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O Imponderável Desconhecido


O Imponderável Desconhecido

Por Carlos Chagas

Tribuna da Imprensa - RJ


Para chegarmos a alguma conclusão sobre o encontro de Lula e George
W. Bush, é importante lembrar o passado. Os dois presidentes conversaram,
trocaram amabilidades e votos de colaboração mútua, mas
diante deles desata o desconhecido.


Chávez, um novo Allende?


O que está acontecendo com o presidente Hugo Chávez, da Venezuela,
é o reflexo do que aconteceu com presidentes que, na América Latina,
pretenderam mudar o modelo econômico imposto pela Matriz. Nem vale a pena
falar de Getúlio Vargas, aqui, ou de Jacobo Arbens, Juan Perón,
Balmaceda, Juan José Torres, José Marti e outros vizinhos dos
tempos de antanho.

Vamos ficar com dois dos mais recentes exemplos, João Goulart, no Brasil,
na década de 60, e Salvador Allende, no Chile, na década de 70.
Quando começaram a prometer e a realizar reformas sociais, foram colocados
na alça de mira do sistema econômico liderado por nossos irmãos
do Norte. Contra eles mobilizaram-se as classes médias, estimuladas pelas
elites, com direito à participação de parcelas das Forças
Armadas.

Goulart e Allende tinham defeitos, é claro, mas viram-se apeados do poder
por conta de suas qualidades. Queriam reformar as respectivas sociedades para
diminuir as agruras dos menos favorecidos. Primeiro, tentaram cooptá-los,
em nome de uma falsa democracia que só podia funcionar a favor do sistema.
Como reagiram, tiveram seus governos desestabilizados e acabaram defenestrados.


Allende morreu na resistência armada, Goulart preferiu evitar derramamento
de sangue e partiu para o exílio. Nenhum deles era comunista, ainda que
no auge da guerra fria tivessem sido confundidos como netos de Lenin ou sobrinhos
de Stalin. Importou menos ser o chileno um católico praticante e o brasileiro
o maior proprietário de terras do País.

Implacável, o establishment mobilizou tudo o que precisava, da mídia
aos tanques, passando pelo caixa dos bancos e das multinacionais.

Acontece a mesma coisa, agora, com Hugo Chávez. É fácil
sensibilizar os caminhoneiros, categoria todas as vezes mobilizada antes das
outras, por ser capaz de paralisar economias. Ao mesmo tempo, agita-se a classe
média, antes com a sombra dos ateus que comiam criancinhas, agora com
a possibilidade da perda do pouco que detém e com o fantasma do caos.


Ou Lula, um novo Goulart?


A fórmula é clássica: começa com a desvalorização
das moedas nacionais frente ao dólar, passa pelo aumento do custo de
vida e a inflação, pelo desabastecimento, pela suspensão
de ajuda por parte de organismos internacionais de crédito, por ricas
e subsidiadas manifestações de rua, greves gerais e, finalmente,
a intervenção militar ou política. Assistimos hoje, na
Venezuela, ao videoteipe colorido de um velho filme já visto em preto
e branco.

Deve cuidar-se Lula. Equilibra-se num fio de navalha. Porque na campanha prometeu
mudar o modelo econômico, denunciou privilégios da elites e, por
isso, se viu eleito por 52 milhões. Mesmo usando linguagem amena, não
deixou dúvidas sobre estar representando a mudança.

Depois da eleição, dentro da mesma estratégia de cautela
e firmeza, voltou a prometer uma reviravolta no modelo econômico, mas
apelou para a composição e a conciliação. Fez concessões
retóricas ao sistema, até exagerando quando nelas se engajou em
jantares em mansões de luxo e evidente mas taticamente encoberto desprezo
pelo torneiro-mecânico transformado em comensal.

Escolhido para mudar, Lula não poderá protelar muito a mudança,
que jamais se limitará à caridade expressa no programa contra
a fome. Como início de um processo, encaixa-se como meio de evitar a
frustração das massas e sua rejeição pelos eleitores
que o estão levando ao Planalto.

Mas se começar a mudar de repente, logo terá seu retrato pendurado
na galeria onde estão, como vítimas mais recentes, João
Goulart, Salvador Allende e, sem dúvida, também Hugo Chávez.
A mesma mobilização rotineira cairá sobre os seus ombros
quando pensar em acabar com a prevalência da atividade financeira externa
sobre a atividade produtiva nacional.

Imaginar a suspensão de privilégios do capital especulativo equivalerá
a cometer pecado mortal, mas será sacrilégio se pensar em restabelecer
direitos sociais suprimidos ou realizar a sempre adiada participação
dos empregados no lucro das empresas.

Em suma, se ficar o bicho come, se fugir o bicho pega. Luiz Inácio Allende
Goulart da Silva, Luiz Inácio de la Rúa da Silva ou Luiz Inácio
Chávez da Silva?


carloschagas@hotmail.com


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