas...) está se fortalecendo, não apenas como espaço de trabalho, mas também como espaço de difusão e de reconstrução de conhecimentos. O problema está no acesso ainda muito limitado às novas tecnologias da informação.
Subjacente a toda essa discussão das tecnologias da informação (do conhecimento?) está a pergunta: para que serve o conhecimento? A quem serve o conhecimento? Destacar a função social do conhecimento é importante para não cair numa análise ingênua, pois conhecimento é também poder. Falar hoje em "sociedade em rede" e "sociedade do conhecimento" sem fazer uma análise do seu papel político e social é escamotear a questão do conhecimento e, ao mesmo tempo, entender a sociedade como se ela fosse homogênea, não contraditória, não conflitual.
Só posso falar da globalização a partir de um lugar, de um ponto de vista que é sempre a vista de um ponto. Falo, portanto, a partir de onde vivo: o Brasil, a América Latina. Se examinarmos as estratégias do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio, que, atualmente, segundo Pablo Gentili , são os principais promotores da globalização capitalista e do modelo neoliberal no setor da educação, na América Latina, saltam aos olhos algumas constatações sobre a concepção educacional defendida por esses organismos.
A globalização capitalista neoliberal (globalismo) trabalha com a noção de "Governo" (aparatos administrativos) separada da noção de "Estado". O Estado, além do governo, tem uma dimensão simbólica que inclui a noção de cidadania. O Estado não apenas financia a educação, mas também constrói valores, sentido (direitos, cidadania...). Para o "globalismo", o cidadão é reconhecido apenas como cliente, como consumidor, que tem uma "liberdade de escolha" entre diferentes produtos. O cidadão precisa apenas ser bem informado para "escolher". Por isso ele precisa saber do "ranking" das principais escolas, as "melhores". Esse cidadão não precisa ser emancipado. Precisa apenas "saber escolher", como argumenta Milton Friedman .
O Banco Mundial sustenta que os governos devem ser eqüitativos nos gastos, privilegiando os mais pobres e delegando a função de educador aos pais. Os ricos devem pagar pelo ensino. Filantropia para os pobres e Mercado para os ricos. De um lado os tutelados, os necessitados e, de outro, os globalizados. Para as políticas neoliberais, como sustentam Rosa Maria Torres e José Luís Coraggio, o Estado deve abandonar a idéia de igualdade (socialização) para assumir a eqüidade (atenção para com as diferenças). Considera-se a educação como um serviço e não como um direito. Esse argumento é utilizado principalmente quanto se trata do Ensino Superior. Segundo os experts do Banco Mundial, a universidade pública foi criada para os pobres, mas eles não chegam a ela, por isso, a gratuidade "indiscriminada" seria injusta.

Estandardização da qualidade
Os princípios que orientam as reformas neoliberais na América Latina são essencialmente instrucionistas, isto é, estão centrados no ensino e não na aprendizagem. Por isso estão na contramão das teorias de currículo mais atuais. Defende-se o aumento de tempo para instrução e não a qualidade da formação escolar. O discurso do Banco Mundial, por exemplo, sobre a qualidade do ensino parte da idéia de que a questão da quantidade no ensino fundamental já foi resolvida. Agora o problema seria a qualidade e o gerenciamento. Só que não oferece indicadores de qualidade. E mais: os professores estão excluídos de toda discussão do tema da qualidade. Eles não têm voz. O que se busca é uma estandardização da qualidade, da avaliação, da aprendizagem e a criação de "parâmetros" para tudo, como se tudo pudesse ser mensurável na educação. Trata-se de uma concepção "fordista" da qualidade, numa época (era da informação) em que já estamos indo além até do "toyotismo". Ensina-se muito e aprende-se pouco. Aprender, nessa visão instrucionista, é "aceder", ter acesso a computadores, a uma informação. Aprender é identificar informações e saber utilizá-las em algum momento. Esse é o conceito neoliberal de qualidade. Ensinar se reduziria a aplicar uma receita, a saber manejar um repertório de técnicas.
Trata-se de uma política que apela para o indivíduo docente, e não para o coletivo de docentes (sindicatos) e nem mesmo para o colegiado da escola. Aliás, os docentes são vistos sempre como o problema da educação. Debita-se ao docente o problema da "baixa qualidade" da educação. A questão maior seria o alto nível de "politização" dos professores. A proposta neoliberal é de uma desprofissionalização da docência, buscando-se alternativas na "terceirização", contratando-se docentes através de concorrência pública, como trabalho temporário, docentes não formados para "formá-los" em serviço, rapidamente. Para a concepção neoliberal, os docentes não precisam ter conhecimento científico. Seu saber é inútil. Por isso, não precisam ser consultados. No limite, eles podem ser substituídos por um computador bem programado. Por isso, encontramos uma proliferação em larga escala de classes superlotadas e, cada vez mais, a promoção do "ensino a distância a baixo custo".
Nessa "educação bancária", como bem caracteriza Paulo Freire, o docente é apenas um "facilitador", um "aplicador" de textos: "hoje vamos estudar da página 13 à página 18". Nada mais. O docente "passa" de uma página para outra, e avança, conforme a aplicação das páginas do texto. Qualquer pessoa pode "passar" de uma página para outra. Não precisa tanto tempo para se formar. Na verdade, nem precisa ser "professor". Precisa ser apenas expert na aplicação de provas. O professor não seria mais necessário. Precisaríamos apenas de bons textos didáticos e de computadores.
Essa seria a propalada educação "para todos". Já, para as elites, ela seria diferente. Para as elites haveria necessidade de professores, para formá-los como "governantes". Para as classes populares que freqüentam a escola pública, que precisam apenas "ser informados", os professores seriam cada vez menos necessários. A concepção neoliberal é contra a autonomia das escolas públicas, contra a "Escola Cidadã" freiriana, por exemplo, mas não contra a autonomia das escolas privadas. Para a concepção neoliberal, o professor da escola pública deve ser apenas um "repassador" de informações.

Aletrnativas para educação
E como deve ser o sistema de ensino? Na concepção neoliberal, o sistema de ensino deve propor pacotes de ensino para serem "aplicados" para as pessoas aprenderem a resolver seus problemas. É para isso que servem as reformas propostas de "cima para baixo" e de "dentro para fora", já que não se trabalha com a participação da Sociedade Civil. E como a referência da educação neoliberal é o Mercado, não a cidadania, os princípios que orientam as reformas neoliberais na América Latina estão muito mais voltados para a compra de equipamentos. Não são projetos educativos em seu sentido estrito.
Estou carregando um pouco nas tintas nessa análise, sem fazer as necessárias nuances, para saber o que devemos combater, não nos iludir e para construir as alternativas de outra educação, com outra lógica que não a lógica do mercado. Como se deseja tudo privatizar, as reformas visam a diminuir os gastos com educação, para que a "sociedade" (Mercado) assuma esse serviço. O mesmo aconteceria com a cultura que, agora "mercantilizada" e "digitalizada", passaria para o controle do mercado. A tendência da mercantilização vai muito além do tema da educação e da cultura. No limite, essa concepção nos levaria a uma nova "governação". As empresas passariam não só a comprar e vender conhecimento em suas indústrias, não só criariam suas próprias universidades (McDonalds, IBM, Motorola...), como também buscariam no mercado os "melhores" profissionais para gerenciar setores importantes do Estado ou até mesmo o próprio Estado (não haveria mais necessidade de consulta popular; ela seria feita através de testes e concorrências "públicas"). Teríamos apenas governantes profissionais.
Como resistir a essa avalanche? Nossas concepções sobre o papel da educação e a tarefa do educador são completamente opostas. Claro que todas essas situações e visões políticas têm impactos significativos sobre a profissão docente. Sim, a função do professor está mudando, em função da transição da sociedade da indústria para a da tecnologia. Mas, nesse trânsito, é preciso resistir e destacar que há situações de continuidade, representadas pela exigência de o educador reforçar sua postura cidadã de ser um promotor da cultura, e situações de ruptura, já que aparecem os meios de comunicação, as novas tecnologias digitais, os computadores, que devem ser encarados como facilitadores do trabalho do professor. Com isso, em nossa visão, ao contrário do que prega o neoliberalismo, reforça-se no educador a função de ser um problematizador, um organizador da aprendizagem, muito mais do que um simples transmissor de conhecimentos.
No fundo, essa é uma mudança estrutural profunda e qualitativa, pois o docente assume um papel mais dirigente, e sua formação social e política deve ser ampliada, para que ele possa se transformar em uma liderança, exercendo a cidadania, e formando para a cidadania. Ele precisa acolher a informação, despertar no aluno o desejo de aprender, construir o sentido do mundo. Só assim os estudantes verão sentido na escola, já que a quantidade de informações que atualmente está disponível na internet é incalculável. Isso ele já tem.
Na sala de aula, cada vez mais, é preciso saber trabalhar em equipe, privilegiando a interdisciplinaridade, o encontro entre os diversos saberes, buscando o que há de comum entre as diferentes disciplinas. Deve ser um trabalho cooperativo, onde o professor consiga dominar o saber técnico, pedagógico e político, para contribuir com a construção coletiva do conhecimento. O professor que cuida da aprendizagem é eterno. Aquele que apenas dá aulas é descartável e tende a desaparecer.
Claro que surgem medos, angústias, e o mal-estar é muito grande entre os docentes. Para superar essas incertezas, creio que o melhor caminho seja abrir espaço para a constante qualificação do professor. Se temos 200 dias letivos previstos pelo Ministério da Educação, o educador deve ter pelo menos um mês disponível para investir em sua formação continuada. Semanalmente, deve dedicar pelo menos quatro horas para a troca de experiências com os colegas. Precisa freqüentar cursos presenciais, trabalhar com uma bibliografia atualizada, escrever e sistematizar suas experiências e publicar suas idéias.

Mudanças são necessárias
Para tanto, é claro que as escolas, públicas e particulares, precisam mudar radicalmente. Não é possível mais admitir o professor horista, que atua em duas, três escolas simultaneamente. Ele deve ter dedicação integral, estar lá não apenas para dar aulas, mas para participar de um projeto político e pedagógico e para criar uma comunidade de aprendizagem. Sei que essa ruptura é complicada, principalmente se considerarmos a forma burocratizada como a maior parte das escolas enxerga a educação. Os constrangimentos são muito grandes, as frustrações também. O problema maior, acho, é a mercantilização das escolas. A contradição não se dá entre estatal e privado. Eu posso ter uma escola estatal que assume uma postura mercantilista, e uma privada que entende sua função social. Portanto, na minha avaliação, a disputa se dá entre o público e o mercantil.
Nesse sentido, a construção da cidadania deve ser sempre a essência do papel do professor. Ele tem de dar o exemplo, disseminando os valores da democracia, da solidariedade, do coletivismo, do companheirismo. Afinal, segundo Paulo Freire, a Escola Cidadã precisa vivenciar a experiência tensa da democracia."

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