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O Cossaco Roubado

Uri Avnery *


Os cossacos eram colonos no sul da Rússia que recebiam doações de terra dos czares em troca da obrigação de defenderem a fronteira. Eram conhecidos como guerreiros ferozes e cruéis, e na memória dos judeus ficaram com má fama como perpetradores dos pogroms (massacres organizados) mais abomináveis. Portanto, há um bocado de amarga ironia no velho adágio judeu "um cossaco roubado". Ele descreve um cassaco que não só causa destruição, assassinatos, estupros e saques, mas também acusa suas vítimas de roubá-lo. O criminoso finge ser a vítima, o assaltante finge ser o assaltado. Israel está se tornando aos poucos um "cossaco roubado". Um alienígena em Marte, acompanhando as transmissões radiofônicas israelenses num satélite inter-estelar, teria a impressão de que são os palestinos que estão mantendo uma cruel ocupação de Israel e que os soldados palestinos estão perambulando pelas cidades israelenses.
Isto é explicado pela competição pela mídia internacional. Cada lado do conflito pinta a si mesmo como vítima, a fim de ganhar o apoio da opinião pública mundial, a qual tende sempre pelo mais fraco. O conflito israelense-palestino tornou-se uma espécie de luta de campeonato entre dois grandes mestres da vitimização.
Mas o fenômeno é mais profundo. Durante várias gerações os judeus foram perseguidos em muitos países e desenvolveram a consciência de vítimas. Poder-se-ia quase dizer que a maior parte da cultura judaica criada durante os últimos dois ou três séculos gira em torno desse eixo. O Holocausto, é claro, reforçou esse motivo central ainda mais.
O projeto sionista neste país poderia ter mudado esse modelo. Afinal de contas, a penetração sionista expulsou os palestinos de suas terras e transformou a maioria deles em refugiados. Nessa luta histórica, os palestinos perderam: terras, aldeias, grandes porções do país. Esse processo ainda prossegue diariamente.
Agora, os palestinos chegaram e reivindicaram para si os espinhos da coroa de vítima. Nada ofende mais aos israelenses. Parece-nos o cúmulo da audácia: um ataque no âmago da nossa consciência nacional. Portanto, reagimos com fúria. Descrevemos a Intifada como um ataque malicioso contra nossa existência. Trouxemos de volta do lixão os slogans das gerações passadas: os árabes querem nos atirar ao mar, querem tomar de nós Haifa e Jaffa. Esquece-se o fato de que temos o exército mais poderoso da região; que o Israel dentro da Linha Verde (fronteira anterior a 5 de junho de 1967) possui 78% do país; que agora controlamos o restante do país (a Cisjordânia e a Faixa de Gaza). E que desfrutamos de uma ampla superioridade em praticamente todas as áreas. Esquece-se o fato de que os palestinos reivindicam apenas 22% do país e que a Intifada é um levante contra uma ocupação que vem acontecendo com uma crescente brutalidade já por 34 anos.
Tudo bem. Somos as vítimas e baixaremos a cabeça de alguém que tente nos privar desse título.
E se Israel for o cossaco roubado por excelência, então os colonos o são ainda mais.
Na verdade, eles estão numa situação muito difícil. Estão sendo atacados diariamente, suas famílias vivem em constante perigo, estão sendo mortos e feridos. Ninguém pode invejá-los.
Mas não se pode esquecer que eles se meteram nessa situação, com os olhos abertos e premeditação deliberada. Mesmo aqueles que sonhavam apenas com "qualidade de vida" em terra roubada e se divertirem em piscinas cheias de água roubada não podem se queixar do rude despertar. Sem mencionar o núcleo do movimento de colônias habitacionais, os fanáticos do Gush Emunim e seus similares.
Eles se estabeleceram no meio de uma densa população palestina, em terra roubada do povo que se tornou seus vizinhos. Depois de se estabelecerem, expandiram-se, apossando-se de mais e mais terras, brigando com aldeões das proximidades, falando alto de "coexistência" enquanto tratavam os locais com arrogância e desprezo. Cada palestino da Cisjordânia e da Faixa de Gaza que despertava de manhã e olhava pela janela, via que os tetos vermelhos das colônias habitacionais tinham se aproximado um pouco mais de seu jardim. O que eles pensavam, aqueles colonos? O que pensavam seus líderes e rabinos? Como eles pretendiam sobreviver no meio de uma população cujo ódio se tornava mais forte a cada dia? Bem, isso não é segredo: esperavam que essa população desaparecesse. O alvo deles não era apenas estabelecer todo o Eretz Israel, mas também ter um Eretz Israel livre de goiyms (gentios). O "sonho" do rabino Ovadia Joseph, o qual ele confessou dias atrás, de um país entre o mar e o Jordão no qual não havia um único não-judeu, não é novo para eles. Foi proclamado no passado pelos rabinos da Judéia e Samaria que inspiraram o movimento clandestino judeu judeu que planejou explodir o Domo do Rochedo, o qual cantava louvores ao assassino de massas Baruch Goldstein em público e do assassino do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, Yigal Amir, em segredo.
Agora, os colonos são pendendo por um fio nas estradas de passagem e clamam por mortes sangrentas. O exército tem de defendê-los, um soldado a cada metro. Não mandam seus filhos de volta a Israel porque o perigo para eles é um trunfo no jogo dos colonos. Sua grande esperança é que a confrontação atual se amplie a proporções tão monstruosas que seja possível em 2001 ou 2002 completar o trabalho que foi começado em 1948 e continuado em 1967. Os palestinos serão removidos do país, suas aldeias erradicadas e no lugar delas colônias habitacionais cobrirão toda a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Muitos deles acreditam que essa esperança está prestes e se realizar.
Os colonos argumentam que "o estado" os enviou para lá. Seus oponentes dizem que a verdade é o contrário, que eles pegaram todos os governantes pelo pescoço e os obrigaram a endossar suas colônias habitacionais, algumas vezes antes, algumas vezes depois que elas foram instaladas.
Mas ambos os lados têm razão. Os colonos realizam um sonho secreto do inconsciente sionista, e portanto tanto os governantes do partido Trabalhista quanto os do Likud os apoiaram e encorajaram. O exército gradualmente se tornou uma milícia a serviço dos colonos. Muitos generais e coronéis são colonos em suas mentes, se não com seus corpos. Com o advento de Sharon, uma simbiose formada pelo governo, oficiais superiores e colonos, ganhou existência, e todos eles se erguem e gritam: "Socorro! Eles estão nos matando!". E com o mesmo ímpeto: ‘Atacar!".
Isto não é realmente problema dos colonos, mas do estado. Além de todo o palavreado sobre Mitchell, Tenet e outras asneiras, estamos diante de uma escolha simples e dura: entre a evacuação de milhões de palestinos ou a evacuação de 200 mil colonos (40.000 mil famílias no máximo). A primeira opção causará uma guerra eterna com o mundo árabe e muçulmano, e, no fim, a destruição de Israel. A outra opção causará uma profunda crise interna e, no fim, a paz.
Temos de escolher.

Uri Avnery é escritor israelense. Recebeu vários prêmios internacionais pelo seu trabalho a favor da paz no Oriente Médio. Desde 1948 defende a criação de um estado palestino ao lado de Israel. Foi o primeiro israelense e fazer contato com a OLP e o primeiro a se encontrar com o líder palestino Yasser Arafat. É autor de diversos livros. Dentre eles, Terrorism -- the infantile disease of the Hebrew Revolution; The other side of the coin e The Israeli-Arab conflict, a plea for a Middle Eastern community. Exerceu três mandatos legislativos no Parlamento israelense.

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