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A geração dos Fóruns Sociais

MARCO AURÉLIO WEISSHEIMER

Agência Carta Maior
7/2/2005

A geração dos Fóruns Sociais e o PT
O PT está deixando de ser uma referência política para os milhares de jovens que participam do FSM? Qual foi a resposta de Porto Alegre a essa questão? Duas perguntas incômodas e um alerta de Eduardo Galeano para quem ainda tem olhos para ver e ouvidos para escutar.

A quinta edição do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre deixou alguns sinais de alerta no ar para os quadros dirigentes do PT, para aqueles que ainda têm olhos para ver e ouvidos para escutar. O partido está deixando de ser uma referência política importante para a maioria da geração dos fóruns, a juventude que vem participando ativamente deste movimento desde 2001. Quem andou pelo território do Fórum, principalmente pelo Acampamento da Juventude, sabe disso muito bem. E não só está deixando de ser uma referência como vem se tornando, progressivamente, uma referência negativa. Pode ser prematuro dizer que se trata de um quadro irreversível, mas os caminhos que o partido vem trilhando, suas práticas cotidianas e as escolhas que vem fazendo afastam-se cada vez mais dos caminhos, práticas e escolhas que atraem essa juventude que, ao contrário do que muitos dizem, permanece ávida por política.
Do ponto de vista de referências partidárias, o PSTU e o P-Sol parecem estar muito mais próximos desta juventude do que o PT. Os dois partidos promoveram reuniões em Porto Alegre que reuniram cerca de 500 ou mais pessoas, cada. Isso não quer dizer que eles estão prestes a se tornar uma espécie de vanguarda do movimento altermundista aqui no Brasil, até porque muita gente que participa do FSM não topa organizar-se em partidos, enxergando-os mesmo com desconfiança. Além disso, o discurso desses dois partidos, especialmente no caso do PSTU, segue operando em uma faixa demasiadamente estreita para conseguir se comunicar, de modo mais efetivo, com os milhares de jovens que vêm freqüentando o ambiente dos fóruns no mundo inteiro.
Mas o que chama mais a atenção é o recuo ideológico do PT que vai perdendo também a capacidade de estabelecer uma comunicação real com essa juventude. Não é casual que as principais atividades promovidas por petistas no FSM 2005, descontada a aparição do presidente Lula no Gigantinho, foram justamente de setores da esquerda partidária que não escondem seu descontentamento com a situação atual do partido e do governo federal. Não é casual tampouco que a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, tenha enfrentado problemas com o público do FSM ao explicar algumas decisões do governo federal na área, como é o caso paradigmático dos transgênicos.

Dissidentes, descontentes e desistentes

As duas maiores tendências da esquerda petista – Democracia Socialista e Articulação de Esquerda - lançaram uma carta aos militantes do partido, assinada também por outras tendências, advertindo sobre os riscos da conjuntura atual e defendendo mudanças na linha do partido e do governo. Outro grupo da esquerda partidária, que reúne dissidentes da Articulação de Esquerda e outros setores, também realizou uma atividade semelhante, divulgando seu manifesto e as razões de sua dissidência. Além disso, um grupo de cem petistas, liderado por Plínio de Arruda Sampaio Jr. anunciou sua desfiliação do PT. As tendas do Fórum de Porto Alegre abrigaram centenas de dissidentes, desistentes e descontentes das mais variadas matizes. Além dessas atividades, o PT apareceu no FSM na marcha de abertura, em um seminário promovido pela Fundação Perseu Abramo, na conferência de Lula no Gigantinho, além de alguns debates promovidos por parlamentares. Qual o saldo final dessa participação?
A julgar pelo que se viu durante o Fórum e especialmente durante a passagem do presidente venezuelano Hugo Chávez pelo Gigantinho, ele está longe de ser positivo. Mesmo relativizando o estrondoso sucesso de Chávez, tendo em vista a concentração de um público mais radicalizado do que usualmente se encontra na sociedade, sobram indícios de que está em curso uma ruptura entre essa juventude e o PT. Um deles foi o modo como Chávez foi recebido no Gigantinho: uma adaptação do jingle de campanha de Lula, cantado por cerca de 15 mil pessoas, dentro e fora do ginásio: (olê, olê, olê, olê, Chavez, Chavez...). As bandeiras ou camisetas do PT, presentes ao ato, eram amplamente minoritárias. Militantes da União da Juventude Socialista (UJS), do PC do B, que ensaiaram uma palavra de ordem em defesa do governo Lula, foram intensamente vaiados.
O que dizer então do que aconteceu com o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Luiz Marinho, vaiado do início ao fim da sua fala? E os autores das vaias não se limitaram aos militantes do PSTU e do P-Sol. O ministro das Cidades, Olívio Dutra, só escapou de uma reação semelhante pelo grande prestígio que possui entre a esquerda gaúcha. Mesmo as vaias que surgiram durante sua fala foram mediadas e guardavam um certo respeito em comparação com o que ocorreu com o presidente da CUT. O governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), desistiu de falar depois de também receber sua quota de apupos, quando teve seu nome anunciado, e ver qual era o ambiente do ginásio. A situação era de grande adversidade para qualquer coisa ou alguém que lembrasse o PT e o governo Lula.

Mao Tse-Tung e a prudência

Esse clima levou Chávez a lembrar uma máxima de Mao-Tse-Tung sobre a importância de saber reconhecer quem são os aliados e quem são os verdadeiros adversários. Ao final de sua fala, o líder venezuelano foi mais direto e saiu em defesa de Lula dizendo que o presidente brasileiro era um grande amigo e companheiro de luta. Também não escapou de algumas vaias. Como interpretar essa sucessão de eventos? Pode-se atribuí-la a uma presença majoritária de militantes do PSTU, do P-Sol e de outros grupos mais à esquerda, o que já seria, por si só, preocupante para a direção do PT, pois, até bem pouco tempo atrás, isso jamais aconteceria em um grande espaço como o Gigantinho. É possível também minimizar as vaias, colocando-as em um contexto muito específico de radicalização, próprio ao ambiente do Fórum. Mas a prudência recomenda um outro tipo de olhar.
Alguns dirigentes partidários falaram com orgulho e satisfação da recepção que o presidente Lula teve no mesmo Gigantinho. A operação montada pelo partido para receber Lula foi de fato um sucesso, mas não há muitos motivos para se orgulhar disso. O teatro armado para blindar o presidente e evitar vaias e protestos foi bem sucedido, mas pegou muito mal para o público típico do Fórum, que percebeu claramente o que estava acontecendo. O lançamento de uma campanha global contra a fome foi ofuscado por uma verdadeira guerra de ocupação de arquibancadas. A presença ostensiva de policiais militares dentro e fora do ginásio foi muito comentada. E a comparação com o ambiente do ginásio durante a fala de Chávez foi inevitável, especialmente no que diz respeito à presença de policiais dentro do Gigantinho e ao comportamento do público. Pode-se discordar parcial ou totalmente do conteúdo da fala de Chávez, mas é impossível não ver a receptividade que teve em Porto Alegre. É impossível não constatar seu potencial de mobilização e de aglutinação de energias militantes que andam mais ou menos dispersas pela sociedade.

A vida ainda pulsa, apesar de tudo

Nem tudo foi negativo na participação petista, o que só fortalece a recomendação de um olhar mais aberto à auto-crítica, uma vez que ainda há vida política pulsando no interior do partido. A marcha de abertura do FSM foi um indicativo disso. Havia centenas de petistas com bandeiras do partido, petistas gaúchos em sua imensa maioria, que promoveram uma espécie de ato de desagravo à derrota eleitoral de 2004. Figuras como Raul Pont, Olívio Dutra e Miguel Rossetto foram bem recebidas nesta caminhada. Nunca é demais lembrar que o PT gaúcho – que Emir Sader costuma dizer que é o melhor do país – teve boa parcela de responsabilidade na definição de Porto Alegre como sede do Fórum Social. As experiências na prefeitura da capital e no governo do Estado serviram de motivo de inspiração para militantes de vários países. Sofreram pesadas derrotas eleitorais, em 2002 e 2004, e hoje tenta reagrupar suas forças e idéias para recomeçar tudo de novo.
A marcha de abertura do Fórum mostrou que há muita energia militante para empreender essa dura jornada, mas essa energia corre o risco de dissipação se não encontrar dirigentes e idéias à altura. Afinal de contas, ao contrário do que parecem acreditar alguns partidários entusiasmados do pragmatismo e da realpolitik, não se faz política sem idéias fortes e sem ter a exemplaridade como uma categoria de convencimento e de construção de um projeto. Muito menos em se tratando de uma política que tem como objetivo a singela pretensão de construir um outro mundo. Ou é possível construir um outro mundo utilizando as ferramentas, os materiais e os arquitetos do mundo que se quer superar?
Os obstáculos para se chegar a isso são imensos, como se pode ver, de modo emblemático, na festa de aniversário do partido, no dia 29 de janeiro, em um espaço instalado próximo ao Acampamento da Juventude. Um importante quadro do PT gaúcho resumiu do seguinte modo o que estava acontecendo: enquanto a vida e a política pululam lá fora, estamos aqui dentro em uma espécie de encontro do Lions Club, tentando nos enganar a nós mesmos de que está tudo bem. O ambiente, no caso, foi marcado por discursos mornos e burocráticos sobre as realizações do partido desde sua fundação. Do lado de fora, milhares de jovens acampados. Pode-se até minimizar o ambiente político do Acampamento da Juventude, dizendo que ele não é representativo do conjunto da juventude brasileira. Pode ser, mas centenas de futuros militantes estavam ali e, pelo que se viu, dificilmente, escolherão o PT como referência de organização, se a vida no partido continuar no ritmo atual.
O mais espantoso é que, passado o Fórum, muitos dirigentes do PT saíram a público para cantar em prosa e verso como havia sido positiva a participação do partido. Só é possível compreender essa manifestação explícita de auto-engano pelo alto grau de intoxicação com as demandas da realpolitik e da lógica do poder. O que é mais grave é que essa prática do auto-engano vem acompanhada de uma crescente abdicação do espírito crítico, gerando um circulo vicioso que vai arrastando a imensa maioria dos petistas para um lugar obscuro da vida política brasileira. A guerra fatricida por cargos e espaços de poder vai ganhando cada vez mais espaço em detrimento de uma vida interna que mereça este nome e de uma atuação externa que dialogue com o cotidiano dos movimentos sociais que seguem lutando, com todos seus erros e limitações, contra o impacto negativo das políticas neoliberais na vida de milhões de pessoas em todo o mundo. A disputa entre Virgílio Guimarães e Luiz Eduardo Greenhalgh pela presidência da Câmara é um dos capítulos mais recentes de uma novela deprimente. E ela é apenas a ponta de um iceberg que não pára de crescer.

As palavras de Eduardo Galeano

No documentário “Entreatos”, de João Moreira Salles, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva diz, em um certo momento, que gostaria que o PT desempenhasse o papel de consciência crítica do governo, caso fosse eleito. Pelo que se viu em Porto Alegre, o partido não está cumprindo essa missão. O escritor uruguaio Eduardo Galeano, em uma entrevista concedida a Flávio Aguiar, da Agência Carta Maior, deixou algumas palavras que poderiam ajudar muito nesta tarefa. Elas estão aí para quem quiser ver e ouvir:
“Existe uma identidade indissolúvel entre o fim e os meios. Os meios têm que ter uma identidade inconfundível com os objetivos que a gente se propõe conquistar. A maneira de chegar até esses objetivos, passo a passo, consciência a consciência, casa a casa, precisa manter a identidade daquilo que você faz com aquilo que você quer fazer. Porque às vezes, em nome do realismo, o cinismo vira uma sorte de destino inaceitável. Eu sou condenado a aceitar a realidade porque não posso mudá-la. Não é assim. Não vemos a realidade como um destino, mas sim como um desafio. Ela está nos desafiando. A definição de quais são os meios para enfrentá-la é um ponto mais complicado. Você pode cair na tentação de começar a trair demais os seus objetivos em nome de seus objetivos imediatos, perdendo de vista a sua própria imagem. Você procura você no espelho e não percebe que não está lá”.

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