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Confrontando a ocupação

MUSA AMER ODEH

Sempre que Israel for mencionado, deveríamos nos lembrar que se trata de uma potência de ocupação, e que o povo palestino tem estado há 34 anos sob ocupação militar israelense. Os planos e as ações do governo Sharon para destruir a infra-estrutura, liquidar, eliminar e assassinar militantes palestinos estão em todas as redes de comunicação.

É incrível que uma potência de ocupação possa conseguir distorcer os fatos a um ponto em que seus planos para desencadear uma ofensiva total contra um povo ocupado, sitiado e aprisionado em suas próprias cidades e aldeias sejam apenas "notícias rotineiras".

Através de todos estes anos, Israel vem violando o direito internacional com sua política de expansão, construção de colônias habitacionais que têm devorado a terra palestina, castigos coletivos, detenção de milhares de pessoas, destruição do meio ambiente, da economia e da infra-estrutura palestinos.

O povo palestino vem testemunhando a violação de seus direitos humanos, a usurpação de seus direitos nacionais, de sua terra roubada através de ordens militares israelenses para construir ainda mais colônias habitacionais judaicas. Já há dez meses o povo palestino tem estado sob sítio, aprisionado em suas próprias cidades e aldeias, enquanto a poderosa máquina militar da potência de ocupação bombardeia-as com tanques, F-16, mísseis e Apaches. Seus soldados e atiradores de elite levam a morte a qualquer palestino que apareça em seu caminho.

Humilhações diárias, ruptura da vida normal como resultado do sítio militar contínuo têm atingido dimensões horrendas. Pacientes têm sido impedidos de chegar aos hospitais, estudantes de chegar às universidades, mulheres grávidas, de parto decente e seguro, em clínicas, trabalhadores de chegar a seus locais de trabalho, e aqueles que protestam e resistem são punidos com balas e mísseis. Essas práticas são parte daquilo que sucede diariamente a qualquer hora e em qualquer cidade ou aldeia na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. É o terrorismo de estado.

Enquanto casas são demolidas e prosseguem os assassinatos extrajudiciais, o que espanta é o silêncio. Será que a comunidade internacional está esperando que os planos de Sharon se materializem para finalmente agir? O irônico é que uma superpotência decidiu continuar patrocinando a agressão e a campanha de destruição sistemática promovidas por Israel. Ao mesmo tempo, pedem ao povo palestino que suspenda sua "violência" enquanto fica a critério do ocupante dar-lhe um certificado de boa conduta antes de voltar à mesa de negociação!

O ciclo de violência começou com a ocupação, e os últimos dez meses de agressão e assassinatos efetuados por Israel provam uma coisa: a menos que Israel esteja preparado para admitir que o tempo de deixar a terra e o povo palestino em paz já expirou há muito, continuará a incorrer em uma política de arrogância, apartheid e crimes de guerra. Dará ao que quer que tenha sobrado das perspectivas para a paz o empurrão final em direção ao abismo. Não há nenhuma forma de forçar o povo palestino, por meio de bombardeios, à submissão ou à renúncia de seus direitos à liberdade e independência.

O poder militar de Israel - fornecido pelos EUA - pode ser superior e muito letal, mas não levará Sharon à meta que persegue.

Mais medidas de segurança e mais assassinatos de palestinos não são a resposta. A política do sr. Sharon gerou mais derramamento de sangue e mais sofrimento. Seu cerco apertado e suas medidas de segurança não podem parar as ações terríveis e desesperadas como as que vimos nos últimos dias. A perda de vidas, palestinas e israelenses igualmente, são profundamente lamentáveis. Mas a ocupação militar israelense continuada e seu terrorismo de estado são os responsáveis pelos atos de desespero levados a efeito por jovens que nasceram na ausência total de uma vida digna, normal, sob condições brutalmente humilhantes. Eles não encontraram espaço para seus sonhos e aspirações, nenhuma esperança de uma vida decente sob as armas e botas da ocupação. Para eles, a vida e a morte tornaram-se uma mesma coisa. Sharon e sua política são os únicos responsáveis pelo sangue derramado e pela dor tremenda.

O meio de romper o que a mídia tem chamado reiteradamente de ciclo de violência e sangue é o fim da ocupação militar, e não a reocupação. A causa profunda do conflito é a ocupação, e é hora de os líderes de Israel terem a coragem de encará-la. Quando o processo de paz começou, antes que Israel o transformasse num processo vazio de paz, baseava-se nas resoluções da ONU que descreviam claramente como "inadmissível" a ocupação de terra pela força militar, e exortava Israel a retirar-se dos territórios que havia ocupado durante a guerra de 1967. Estas terras incluíam a Cisjordânia, inclusive Jerusalém e a Faixa de Gaza, bem como as Colinas de Golã da Síria e as Fazendas Sheb'aa no sul do Líbano.

Numerosas outras resoluções da ONU exortavam Israel a cessar sua ocupação e desmontar todas as colônias habitacionais ilegais construídas no território palestino, e a respeitar suas obrigações de acordo com a Quarta Convenção de Genebra. Israel, entretanto, continua a agir como uma nação acima da lei, desafiando a legalidade internacional, violando todos os acordos assinados com a OLP e recusando-se a reconhecer o fato de que tem de cessar sua ocupação juntamente com todas as manifestações e práticas ilegais e brutais que decorreram dela.

Enquanto a situação se precipita rumo ao desconhecido, é tempo de a comunidade internacional assumir sua responsabilidade. Uma força de observação da ONU, tantas vezes rejeitada por Israel, permanece uma necessidade urgente, a ser seguida por passos rápidos para cessar a ocupação de acordo com resoluções relevantes da ONU, incluindo aquelas relativas às colônias habitacionais, aos refugiados palestinos e a todos os demais aspectos do conflito.

MUSA AMER ODEH é chefe da Delegação Especial da Palestina no Brasil
O GLOBO, 21/08/2001

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