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Camilo Pessanha

Camilo Pessanha



Por Antony C. Bezerra*

Assim apresenta, Fernando Pessoa, um de seus mestres (entre os outros estando Antero de Quental1, António Nobre2 e Cesário Verde3). Privilégio de poucos, esse de ensinar ao homem que, no plano da literatura de Portugal, alcançou um patamar que se diria inigualável.
Poeta maldito, a deparar-se com insucessos em sua vida privada, assim foi Camilo Pessanha. No ano de 1867, nasceu na cidade de Coimbra, filho de um estudante (pouco econômico ao propalar o sobrenome nobre) e de uma mulher do povo. Os pais nunca contraíram o matrimônio, muito provavelmente pela condição social de Maria do Espírito Santo, mãe de Camilo e de mais quatro filhos. A ausência de uma estrutura familiar sólida não foi benéfica ao amadurecimento do futuro poeta ("o poço de miséria e de dor que foi sempre a casa do meu pai", confessou, posteriormente, a um amigo). Tendendo à misantropia, desde muito cedo teve frustrações amorosas, que o conduziram a um processo de degradação pessoal o qual viria, mais tarde, a causar-lhe o fim.
Em 1885, inicia seus estudos no curso de Direito, na Universidade de Coimbra. No período em que lá esteve, as hostes realistas, ainda em voga, começavam a ceder lugar às tendências simbolista-decadentistas, importadas, igualmente, da França. Curioso é notar que, ainda que venha - de forma antiesquemática, é verdade - aderir à escola de Paul Verlaine4 e de Jean Rimbaud5, não milita em qualquer grupo à época universitária. Trata-se de um dado que só vem a corroborar o espírito recolhido de Camilo Pessanha, avesso a confrarias e afins. É ainda nos tempos coimbrãos que estréia na literatura, com o poema "Lúbrica", texto que denota o claro influxo de Cesário Verde. O ano de 1891 marca a conclusão do curso.
Formado, trabalha em Mirandela e em Óbidos. Nesta última cidade, torna-se próximo a Alberto Osório de Castro, cuja irmã, Ana de Castro Osório (futura escritora), desperta sentimentos amorosos no poeta. Apaixonado, Camilo Pessanha sugere casamento, proposta de que, delicadamente, declina a pretendida. A constante de desilusões amorosas que atormentam o autor parece chegar ao clímax. Talvez sem rumo, toma a drástica decisão de prestar um concurso para professor secundário, cargo a ser ocupado na remota Macau, possessão lusitana na China. Corria o ano de 1894.
No Oriente, influenciado pelo par Wenceslau de Moraes, contrai o vício do ópio, que só iria comprometer a já combalida saúde de Pessanha, pois que tuberculoso. A vida chinesa do professor, conservador do Registro predial de Macau e, por fim, juiz faz com que, em torno dele, criem-se histórias de veracidade questionável. Parece integrar-se com grande efusão à cultura do novo lugar, já que é manifesto admirador da arte chinesa, cujas peças colecionava em sua residência. É bem certo que tenha adquirido bons conhecimentos do mandarim, chegando mesmo a verter textos do idioma oriental para o português. Sua governanta se transforma em sua concubina. Dela, tem um filho, João Manuel, que, como o pai, levaria uma vida desregrada. Também da filha de sua governanta ganharia um rebento: N’gan-Yeng. Muitos outros herdeiros teria, com diversas mulheres.
Após a assunção dos cargos na colônia, Pessanha mais tempo lá passou que em qualquer outro lugar. Retornos a Portugal, entretanto, houve - para matar saudades da terra natal e, fundamentalmente, para recuperar a sua combalida saúde, cujo quadro só tendia a se agravar no feroz clima macauense. Nos poucos meses que, em 1899, passou em Lisboa, teve algum contato com as rodas literárias e bebeu com sofreguidão das fontes simbolistas francesas. Entre 1905 e 1909, maior período em que esteve fora de Macau após lá chegar, busca curar os males de sua condição de tísico, mas sempre sem consegui-lo. Poemas de sua autoria já eram publicados em periódicos lusitanos, gozando de certo prestígio em meio à intelectualidade de tendências modernas. Ademais, supostos manuscritos do poeta percorrem os circuitos ilustrados da capital portuguesa. Começa, então, a ser admirado por parcela razoável dos coetâneos. Isso faz com que, em 1915, no retorno à pátria, seja recebido como efusão por muitos pares, que viam nele uma espécie de encarnação dos ideais do Decadentismo. Estava de férias.
Entre os que viram em Camilo Pessanha um poeta notável, contam-se nomes como Fernando Pessoa e Luís de Montalvor, com quem o misterioso bardo deixa um grupo de poemas para se publicarem na revista Centauro, periódico de vanguarda vindo a lume, em número único, no ano de 1916. À altura, trava contato com Alberto Osório de Castro, filho da mesma Ana de Castro Osório que o poeta cortejara duas décadas antes. O rapaz, empolgado com a obra camiliana, envida esforços para que os textos sejam reunidos em livro. É o que, de fato, ocorre: pela Editora Lusitânia (propriedade de Ana de Castro Osório), publica-se, em 1920, Clepsidra, único livro de poesia sua que Pessanha viu em toda a vida. Já retornara a Macau, pois que, ainda em 1916, mais uma vez se frustrara quanto à possibilidade de se unir à amada Ana: viúva, não era capaz de ver no problemático poeta mais que um amigo. Desiludido, não encontra, o autor, outro caminho senão o do Oriente.
É na China que Camilo Pessanha passará os seus últimos dias. Sua farta barba está cada vez maior e desgrenhada; sua magreza, cada vez mais mórbida; seu vício pelo ópio, cada vez mais forte. Seus anos finais são marcados pela obscuridade e pela decadência moral. Ainda que, aparentemente, benquisto pelos nativos, seu círculo de amizades é reduzido. A freqüência a prostíbulos não cessa e o organismo de Pessanha, minado pela tuberculose, não pode ser senão vencido. Em 1.o de março de 1926, vem a falecer.
Assim como os poemas compostos pelo autor, também a vida de Camilo Pessanha se mostra intrigante. Não se sabe se pela distância da metrópole, não se sabe se pela personalidade enigmática do poeta, a verdade é que, em torno dele, criou-se uma mitologia pessoal que amplifica e distorce os fatos. Dele diz-se que, no período final da vida, não raro recebia despido os conhecidos. Afirma-se, também, que vagava pelas ruas de Macau tal qual um mendigo, com a roupa rota e vários traços de sujidade. Talvez a mais notória ‘história’ acerca de Pessanha, no entanto, seja a de que nunca pusera um verso lírico no papel. Sua própria editora, Ana de Castro Osório, chegou a afirmar em entrevista: "Camilo Pessanha nunca escreveu um só dos seus versos. Compõe-nos nas suas horas de inspiração, e guarda-os na memória." A posteridade mostrou que não era bem assim. Ainda que pudesse não manter muitos dos originais que compunha - o sem-número de variantes que se encontram dos poemas resulta, provavelmente, desse fato -, Pessanha escrevia, sim, seus textos. Os manuscritos que vieram a se encontrar e as folhas avulsas que por Lisboa circulavam são prova disso.
Afora se destacar como poeta criador, tem-se, também, um Pessanha que se deslumbra diante das simultâneas opulência e singeleza da cultura oriental. Inspirado por uma tal simpatia, compôs textos esparsos (estudos sobre artes plásticas e poesia, bem como traduções) que viriam, postumamente, a ser reunidos num volume. Mas é, de fato, a sua poesia que desperta o interesse da crítica e da historiografia literárias. Desde um primeiro momento, vale dizer, seus textos poéticos foram o foco de uma quantidade considerável de estudos críticos (geralmente, sob a clave da brevidade). A motivação para tal reside, em grande parte, na certa popularidade que, em ambientes literários, desde um primeiro momento gozaram os poemas.
Não é raro encontrar críticos os quais vejam em Camilo Pessanha um autor cuja exuberância contrastaria com as deficiências do domínio da técnica de composição poética. Equívoco justificável. Pelas inovações que propõe, a lírica do poeta foge aos padrões convencionais da produção portuguesa até então. Espelhos de angústias, seus poemas não são marcados pelo arrebatamento escancarado de António Nobre, outro mestre dos modernos. Em Pessanha, o hermetismo das imagens e mesmo da estrutura embaça e amplifica o universo que se apresenta - muito próximo do onírico, vale dizer. A evasão simbolista (a ansiar um lugar indefinível) encontra eco na proposta estética do poeta, ele próprio a perseguir um mundo pouco palpável. No Oriente, foco da evasão espacial dos românticos, já estava ele. Poeta do exílio, como Luís de Camões7, dista do seu mundo para, com mais vigor, interpretá-lo.
Se, no momento inicial da vida poética, a lírica camiliana esteve marcada pelo império de Eros7 - um meio de sublimar os recorrentes insucessos amorosos? -, após ser continuamente rejeitado por aquelas que tanto amava, foi conduzido a um desejo de morte (uma morte empreendida dia a dia), assenhoreando-se, Tânatos8, da alma do poeta. O Neo-romantistmo cede vez ao Simbolismo-decadentismo. Talvez nunca um movimento literário - este último - tenha se adequado com tanta precisão ao estado de espírito de um indivíduo e ao plano do contexto em que este se inseria. Portugal, na passagem do século XIX ao XX, ainda não se recuperara dos efeitos nocivos do Ultimatum9 inglês. A imersão do povo lusitano num mar de pessimismo refletiu, certamente, na literatura. Os versos com que Camilo Pessanha abre Clepsidra são uma ilustração perfeita para o quadro que vislumbra: "Eu vi a luz de um país perdido. / A minha alma é lânguida e inerme. / Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! / No chão sumir-se, como faz um verme...". Nesse poema, "Inscrição", vêem-se, perdidos, um país (Portugal) e o poeta (Camilo Pessanha) que canta a decaída pátria.

Notas
1 Antero de Quental (1842-1891): liderança da chamada "Geração de 70", tem, em sua última fase de composição poética (conhecida por espiritualista), um combustível para os sucessores.
2 António Nobre (1867-1900): poeta português, sua lírica confessional se vincula, simultaneamente, ao Neo-romantismo e ao Simbolismo.
3 Cesário Verde (1855-1886): responsável, em Portugal, por trazer o cotidiano da vida urbana para o plano da poesia.
4 Paul Verlaine (1844-1896): escritor francês, é o protótipo do poeta maldito. Figura de proa do Simbolismo francês.
5 Arthur Rimbaud (1854-1891): poeta simbolista de grande repercussão.
6 Luís de Camões: (1525-1580): poeta do Classicismo português, autor de Os lusíadas. Escreveu a maior parte de seu grande épico em Goa, Índia.
7 Eros: divindade da Antigüidade grega que responde pelo amor.
8 Tânatos: na mitologia grega, gênio masculino que personificava a morte.
9 Ultimatum: em janeiro de 1890, a Inglaterra, então grande potência imperialista e desejosa de estabelecer um território africano que fosse da Cidade do Cabo ao Cairo, exige que soldados lusitanos se retirem do território do vale do rio Chire. Os lusos realizavam manobras militares para salvaguardar o então território português que ligava Angola a Moçambique (atualmente, a faixa de terra que corresponde a Zâmbia e Zimbábue). Sem poderio bélico, os governantes de Portugal acedem positivamente e os soldados desocupam a região.

O soneto a seguir transcrito, primeiro do livro Clepsidra, carrega um dos traços mais caros à lírica de Pessanha: a riqueza de imagens. Num turbilhão que parece ser o resultado de alucinações - decorrentes do ópio? -, vêem-se figuras que, uma vez unidas, criam um panorama ao mesmo tempo raro e aliciante. À opulência dos "troféus" e "leões alados", opõe-se o patético "ai" que atormenta a vida do eu-lírico: uma divisa nada grandiosa. Ansiar por tudo, mas muito pouco conquistar; tudo querer e, no entanto, só insucessos alcançar. Projetado na voz enunciadora do soneto, Camilo Pessanha parece mesmo expor seu drama pessoal de uma forma pouco convencional, fator que, muito certamente, foi o que mais seduziu os seus contemporâneos e as gerações posteriores. Uma precisão despida de mesuras é a forma encontrada, pelo poeta, para se expressar. Nessa tarefa, foi bem-sucedido como poucos.

Tatuagens complicadas do meu peito:
Troféus, emblemas, dois leões alados...
Mais, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo, amor-perfeito...

E o meu brasão... Tem de oiro, num quartel
Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,
Em campo azul, de prata o corpo, aquela
Que é no meu braço como que um broquel*.

Timbre: rompante**, a megalomania...
Divisa: um ai, - que insiste noite e dia
Lembrando ruínas, sepulturas rasas...

Entre castelos serpes*** batalhantes,
E águias de negro, desfraldando as asas,
Que realça de oiro um colar de besantes****!
(Publicado pela primeira vez na revista Centauro, sob o título "Tatuagens")
* broquel: pequeno escudo arredondado;
** rompante: ímpeto, arrogância;
*** serpe: serpente;
**** besante: peça circular sem marca.
Antony C. Bezerra é colaborador do HISTORIANET.
Mestre e doutorando em Teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco; Professor de Literatura portuguesa e de Literatura da língua inglesa na Universidade Salgado de Oliveira, em Recife.

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