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Uma Nação de Delatores

UMA NAÇÃO DE DELATORES
Anos atrás um renomado autor, Bertram Gros, escreveu que o fascismo chegaria nos Estados Unidos com um rosto amigo: não através dos julgamentos em massa de Nuremberg ou das doutrinas de superioridade racial, sem a necessidade de proibir os partidos, revogar a constituição ou eliminar os três poderes do governo, mas com o mesmo fervor nacionalista, leis arbitrárias ditatoriais e violentas conquistas militares. Naquele país, os sinais do Estado policial já são evidentes por toda parte: os Estados Unidos têm se transformado numa nação de informantes. Dezenas de milhares de seus cidadãos, descendentes de países do oriente Médio, têm sido presos sem provas e o exercício do direito à crítica da política americana nessa região do mundo vem sendo classificado como apoio ao terrorismo. Essa perseguição foi incitada e apoiada pelas autoridades do governo, sobretudo pelas polícias local e federal, e por numerosos grupos de veteranos e de políticos demagogos. O presidente assumiu poderes ditatoriais, criou tribunais militares anônimos para julgar imigrantes suspeitos: a hipótese de ser de além mar permite sequestrar e julgar. O habeas corpus foi suspenso. Nas escolas as crianças tem sido religiosamente obrigadas a cantar o hino e a prestar juramento à bandeira. Os empregados que exteriorizam alguma crítica à guerra ou ao apoio americano à Israel, ou que denunciam os massacres dos palestinos em Israel, são afastados de seus postos ou demitidos. Toda comunicação _ carta, correios eletrônicos, chamadas telefônicas _ pode ser controlada sem nenhuma ordem judicial. Os meios de comunicação divulgam a propaganda governamental, revigoram a história chauvinista, silenciam os massacres longínquos e a repressão doméstica.

O ROSTO AMIGO DO FASCISMO
Uma das características de um regime totalitário é a criação de um Estado de mútua suspeita, em que a sociedade civil se transforma numa rede de informantes de polícia secreta. Pouco depois do 11 de setembro , o FBI exortou cada cidadão dos Estados Unidos a informar qualquer comportamento suspeito de seus amigos, vizinhos, parentes, conhecidos e estrangeiros. De setembro até o fim de novembro, registraram-se pelo menos 700.000 denúncias. Foram denunciados milhares de vizinhos árabes, proprietários de lojas e empregados, assim como muitos outros cidadãos americanos. Nenhuma dessas denúncias levou a uma detenção ou informação relacionadas ao 11 de setembro. Apesar disso, centenas de milhares de pessoas inocentes foram investigadas e hostilizadas pela polícia federal. E O rosto amigo do fascismo Uma das características de um regime totalitário é a criação de um Estado de mútua suspeita, em que a sociedade civil se transforma numa rede de informantes de polícia secreta. Pouco depois do 11 de setembro , o FBI exortou cada cidadão dos Estados Unidos a informar qualquer comportamento suspeito de seus amigos, vizinhos, parentes, conhecidos e estrangeiros. De setembro até o fim de novembro, registraram-se pelo menos 700.000 denúncias. Foram denunciados milhares de vizinhos árabes, proprietários de lojas e empregados, assim como muitos outros cidadãos americanos. Nenhuma dessas denúncias levou a uma detenção ou informação relacionadas ao 11 de setembro. Apesar disso, centenas de milhares de pessoas inocentes foram investigadas e hostilizadas pela polícia federal. Dezenas de milhões de americanos têm um medo paranóico do "terrorismo" em seus locais de trabalho, no comércio ou no lazer. As pessoas reprimem toda e qualquer crítica à guerra ou ao governo, por medo de serem tachadas de simpatizantes dos terroristas, denunciadas as autoridades, investigadas, e de perder o trabalho.
PRISÕES EM MASSA, INTIMIDAÇÃO E INCRIMINAÇÃO DE ÁRABES
Todas as ditaduras totalitárias incriminam as minorias com o objetivo de mobilizar as maiorias e de conseguir a aprovação de seus poderes ditatoriais. O fascismo amigo incrimina os árabes - prendendo-os, investigando-os, marcando-os - ao mesmo tempo em que, no discurso público, proclama as virtudes da tolerância e do pluralismo. As doutrinas raciais não são evidentes, mas as polícias local, estadual e federal estabeleceram como procedimento operacional a perseguição do perfil racial das pessoas do oriente médio. Grandes concentrações de comunidades árabes, como Dearborn, em Michigan, sentem que vivem num gueto, esperando o início do pogrom. A cabeça do FBI considera todas as associações civis árabes, de caridade etc. como suspeitas de ajudarem o terrorismo, são objeto de investigação e seus membros candidatos a serem presos. Os violentos e pesados ataques, as incursões policiais nas casas, lojas, escritórios de grupos civis criaram em muitos a sensação de viver num estado de sítio. A campanha policial têm feito emergir os instintos racistas latentes na massa dos norte americanos, e fomentou uma erupção de hostilidade civil e insultos.
PODERES EXECUTIVOS DITATORIAIS: O FIM DA ORDEM CONSTITUCIONAL
Nos Estados totalitários, o líder supremo é a medida dos poderes ditatoriais, suspende as garantias constitucionais (apelando às condições de emergência), dá todos os poderes à polícia secreta e solta as mãos dos tribunais para que ordenem prisões arbitrárias, julga e condena à prisão os acusados e executa-os. No dia 13 de novembro, o presidente Bush deu um passo fatal para assumir os poderes ditatoriais. Sem consultar o Congresso, decretou uma ordem de emergência que permite ao governo prender os não-cidadãos dos quais se tenha a suspeita de serem terroristas, para que sejam julgados por um tribunal militar. Os julgamentos são secretos e representantes do Ministério Público não precisam apresentar evidências quando se trata dos interesses da Segurança Nacional . O condenado pode ser executado mesmo quando um terço dos juizes não esta de acordo. Os poderes ditatoriais para prender ou executar os suspeitos sem um processo justo integram a essência dos governos totalitários.

"George W. Bush"

Os ditadores prendem os suspeitos e os fazem desaparecer. Na metade de novembro, o Departamento de Justiça se negou a revelar as identidades de mais de 1100 pessoas presas desde o dia 11 de setembro. Como nos regimes totalitários, os presos políticos são constantemente interrogados pelo FBI, sem provas dos delitos e sem advogados, que assim procura arrancar confissões. No dia 26 de outubro, o líder supremo assinou a Lei Patriótica dos Estados Unidos (USA Patriot Act), que fortalece os poderes da polícia sobre a sociedade civil. A polícia secreta com poderes ilimitados é um traço comum dos Estados totalitários do passado. Sob o nosso regime fascista com um rosto amigo, a extensão dos poderes especiais da polícia secreta foi aprovada quase por unanimidade pelo Congresso (de cujos membros, muitos nunca leram a lei). Todas as cláusulas da Lei violam a Constituição dos EUA. De acordo com a Lei: a) sem informar os cidadãos, qualquer instituição federal pode entrar secretamente em qualquer casa ou empresa, colher evidências e, em seguida, usar a evidência (colhida ou semeada) para acusa-los de um crime; b) qualquer instituição policial tem o poder de monitorar a internet e o correio eletrônico, interceptar telefones celulares sem garantias para milhões de suspeitos; c) qualquer instituição federal pode invadir uma empresa e copiar todos os seus arquivos sob a premissa de que tem relação com uma investigação terrorista. Os cidadãos que venham a protestar publicamente por essas ações policiais arbitrárias e invasoras podem ser detidos.
A polícia secreta não conhece fronteiras entre a espionagem doméstica e externa. A lei patriótica legaliza as operações da CIA contra os cidadãos no interior dos EUA. A Lei Patriótica dos Estados Unidos, como seus congêneres totalitários, tem um ampla e vaga definição de terrorismo que lhe permite reprimir qualquer organização dissidente ou atividade de protesto. De acordo com a seção 802 da norma, terrorismo se define como _ atividades que implicam atos perigosos para a vida humana e que são uma violação da leis criminais dos EUA ...(e) pretendam intimidar ou coagir a população civil....(ou) influenciar as políticas de governo através da intimidação ou da coerção. Qualquer protesto antiglobalização como o que ocorreu recentemente em Seattle ou Ottawa, pode ser qualificado de terrorista, seus líderes e participantes presos, suas casas e escritórios revistados, seus documentos confiscados e, se não forem cidadãos norte-americanos, enviados aos tribunais militares. Esse decretos e leis de "emergência" não são temporários; estarão em vigor até 2005 e se estenderão além desse prazo caso as investigações tenham começado no ano citado.
Conclusão
Talvez, daqui a muitos anos, quando o país tenha sido redemocratizado, a febre chauvinista tenha sido superada, as máquinas da propaganda do Estado tenham sido substituídas por meios de comunicação pluralistas e honrados, possamos discutir dolorosas verdades. Quando forem abertos os arquivos da polícia secreta, poderemos descobrir que muita gente honrada e respeitada denunciou vizinhos e amigos por questões de vingança pessoal; que alguns profissionais deram informações sobre colegas que eram críticos de Israel; que o FBI espionava milhões de cidadãos americanos progressistas que respeitavam a lei porque ideólogos de direita recomendavam elimina-los. Ao estudar as gravações transcrições e vídeos das mensagens dos meios de comunicação, poderemos ver como rápida e facilmente elas se transformaram em armas de propaganda do Estado fascista com o rosto amigo. Os pesquisadores ficarão maravilhados ou horrorizados diante da corrupção da linguagem política: pesados bombardeios de grandes cidades em nome do "antiterrorismo"; eufemismos para justificar os massacres; as matanças de prisioneiros de guerra descritas como "mortos durante um motim". Os historiadores irão notar também a ausência de vozes críticas, a falta de reportagens sobre as baixas civis. Os estudantes do futuro não poderão rir com a platéia de jornalistas quando o Secretário da Defesa Rumsfeld fez o firme pronunciamento de "matar todos os terroristas"; mas se lembrarão das montanhas de corpos executados a sangue frio pelos mercenários às suas ordens. Os historiadores discutirão se o consentimento do público americano aos passados bombardeios e as execuções eram reflexo da incessante e envolvente propaganda ou se estava sendo cúmplice da matança. Os filósofos e psicólogos discutirão se os que se celebraram a nova ordem mundial agitando a bandeira eram motivados pelos rostos sorridentes e a retórica bélica de seus líderes ou acolhiam o fascismo amigo devido sua paranóia, medo e ansiedade introduzidos pelas vozes da autoridade e amplificados pela mídia. Contudo, esse olhar a partir do futuro pressupõe que vozes críticas sobreviverão ao fascismo de rosto amigo e construirão um movimento para destruir o seu poder. Há quem possa desejar o acreditar que ele passará porque, do contrário, as mentiras e as mortes do presente acabarão sem respostas.
James Petras é professor de ética política na Universidade de Nova York. O texto foi publicado pelo jornal mexicano La Jornada. Tradução Emílio Gennari
Este artigo foi extraído da Revista Caros Amigos, edição 59 Conheça a Revista Caros Amigos

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