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Izaura Rocha

Repórter
Pesquisas de jovens historiadores de Juiz de Fora estão contribuindo não só para ampliar o conhecimento sobre a formação socioeconômica da região, mas igualmente para desfazer alguns mitos ou equívocos perpetuados pela historiografia tradicional. Ao longo da última década, uma série de trabalhos de mestrado e doutorado debruçou-se sobre vários aspectos do passado de Juiz de Fora, com destaque para temas como escravidão, imigração e industrialização.
Esta nova produção acadêmica - que tem como ponto de partida o final da década de 80, quando foram sistematizados os principais arquivos históricos da cidade -, já deu origem ao que estes historiadores chamam de "Escola de Juiz de Fora": um conjunto de interpretações que considera a Zona da Mata dos séculos XIX e início do século XX um espaço econômico e social diferenciado, com uma dinâmica própria. Um sistema integrado em si mesmo, que não se identifica com os complexos cafeeiros de Rio de Janeiro e São Paulo, mas nem por isso é menos relevante.
A principal contribuição dessa escola é a revisão que ela provocou na história da economia cafeeira da região, em que predominava a visão de historiadores e economistas paulistas e mineiros (de Belo Horizonte, principalmente), para os quais a região se caracterizava pelas pequenas e médias propriedades, era pouco desenvolvida e não tinha capacidade de reter capital. Por esta antiga interpretação, Juiz de Fora seria uma extensão produtiva da zona cafeeira do Rio de Janeiro (Vale do Paraíba). Em palavras menos polidas, a região seria o quintal do Rio.
Café
A partir de pesquisas em novas fontes, como inventários do Banco de Crédito Real, a Escola de Juiz de Fora descobriu que, na verdade, predominou na região a grande propriedade cafeeira, cujo vigor foi responsável por financiar em grande parte o desenvolvimento industrial de Juiz de Fora, a partir de 1890. Os fazendeiros de café da região, longe de se mostrarem conservadores ou de se acomodarem na ostentação de sua riqueza, diversificaram suas atividades investindo na criação de bancos e indústrias e na construção de ferrovias e estradas, como a Cia. União Mineira e a Ferrovia Juiz de Fora-Piau.
Para esta descoberta, segundo Rita Almico, professora da Faculdade de Economia do Instituto Viana Júnior e da Unipac-Barbacena, foram fundamentais os trabalhos de dois historiadores: Rômulo Andrade, que em trabalho de 1995 sobre família escrava e estrutura agrária apontou o predomínio das grandes e médias propriedades na região, e Anderson Pires, professor de história econômica da UFJF e atualmente doutorando na USP com uma tese sobre o sistema financeiro da Zona da Mata mineira. Segundo Anderson, assim como Rio e SP, exemplos clássicos, Juiz de Fora forma um complexo cafeeiro, porém secundário e com especificidades.
Obstáculos
Cultura complexa e de exportação, o café encontrou na região dois limites: a distância dos portos de exportação e a ausência do governo estadual, embora a cidade fosse mais rica e expressiva culturalmente do que Belo Horizonte. Isto foi um obstáculo ao crescimento econômico de Juiz de Fora. No entanto, é um equívoco considerar que a cultura cafeeira da Zona da Mata decaiu junto com a do Rio de Janeiro. Entre os processos cafeeiros das duas regiões, existe uma defasagem fundamental.
O Rio foi a primeira zona de ocupação cafeeira do país, de modo que quando o café entra em decadência lá, em função do esgotamento do solo, por aqui ele ainda está no auge, com cafezais mais novos e fronteira aberta para expansão. Ele só começa a perder posição quando outros ativos formadores de riqueza, como terrenos, ações, debêntures e títulos de dívida pública aumentam sua participação no bolo, após a abolição da escravatura. A situação se agrava em todo o país após a Crise de 29.
Acervos
A organização de arquivos na década de 80 coincide com uma postura mais científica nas pesquisas históricas (ver quadro). A sistematização dos acervos de instituições como Câmara Municipal, Prefeitura, UFJF, Associação Comercial, Museu Mariano Procópio, Banco de Crédito Real e Fórum, além de igrejas e indústrias como a antiga fábrica de Bernardo Mascarenhas e coleções particulares como as do líder sindical Clodesmidt Riani abriu um grande número de frentes para pesquisa. Antes, e mesmo depois disso, muita coisa se perdeu. O arquivo da Companhia Industrial Mineira, que foi doado à UFJF, mas não chegou a estar sob a responsabilidade do Arquivo Histórico da instituição, acabou em mãos de catadores de papel.
Luiz Fernando Saraiva, professor do Centro de Ensino Superior e da Unipac e mestre pela UFF com pesquisa sobre a transição do trabalho escravo para o livre em Juiz de Fora, ressalta a importância de se preservar e de doar para os arquivos públicos documentos que possam interessar à pesquisa histórica. Os historiadores estão interessados nos documentos de pessoas comuns -- cartas, fotos, registros de fazendas, livros de contabilidade, inventários, jornais, etc. Sozinho, nenhum documento vale nada. No entanto, lamenta o professor, falta às pessoas noção de memória coletiva e sobra visão mercantilista. "É preciso diferenciar o interesse do historiador dos interesses do colecionador", observa.
Vestígios de ameríndios
Um passado muito mais remoto do que este também começa a ser revisto por pesquisadores. Trata-se da presença de ameríndios na região, cujos vestígios só há pouco tempo começaram a ser investigados por duas frentes de trabalho independentes. Uma delas é conduzida pelo Setor de Arqueoastronomia e Etnologia Americana da UFJF, que está fazendo o Mapeamento Arqueológico e Cultural da Zona da Mata Mineira e já identificou 11 sítios na região. A outra é uma equipe integrada por profissionais do Arquivo Histórico da Prefeitura de Juiz de Fora, Empav (um geógrafo) e Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora, que há quatro anos tem percorrido a zona rural de Juiz de Fora em um trabalho de campo em sítios arqueológicos.
Em Mar de Espanha, por exemplo, há pinturas rupestres cuja idade é estimada em dez mil anos, segundo Antonio Henrique Duarte Lacerda, diretor do Arquivo Histórico e professor da Unipac. "A etno-história é um campo muito recente da história", observa Henrique, o que ajuda a explicar a lacuna sobre os índios.
No entanto, referências à presença ameríndia na região são encontradas nos relatos dos viajantes e até mesmo nas narrativas históricas tradicionais, como na obra de Jair Lessa, "Juiz de Fora e seus pioneiros", em que o autor cita que Rodrigues Paes teria avistado carijós na região, por ocasião da construção do Caminho Novo, em 1700. Os historiadores observam também que é muito comum se encontrar ancestrais índios nas árvores genealógicas. Há sempre alguém para contar que "minha avó foi pega no laço" -- frase que embute óbvia referência a violência sexual. "A ocupação da região é anterior ao Caminho Novo", ressalta Henrique. "O Estado só chega depois de uma estrutura já formada", conclui.

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