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Brasil República

Peleguismo

Introdução:

Não é pequeno o número de estudantes que perguntam a nós professores: e agora, a CUT virou pelega? Há uma razão para essa pergunta, pois a CUT sempre foi identificada com um sindicalismo combativo e, ao mesmo, com o Partido dos Trabalhadores; muitas vezes foi vista como sendo o "braço sindical do PT". Apesar de ser uma visão imprecisa, há um fundo de verdade nela e assim foi encarada pela maior parte da sociedade, pois a maioria dos dirigentes da central sindical está vinculada ao PT. Porém vale lembrar que sindicalistas de outros partidos também participam da mesma central. É importante destacar ainda que um sindicato deve ser independente de qualquer partido político, deve representar todos os trabalhadores, independentemente de sua filiação partidária ou definição ideológica. A CUT sempre foi vista como um movimento de defesa dos interesses dos trabalhadores e, nesse sentido, como um movimento de "oposição". Oposição a que? Oposição à política de vários governos anteriores, entendidos como não comprometidos com os principais interesses dos trabalhadores, desde o conservadorismo de Figueiredo e Sarney, até o neoliberalismo de Collor e Fernando Henrique; oposição aos interesses patronais e imperialistas, impostos ao país principalmente a partir das exigências do FMI.
Mas e agora que o PT é governo e a maioria dos líderes sindicais "cutistas" estão ligados ao PT, qual será seu comportamento? Apoiará simplesmente as medidas do governo, ou consultará os trabalhadores? Continuará a defender e praticar um sindicalismo "de combate", tal como em sua origem?



O Varguismo

Foi no período conhecido como "Era Vargas" (1930-45) que se formou o peleguismo sindical no Brasil. Para entendermos melhor sua formação e desenvolvimento, precisamos perceber o momento de transformação pelo qual o país passava.
A ascensão de Vargas ao poder, no final de 1930, refletia uma nova situação no país e em nível mundial, que determinava a necessidade de um novo caminho a ser seguido. De um lado a crise internacional - iniciada com a quebra da Bolsa de valores de Nova Iorque - e a decadência da elite agrária tradicional, principalmente aquela que governara o Brasil apoiada na agricultura de exportação; de outro, a reorganização do Estado, com novos grupos, interesses e fórmulas, que chegavam ao poder, através de Getúlio Vargas.
A trajetória política de Vargas é de grande interesse. Sua formação acadêmica esteve vinculada à estrutura militar, ao estudo do Direito e a vida política ao lado de figuras expressivas e tradicionais da política gaúcha como Julio de Castilhos e Borges de Medeiros. Vargas foi deputado estadual, deputado federal, Ministro da Fazenda no governo de Washington Luís (representante do café com leite) e Governador do Rio Grande do Sul. Através dessa rápida descrição podemos perceber quais os interesses que o envolverão no processo de formação de um novo modelo político.
Não podemos imaginar que o "varguismo" tenha sido um modelo que Vargas já havia concebido e implementou a partir do momento que assumiu a presidência da República. Ao contrário, chamamos varguismo um modelo que foi criado durante o período de governo de Getúlio Vargas, marcado pelo desenvolvimento de novas relações de poder, assim como por nova organização socioeconômica. Isto quer dizer que não havia um modelo a ser seguido, pré-estabelecido.
O movimento de outubro de 1930 representou um momento de crise aguda para as velhas oligarquias, enfraquecidas ainda mais pelos efeitos da crise mundial de 29 e pela atuação de novos setores sociais, contrários aos privilégios do café. Porém, esses novos setores formavam um grupo bastante heterogêneo, composto por militares de média e baixa patente - os tenentes -; pelas elites regionais - de fora de São Paulo e Minas; pelos grupos empresariais urbanos - notadamente do Partido Democrático de São Paulo; e pelo movimento operário - combativo e independente, porém incipiente. A chamada classe média apoiou o movimento, porém falar em "interesses da classe média" é bastante complicado, pois esse grupo era o mais heterogêneo e não possuía uma forma própria de organização.
São esses setores que apoiaram a Revolução e que precisavam organizar um novo governo. Mas comandado por quem? Existia no país um "vazio de poder", ou seja, não havia naquele momento uma classe, ou fração de classe ou instituição, ou mesmo um grupo hegemônico, que pudesse controlar o aparato de Estado e implementar seu próprio projeto. Nenhum dos grupos que haviam participado do movimento de 30 possuía condições de assumir e exercer o poder em seu próprio nome. Exatamente esta situação favorece a ascensão de Vargas. Um homem ligado ao latifúndio, com formação militar e vínculos com o exército, que já havia participado do governo oligárquico e que adotara um discurso modernizante.
A derrota eleitoral de Vargas já havia demonstrado as contradições que estavam por se apresentar, pois a Aliança Liberal reuniu políticos e setores os mais variados: Os tenentes tiveram importante participação no processo de crise oligárquica, na formação da Aliança Liberal e na implementação da "Revolução" de 30, porém participavam da Aliança ao lado dos fazendeiros mineiros, os quais sempre pretenderam derrubar; os mesmos fazendeiros mineiros que estiveram no poder e que tinham virado oposição, ao lado do Partido Democrático de São Paulo, que até então combatera o "café com leite". Junto a mineiros, empresários paulistas, estavam fazendeiros do Rio Grande do Sul, Paraíba e de outros estados, com interesses peculiares, na maior parte dos casos, nada modernos.
O governo Vargas representa uma tentativa de conciliação entre os diversos interesses das elites regionais do país, rurais e urbanas. Começa a construção do Estado de Compromisso, um processo de conciliação nacional, marcado por grandes contradições entre as elites e principalmente com as camadas populares, uma vez que envolveu interesses muito distintos. Essa foi a grande tarefa de Vargas, criar e organizar um modelo político e econômico que pudesse envolver os mais diferentes interesses no país.

Características

Uma das características marcantes do governo Vargas foi o discurso nacionalista, que será transferido para a área econômica. O nacionalismo é em sua essência um discurso de conciliação, que coloca um ideal de nação acima dos interesses particulares, de grupos ou de classe. O discurso nacionalista tem o poder de envolver setores variados em um mesmo projeto. No caso do Brasil, foi responsável pela manutenção dos militares ao lado do presidente, não sem divergências, porém de forma a garantir suficiente apoio para o novo governo. Atraiu também a classe média urbana, ansiosa por uma forma de desenvolvimento que pudesse elevar seu padrão de vida. Foi responsável ainda por atrair uma grande parcela das camadas populares, setores que migravam do campo para as grandes cidades, sobretudo no sudeste, que necessitavam de emprego, muitas vezes um emprego que estava nas mãos de imigrantes. Dessa maneira Vargas organiza um movimento social sem precedentes, porém marcado por uma série de contradições.
O nacionalismo econômico encontrou um terreno fértil para seu desenvolvimento aproveitando-se da crise internacional do capitalismo. As indústrias se expandiam no país, aumentavam as exportações e a receita, tanto das empresas como do próprio Estado. Porém, o aumento da industrialização determinava o aumento da classe operária, uma classe organizada em sindicatos e que nas últimas décadas havia mobilizado milhares de trabalhadores e obtido conquistas, uma classe que possuía sindicatos independentes, uma classe que em seus momentos de reivindicação e luta era liderada por anarquistas, muitos de origem italiana, ou seja, uma classe politizada e relativamente bem organizada para aquele momento histórico; sem dúvida um grande empecilho para a "conciliação".
Nasce nesse momento a necessidade de uma política que eliminasse a luta de classe ou, no mínimo, enfraquecesse a classe operária. Era necessária uma classe operária que pudesse se enquadrar dentro do projeto de conciliação e não se opor a ele.


Jornal "A Plebe", do movimento anarquista em São Paulo, no início do século XX

Durante toda a "Era Vargas" essa foi uma outra característica fundamental do governo, desenvolver uma política que colocasse a classe operária de acordo com o projeto de conciliação, de desenvolvimento nacional. Dentro dessa Política Trabalhista nasceu o "peleguismo".
Pelego é o termo utilizado para designar o líder sindical, trabalhador, que faz o jogo do governo e das entidades patronais, aquele que se coloca como o "amaciador" das relações entre Estado e trabalhadores. O Pelego é aquele que serve de correia de transmissão entre governo e trabalhadores, fazendo com que a política do Estado tenha maior aceitação entre os trabalhadores, se utilizando de fórmulas variadas, desde a defesa simples da política oficial até a desmobilização dos trabalhadores.
O peleguismo fez parte fundamental da política varguista e de muitos de seus predecessores, conscientes do papel cada vez mais importante da classe operária que, por isso deveria ser tratada com especial atenção. A política trabalhista de Vargas se insere neste contexto, qual seja, uma classe operária que deve ser controlada e subordinada aos interesses do Estado ou, como preferem muitos, aos "interesses da Nação".
Essa coisa abstrata, "o interesse da Nação" é definida por quem? Pelos cidadãos da Nação? O discurso procura transformar os interesses das elites dirigentes em interesses de todos.

Nas últimas décadas

Desde o final dos anos 70, com a retomada das lutas contra a ditadura militar, o movimento sindical se reorganizou e cumpriu papel fundamental no processo de redemocratização do país. As greves de 78 e 79, e dos anos posteriores foram responsáveis pelo surgimento de novas lideranças no meio sindical, com a preocupação de organizar os trabalhadores e lutar por seus direitos, se contrapondo a política do governo militar e do empresariado que o apoiava, assim como a política de predomínio do capital internacional.



Nesse contexto surgiu o PT e posteriormente a CUT, que cresceram constantemente ao desenvolveram uma clara política de oposição aos interesses das elites e de defesa dos trabalhadores. As décadas de 80 e 90 foram momentos de fortalecimento do neoliberalismo em nível internacional, que atingiu também o Brasil e o PT e principalmente a CUT representaram, de alguma forma, uma oposição a esse projeto. No entanto, no mesmo período já observavam algumas contradições, na medida em que o PT chegava ao poder em algumas cidades de Estados, colocando um dilema para os sindicalistas ligados a CUT? De que forma separar o apoio ao governo e a manutenção da luta pela melhoria nas condições salariais e de trabalho?
A chegado do PT ao governo do país acentuou essa contradição, pois os principais líderes sindicais ligados a CUT são, ao mesmo tempo, líderes do Partido dos Trabalhadores, alguns deles elevados a condição de ministros de Estado; outros vários líderes sindicais foram eleitos vereadores ou prefeitos em suas cidades.
De que forma separar ou conciliar a luta dos trabalhadores com a função política institucional? Por que um líder sindical se candidata a um cargo político?. Se a sua luta sempre se caracterizou pela defesa dos direitos de sua categoria profissional ou dos trabalhadores em geral, o cargo ocupado por 4 anos deve servir para que? O líder sindical eleito contou com os votos de quem? Por que centenas ou milhares de pessoas escolhem um líder sindical para ocupar um cargo político?....e não um "político tradicional"?

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