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Ensino da Arte

Bia Barbosa
São Paulo – Em julho de 1990, a Escola Municipal de Iniciação Artística (Emia), em Santo André, inaugurou um conceito diferente de ensinar arte no país. Oportunidade para as crianças da cidade se iniciarem nas linguagens da música, das letras, do teatro, da dança e das artes plásticas, a Emia se transformou num espaço de produção artística e de apresentação de espetáculos e exposições abertas à comunidade. Artistas e profissionais da área da educação apresentaram suas idéias e projetos para a construção de uma proposta nova de ensino. No lugar do "arte-educador", entrava em cena o "artista-educador", privilegiando uma relação de mestre e discípulo em vez da de professor e aluno. Tempos depois, a escola se abriu também para adultos, mantendo o princípio do direito de ser diferente e de exercitar essa diferença na produção artística, fazendo com que as variações de idade ou classe social não se apresentassem como um problema.

Hoje, catorze anos depois, a Emia é uma das boas referências que o Brasil tem para implementar no país um novo modelo de educação que caminhe de mãos dadas com o ensino da arte e da cultura. Esta prática, da escola como ferramenta de educação artística para todos, foi a tônica da conferência "Conhecimento, Educação e Solidariedade: Dimensões Culturais de um Novo Tempo", que aconteceu nesta quinta-feira (1), em São Paulo, dentro da programação do Fórum Cultural Mundial. O painel, que reuniu um francês, um sul-africano e um alemão, avaliou as políticas culturais aplicadas internacionalmente e apontou como um problema sua dissociação da educação.

Na década de 60, por exemplo, num esforço global de democratização da cultura, foram criados espaços onde o encontro do artista com o público se dava de forma direta, sem a mediação de um educador. "Mas precisamos constatar, com honestidade, que houve um fracasso desses modelos. A cultura hoje ainda toca uma parte muito pequena da população do mundo", afirma Claude Mollard, diretor do Centro Nacional de Pedagogia do Ministério da Cultura da França.

Indo pra sala de aula – não como uma atividade extra-curricular, mas como parte da formação das crianças e jovens – o acesso à arte não apenas se democratizará, mas também pode promover compreensões de mundo diferentes, abrindo espaço para o respeito à diversidade e, conseqüentemente, para a solidariedade entre os povos. "A educação é uma forma de apropriação do mundo. Neste contexto, a educação cultural abre mentes e visões; é uma forma de decodificar e interpretar o mundo", aponta Wolfgang Schneider, Diretor do Instituto de Políticas Culturais da Universidade de Hildesheim, na Alemanha.

Por isso, ele defende que o ensino artístico para as crianças seja encarado como uma questão central das sociedades. "Quando falamos de cultura, as crianças são deixadas de lado; quando falamos de crianças, deixamos a cultura de lado. Mas aprender a ver é uma habilidade essencial que as crianças precisam desenvolver para enfrentar o futuro e melhorar o que foi aprendido na escola. O que precisam não pode ser transmitido só via diálogo. A arte tem função de fornecer competências-chave para as crianças. O teatro infantil, por exemplo, já leva isso a séria há muito tempo, com histórias que não diminuem conflitos, que fazem a criança enfrentar a dureza social. Isso é importante; a vida de uma criança não tem que ser um passeio num jardim encantado", acredita Schneider.

Apoiada na cultura, a educação para a diversidade também está ajudando a reconstruir a democracia na África do Sul, país que viveu um passado de raças separadas, mas de culturas irmãs. Há dez anos, os onze idiomas oficiais e mais oito dialetos são ensinados nas escolas. Cada aluno estuda um mínimo de três línguas, escolhidas por ele com o auxílio da família. Na opinião de Sibusiso Bengu, ex-ministro da Educação do governo Nelson Mandela, que defende a cultura como um direito humano, este é um exemplo de solidariedade cultural que pode ser praticado por todo o mundo.

"Se compreender que o gênio humano foi criado a partir da diversidade, a criança pode assumir uma posição relativista diante do mundo. Numa perspectiva macro-cultural, o ocidente precisa perceber a importância dos povos da África, da Ásia, das Américas. Assim, podemos melhorar a compreensão das diferentes culturas", explica Bengu.

E o Brasil?

Infelizmente, o país ainda depende de experiências pontuais – apesar de muito interessantes – nesta área. Na época da ditadura, quando a educação artística passou a fazer parte do currículo escolar, houve uma massificação do processo. Mas artistas não podiam ser contratados para dar aulas. Seguia, portanto, a dicotomia.

"Até o começo da década de 90, só tínhamos experiências-piloto em São Paulo. Mas agora a educação para a cultura é uma metodologia dos CEUs (Centros Educacionais Unificados)", lembra Celso Frateschi, secretário de cultura do município. "Não se trata apenas de ter arte dentro da escola, mas projetos permanentes. É uma experiência da Emia reproduzida, um espaço onde a comunidade cria o que bem entender. Tende a um trabalho mais transversal entre educação, cultura, esportes e meio-ambiente", diz.

O exemplo dos CEUs pode ser frutífero para o Brasil e para o mundo. Conceitos como os desenvolvidos em São Paulo vêm sendo reforçados em compromissos para o setor que governos de diferentes países têm adotado em fóruns internacionais. É o caso da Agenda 21 da Cultura, discutida recentemente por prefeitos, governadores e parlamentares de 40 nações em Barcelona, e da a Convenção sobre a Proteção da Diversidade Cultural da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Um acúmulo de idéias que pode render resultados bastante positivos.

Agencia Carta Maior

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