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Abolição, Um engodo nacional

Nada temos a comemorar nesse 13 de maio. O Dia da assinatura da Lei Áurea, bem como a maioria das nossas datas cívicas, foi introduzido pela elite branca, não celebrando em absoluto nenhuma conquista popular, nenhuma transformação social verdadeira. Serve, principalmente, para a elite branca lembrar- se desse seu ato de "magnanimidade", limpando- se de qualquer responsabilidade direta ou indireta pela situação social dos negros no passado e no presente.
Além de inferiorizá- los, colocando uma mulher branca como sua "redentora" (como se a liberdade não fosse um direito inato a todos os homens), ainda quer incutir nos negros um certo sentimento de gratidão eterna. De "áurea" essa lei não teve nada.
Foi com Zumbi dos Palmares que os negros verdadeiramente conquistaram a liberdade, e não a receberam como esmola de uma Princesa branca. Palmares é o verdadeiro símbolo de liberdade e mudança social. Foi onde os negros tornaram- se senhores de seus destinos e recuperaram a dignidade humana. Mas dentro desse nosso país de preconceito velado, colocar com "negro fujão" como um dos nossos heróis nacionais parece algo impossível, infelizmente....
A escravidão é uma aberração quase tão antiga quanto foram as guerras. De maneira geral, os escravos eram os derrotados nas guerras ou os muito pobres que se vendiam, por contrato, para servir a seus amos por períodos de tempo variáveis. Muitos dos nossos ancestrais europeus , "caucasianos", já devem ter sido escravos e servos. A escravidão era o resultado imediato de um esforço de guerra ou da miséria absoluta, jamais antes havia sido um esforço empresarial de tal porte que transplantou mais de 5 milhões de pessoas de um continente para outro.
Reis, rainhas, príncipes, princesas, os mais bonitos, os mais fortes e mais saudáveis foram arrancados de suas comunidades na África, postos em barcos imundos e trazidos para o Brasil, somente para servir de engrenagem, de combustível, não a um esforço colonizador, mas o que é pior, a um esforço meramente mercantil, que visava somente o lucro e nada mais. A cor da pele justificava esse ato, até mesmo para a Igreja.
Aqui chegando, os que sobreviviam a travessia eram logo separados do seu grupo lingüístico e cultural africano e misturados com outros de tribos diversas para que não se comunicassem, não se reestruturassem dentro da colônia canavieira. Para terem um veículo comum de comunicação foram aprendendo o português dos capatazes e o Brasil, que até então falava português nas rodas da elite e um tupy-português na massa do povo, começou a falar uma única língua. Por ironia, os escravos acabaram "aportuguesando" o falar da massa popular no Brasil, acabaram dando uma língua nacional, uma língua materna e única a todos os brasileiros, pobres e ricos: a língua portuguesa como veículo de comunicação único e nacional.
A crueldade desse sistema inumano culmina no final do século passado. Quando a miséria assola a Europa e nossos antepassados europeus se tornam uma mão de obra mais barata para a elite empresarial nacional do que a manutenção dos escravos. Nesse momento, o único valor que o negro tinha, que era sua força de trabalho, desapareceu e essa mesma elite que havia destruído suas identidades e violentado suas dignidades, precisava agora livrar- se deles.

A Lei Áurea cumpriu esse papel

Os negros já não tinham qualquer vínculo mais forte com a África de seus avós, eram brasileiros, nascidos aqui, criados e treinados para servir de força de trabalho e nada mais. A Lei da Princesa Isabel, a "Redentora", simplesmente retirou dos senhores de escravo qualquer eventual obrigação que tinham para com esse povo. Não veio revestida de nenhum projeto de reintegração desses ex-escravos à malha econômica, nenhum apoio para que pudessem reestruturar suas famílias já na condição de homens livres e cidadãos plenos nesse país. Ficaram ao deus-dará. Foi uma cruel irresponsabilidade... Resultado: expulsos das fazendas e após vagarem pelas estradas foram acabando na periferia das cidades, criando nossas primeiras favelas e vivendo de pequenos e esporádicos trabalhos, normalmente braçais.
Esse ato foi tão funesto, tão avassalador e de envergadura tão ampla que a maioria dos descendentes desses ex-escravos, mais de um século depois, ainda vive em condição muito semelhante: nas periferias, de trabalhos esporádicos e lutando para serem contextualizados com justiça, dignidade e respeito no nosso tecido social.
A escravidão e sua abolição, feita muito mais para os brancos que para os negros em si, formam duas das maiores máculas e injustiças que esse país já foi autor. Nossa dívida, enquanto nação, para com esse povo africano, que se abrasileirou e formou o Brasil é imensurável. Eles, que aqui vieram para ser o combustível consumível e descartável dos engenhos e fazendas, tornaram- se o cimento forte sobre o qual se sustenta o que hoje tão orgulhosamente chamamos de cultura brasileira. Entre a Princesa Isabel e Zumbi dos Palmares, eu sou muito mais Zumbi. E você?

Prof Gilson Bicudo

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