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América Latina

AMÉRICA LATINA: UM CONTINENTE QUE NÃO SE VÊ NO ESPELHO DO JORNALISMO BRASILEIRO
Alexandre Barbosa


INTRODUÇÃO

Em 1982, Gabriel García Márquez discursava na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura e contava, quase 20 anos depois da publicação de Cem Anos de Solidão, de como a América Latina continuava um mistério para o mundo. Pouca coisa havia mudado desde os relatos de monstros fantásticos que assombravam os mares. Com uma sombra de esperança, García Márquez dizia que aquela dura realidade da época (golpes de estado, guerras civis, desaparecidos, exilados, ditaduras) finalmente mereceram a atenção, o que teria levado a Academia Sueca a dar o prêmio a um artista latino-americano. Porém, o escritor alertava para que a Europa aprendesse a olhar e entender a América Latina, para que fosse dado o direito ao continente de aprender com seus erros e seguir seu próprio caminho.
Mais vinte anos se passaram. Quatro décadas depois da publicação da fantástica saga dos Buendía as estirpes parecem condenadas, definitivamente, a não ter uma segunda oportunidade sobre a terra. Os trabalhos de profissionais que se dedicam a estudar a imprensa latino-americana comprovam que a solidão persegue o continente.
Curiosa coincidência. García Márquez em crônica publicada em 1979 disse que os escritores latino-americanos deviam reconhecer que a realidade é melhor escritora que eles. Por mais que Márquez tentasse escrever uma fantasia que se distanciava da realidade, não demorava a perceber que os habitantes do cotidiano realizavam as mesmas peripécias das personagens de seus livros. Assim, como numa maldição real, a América Latina segue condenada a ficar no esquecimento.
Em dois livros publicados pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (CEBELA), a professora da USP Maria Nazareth Ferreira faz uma radiografia do que a imprensa publica sobre a América Latina. Os brasileiros praticamente ignoram o fato de serem latino-americanos. Em cerca de 100 entrevistas realizadas com pessoas das áreas culturais em 15 cidades brasileiras, o resultado mostrou uma ausência quase total de conhecimentos sobre a região.
Os "produtores de notícia", como Nazareth qualifica os jornalistas, também foram entrevistados. "A imagem da América Latina refletida nos meios de comunicação não valoriza suas qualidades, não interpreta sua realidade e não divulga a sua cultura. Depois de entrevistar jornalistas responsáveis por jornais deste ‘continente’ político-cultural, conclui-se que, na maioria das vezes, a América Latina como um todo, como uma região definida, com seus problemas, seus fracassos e vitórias, com uma cultura múltipla, mas delimitada, não existe para sua imprensa".
Para os editores dos jornais pesquisados, a "América Latina, enquanto região significativa do ponto de vista da notícia-mercadoria, é nula, pois quase todos os jornalistas confirmaram que ela não vende jornal." Espaços reduzidos, ausência de correspondentes e uso de do material das agências internacionais, sediadas nos EUA e na Europa são fatos comuns a todos os veículos. "Na leitura crítica dos jornais latino-americanos é visível a predominância de assuntos como escândalos, violência, catástrofes, (...). Geralmente os países -- quando ocupam as páginas dos jornais -- estão relacionados com notícias sensacionalistas." Entre os temas preferidos estão o narcotráfico, o futebol e os desastres naturais.
Na dissertação de mestrado de Marcelo José Abreu Lopes, defendida na USP em 2001, uma análise gráfica do jornal gaúcho Zero Hora reforça estes dados. De 31 exemplares do jornal, totalizando 3.090 páginas, 2,3% é dedicado ao noticiário internacional. Os assuntos mais freqüentes foram a queda do Airbus em Bahrein, seguido pelo Plano Colômbia, a Questão da Chechênia, Nazismo, Cumbre Sul-Americana, Eleições presidenciais norte-americanas. Os menos valorizados foram o processo contra Pinochet, o separatismo basco e a corrupção no Senado argentino.
Em entrevistas realizadas em 2003, os jornalistas Heródoto Barbeiro, da rádio CBN, Vicente Adorno, da TV Cultura, Igor Fuser, então na Época e José Arbex Jr., do Brasil de Fato, apenas o diretor do Brasil de Fato apontou também fatos da América Latina como de destaque. Igor Fuser apontou a eleição Argentina, além dos episódios da Guerra ao Iraque, o acidente com a Columbus, a epidemia da gripe asiática e a política econômica do governo Lula. Vicente Adorno destacou os acontecimentos em torno da Guerra ao Iraque. O âncora da CBN destacou a eleição de Lula, a transição do governo e o problema da segurança pública. Em 18 notícias publicadas por uma agência de notícias latino-americana (ALAI), os jornalistas se dividiram se publicariam ou não as notícias, com destaque, em seus veículos.
Analisando esta pequena amostra de jornalistas de grandes veículos brasileiros, nota-se que as notícias que menos despertaram atenção foram as ligadas à cultura, história e de movimentos sociais indígenas. Por exemplo: a notícia sobre a manifestação de indígenas da cidade mexicana de Montes Azules seria publicada sem destaque por três jornalistas. Um deles a considerou sem interesse para o público e apenas um publicaria com retrancas explicativas. A retirada de minas terrestres colocadas durante a guerra civil na Nicarágua também foi considerada sem interesse para o público e sem destaque e seria uma excelente oportunidade para um "box" relatando o que foi o conflito entre sandinistas e contras, cujos efeitos respingam até hoje no alto escalão do governo norte-americano.
Interessante notar que as notícias ligadas a tragédias e conflitos foram mais aceitas, como os protestos na Bolívia que provocaram mortos e feridos, em que a maioria considerou uma notícia a ser publicada com destaque. Também chama a atenção que quando a notícia se refere a algum latino-americano que teve destaque na Europa ou nos EUA, os jornalistas a colocam como destaque mesmo sendo relacionada à área de cultura, outras vezes considerada como de menos destaque. Isto acontece com a notícia de que a da Literatura latino-americana tem 6 Prêmios Nobel ou com o fato de um escritor chileno ser bem vendido na Europa.
Um dos jornalistas entrevistados apontou várias notícias como sem interesse ao público, mesmo sendo importantes como as negociações para a assinatura da ALCA, porém entre países da América Central. Durante as respostas, o jornalista se justificativa dizendo que daria destaque ao que se relacionasse diretamente ao Brasil ou a vizinhos muito próximos como a Argentina.
As causas para esse cenário podem ser encontradas dentro do jornalismo. Nazareth Ferreira também encontrou explicações parecidas em suas entrevistas com outros jornalistas. A resposta é quase sempre "isso não interessa ao meu público". E aí já está a falha inicial. "Como sabem o que é de interesse dos leitores?" pergunta Nazareth. "O que se sabe sobre o gosto do público, sobre a ideologia do público, tem sido usado como desculpa enganosa para encobrir uma política conservadora de manutenção das massas na sua inconsciência. (...) Qual seria o critério mais relevante para atender ao gosto do público? Seria veicular as notícias de escândalos políticos, de desastres da natureza, de guerras civis, de crimes sensacionais, de sofrimento humano, criando a sensação de que o público está bem informado? Porque o que o público quer é também aquilo que lhe é sugerido".
Porém, o jornalismo não é uma criação artificial. Ele reflete a ideologia da classe proprietária do meio de comunicação, é resultado do tipo de olhar de uma sociedade, é resultado da preparação do jornalista, é a conseqüência da história da sociedade à qual pertence aquele veículo.
Também a explicação de que tudo não passa de uma manipulação maniqueísta dos donos de jornal não é suficiente. Dentre os jornalistas entrevistados há editores, repórteres e diretores de jornal. Um dos veículos é uma emissora pública (TV Cultura), outro é ligado a entidades da esquerda e os demais pertencem a grandes grupos de comunicação. Não houve uma divisão clara: o jornal de esquerda publica toda e qualquer notícia sobre a América Latina e o da grande empresa só publica sensacionalismo. O que faz cada um olhar diferente para a América Latina são outras causas.
Existem diferentes fatores que se interagem e provocam o distanciamento da imprensa brasileira. As explicações dadas pelos trabalhos publicados até agora, isoladas uma das outras não são suficientes para traçar um cenário preciso das razões para a imprensa brasileira não dedica espaço qualificado para notícias da América Latina. Estes fatores são a formação do jornalista como intelectual e as relações de trabalho dentro da redação, a influência da cultura estrangeira (primeiro a européia e depois -- e mais maciçamente -- a norte-americana) e a formação histórica do Brasil, que também interefere nos fatores anteriores. Cada um destes aspectos será explicado na seqüência.

ALEXANDRE BARBOSA
é jornalista, mestrando em Jornalismo Comparado na USP/ECA, especialista em Jornalismo Internacional pela PUC-SP, sob orientação de Emir Sader, estudioso da América Latina há 7 anos, foi assessor de imprensa e repórter de publicações ligadas à Educação. Atualmente coordena do curso de Produção Publicitária da FAESP. alexandreb@netabc.com.br

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