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América Contemporânea

Identidade Latino-Americana


Identidade Latino - Americana: pensadores do século XIX

Por Camila Rodrigues

Identidade é uma palavra que traz no seu próprio sentido a marca do caráter complexo das questões que discute, uma vez que pode significar tanto a qualidade do idêntico e do comum, como o conjunto de caráter próprios e exclusivos. Daí concluirmos que esta construção simbólica que supõe tão vivamente a adesão de sentimentos constrói-se, invariavelmente, em relação a um "outro". Assim, a identificação pode surgir de fora para
dentro, ou seja, a partir do outro; ou de dentro para fora, ou seja, em relação ao outro.
No caso da América Latina as identidades construídas a partir do outro são inúmeras, a começar pelo próprio termo "América Latina" que nada mais é que uma criação de Luís Bonaparte para designar o território que pretendia conquistar, ou seja, era o olhar do dominador concebendo uma identidade totalmente alheia ao povo que constituía essas sociedades.
Nem sempre as construções identitárias latinas americanas feitas a partir de uma visão de fora têm como objetivo impor uma visão de dominação ou de inferioridade, um exemplo é a obra do pesquisador de história natural Alexandre von Humboldt que olha para o "Novo Mundo" de forma até deslumbrada.
Aqui, interessa-nos discutir as visões dos latino-americanos que, ao olhar para o "outro", para o externo, o fizeram tentando descobrir quem eram eles mesmos. Muitos são os textos que discutem essas questões. Irlemar Chiampi, no livro "O Realismo Maravilhoso" introduz a sua análise da literatura real-fantástica com uma reflexão sobre a posição central das discussões sobre identidade no pensamento latino americano. Para ela, o desejo identificador atua como uma força propulsora da cultura latino-americana, a qual estaria sempre pensando a si mesma.
Laura de Mello e Souza no primeiro artigo do seu livro "Inferno Atlântico", denominado "América Diabólica", coloca que o europeu que chegou à América e que a colonizou e que escreveu as primeiras crônicas sobre o novo Mundo, o fez a partir de uma mentalidade barroca, ou seja, concebia o mundo de forma bipolarizada e maniqueísta: Se Europa e suas
instituições eram, para ele, a representação do bem, a América passava imediatamente para a posição do mal, e daí ser identificada com os símbolos da alteridade na Europa : o demônio e as bruxas e feiticeiras.
Assim, ao construir uma imagem depreciativa da América, o Europeu exaltava a posição da Europa como local onde prevalecia o bem e a lei de Deus, numa dupla construção identitária.
É preciso não esquecer, no entanto, que os textos sobre identidade produzidos na América Latina no século XIX, trazem como herança essa construção identitária colonial cheia de juízos de valor e de considerações negativas, e com ela dialogam, mesmo que seja para negá-la.
Assim, defendemos que Simon Bolívar, Domingo Sarmiento e José Martí, os três principais articuladores dos processos de independência e de pós-independência, partem dos discursos coloniais para edificar a identidade entre os Estados latino-americanos. Bolívar deixa de ser mais um representante da elite criolla para ser visto como o mito do Libertdor justamente porque seu discurso soube utilizar o passado colonial como um fator legitimador da idéia de União latino-americana. A América latina bolivariana, à época da "Carta da Jamaica", é aquela que precisa da união: "já que tem uma só origem, uma só língua, mesmos costumes e uma só religião, devendo, por conseguinte ter um só governo que confederasse os diferentes Estados que haverão de se formar."
Então, será rompendo com as origens coloniais, sejam elas os laços políticos efetivados nas independências ou os laços culturais que estão na base da própria idéia de identidade, que será possível à América Espanhola distinguir-se da Espanha pela força adquirida em século de experiência colonial, onde o latino americano surge como um contraponto tanto do índio
como do espanhol e é, salvo particularidades, um tipo único que detém tanto a herança nativa quanto a espanhola - não sendo inteiramente nativo nem espanhol e sendo capaz, então, de caminhar som seus próprios pés, reforçando o caráter da união continental como responsável pela formação do governo livre.
Na "Carta ao general Juan José Flores", posterior ao Congresso do Panamá, lemos um Bolívar descrente, em total contraponto com o da primeira carta: aqui a idéia de união é vista como uma utopia do passado, onde ele serviu a uma revolução, o que nas suas palavras corresponde a "arar no mar".
Desta feita a identidade é construída num sentido bastante depreciador - que é o da "América ingovernável" - e o discurso do passado colonial é retomado quase que em sua forma original, no sentido de identificar os americanos pelo caráter negativo : esta América não unida não serve nem de reconquista aos europeus.
Se para Bolívar a origem colonial tem, por si mesma, o papel legitimador da idéia de União sem a qual a América é um projeto fadado ao fracasso, Sarmiento lerá esse mesmo passado de forma diferente : a mentalidade maniqueísta presente nas fundações barrocas das identidades latino-americanas influencia claramente o seu discurso, o qual é marcado
pela dualida e entre a civilização e a barbárie, representativas do Bem em oposição ao Mal, idéia tão presente no imaginário latino americano. O que Sarmiento propõe, e isso fica bastante claro em "Facundo - Civilização e Barbárie", é que os argentinos afastem a barbárie, entendida tanto como os espanhóis atrasados, quanto os nativos - e promovam a civilização . Aqui, afastamento significa, inclusive, uma negação da experiência adquirida em comunhão com esses grupos, através da construção de um presente diferenciador e de um futuro civilizado que, por si, tenha o poder de contrapor-se esmagadoramente à herança da barbárie. Na verdade a concepção de Sarmiento, trocados os papéis, é a mesma dos colonizadores: os latino-americanos civilizados só construirão uma identidade colocando-se em destaque através da depreciação dos grupos denominados de barbárie. A questão da identidade versus alteridade aparece clara no discurso de Sarmiento, se pensarmos que se a barbárie que constitui a alteridade são os nativos e a Espanha : a civilização é o modelo representado pelos norte-americanos. Assim, depois do governo da barbárie (Juan Rosas),
espera que a Argentina consiga um governo civilizado (nos modelos norte-americanos).
Na coletânea de textos "Edemas em torno de Latinoamerica", o mesmo discurso barroco e dual de civilização versus barbárie vai ser usado em favor da defesa de uma América do Sul que não deve deter os Estados Unidos, pelo contrário, deve tornar-se como ele: é a aquisição de um novo modelo, e aqui o papel do "outro" tem um caráter de reconhecimento de pontos comuns. É no que a Argentina pode identificar-se com os Estados Unidos que mora o fio do novelo do desenvolvimento.
Enquanto Sarmiento relê o passado colonial com o objetivo de transformá-lo, ainda que o faça partindo da mesma estrutura polarizada em que o discurso colonial original foi construído, e nisso difere de Bolívar que lê o passado colonial como recipiente de tormentos a serem cobrados e vingados assistimos em Martí o despontar de uma nova utilização desta experiência: o passado colonial não negado, mas conhecido e superado. José Martí defende que "conhecer o país e governá-lo conforme o conhecimento é o único modo de livrá-lo de tiranias ... A história da América, dos incas para cá, deve ser ensinada minuciosamente, mesmo que não se ensine a dos arcontes da Grécia. A nossa Grécia é preferível à Grécia que não é nossa." Com base nessa idéia seria possível ao latino -americano livrar-se da dominação a qual está subjugado e que a independência política não foi capaz de derrotar, uma vez que "a colônia continuou vivendo na república."
No discurso de Martí, onde o destaque está na apologia do interesse dos latinos no que é peculiar à América Latina, a experiência passada surge como ponto comum de princípio de formação identitária. Inicialmente tal teoria assemelha-se ao que propunha Bolívar, e realmente a idéia de "Nossa América" tem origem bolivariana, mas há que se ressaltar as diferenças contextuais : enquanto a América de Bolívar era marcada pela insegurança dos processos de independência e de consolidação das nacionalidades, a América de Martí estava fadada ao sucesso, através do afastamento do modelo norte-americano e da procura pelas raízes e especificidades de todas as esferas latino-americanas para construir a identidade, entre elas também o passado colonial.
Cada pensador constrói seu discurso de modo coeso com o seu tempo, no sentido de eleger um "outro" mais ou menos apropriado : se para Bolívar a questão versava em torno das independências e dos primeiros passos das nações independentes a alteridade era construída em relação à Espanha; já para Sarmiento o "outro" era representante da barbárie, que eram o índio e o espanhol; e para Martí, que escreve sob a sombra anexionista norte-americana, era preciso livrar-se dos EUA, o qual tinha projetos ideológicos dominadores.
Embora todos eles pensem, primeiramente, numa construção identitária nacional, também todos eles vão estender esse projeto para o supra nacional. Bolívar entende as lutas pela independência como fator primário para a constituição da União Americana livre que seria o projeto de solidariedade continental; Sarmiento e sua concepção dual enxerga primeiro
a Argentina polarizada entre civilização e barbárie e depois também estende o conceito : haveria duas Américas, a civilizada e a bárbara; e Martí reformula a idéia de pan-americanismo, primeiro a partir da clara confiança na capacidade emancipacionista de Cuba, e depois de cada uma das nações latino-americanas que formariam a "Nossa América". A extensão destes projetos está fundamentada na forte herança que o passado colonial deixou no imaginário latino americano, que funda uma base comum da experiência latina e da natureza destes discursos.

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