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Escritor descobre uma Atlântida Judaica

Por Moacir Amâncio para O Estado de São Paulo


Marek Halter, em seu novo romance, investiga a história de um povo medieval, os casares.


Os casares foram um povo medieval que virou lenda. Eles viviam no Cáucaso e de repente se viram contra a parede, acossados por cristãos e muçulmanos. Então o rei escolheu a terceira via, o judaísmo. Seus súditos o acompanharam e todos os casares se tornaram filhos de Abraão em 740. Por sua vez, teriam dado origem, pelo menos em parte, aos judeus asquenazes, ou "alemães". O grande pensador e poeta judeu-espanhol Iehydá HaLevi, escreveu um livro sobre judaísmo baseado nessa história. Em seu livro, dirigido ao suposto rei dos casares, ele explica o judaísmo, convencendo o monarca a adota-lo fervorosamente. HaLevi também virou lenda: indo para Jerusalém, morreu sob as patas de seu cavalo na entrada da cidade. São dele os versos que inspiram uma canção popular israelense de Naomi Shemer: "Jerusalém de ouro e de cobre e de luz / eu sou as cordas de todas as tuas canções."
Agora o escritor Marek Halter, velho batalhador pela paz, pelo entendimento entre árabes e judeus, publica um livro na França chamado Le Vent des Khazars, um romance escrito a partir de um povo do qual, ele supõe, vieram seus antepassados. Foi com a disposição de encontrar uma resposta que, de acordo com Alexandra Lemasson, num artigo para L’Express (dia 6 de junho), o escritor se dirigiu ao Azerbaijão, onde vivem os chamados "judeus da montanha", que seriam os últimos descendentes diretos dos casares. Eles vivem em Quba:

Passado -- "O escritor evoca sua descoberta de Quba, a cidade judaica, com emoção: ‘Tudo me recorda os shetsl (aldeia judaica da Europa central) da minha infância, as aldeias centrais da Polônia anterior à guerra.’ Lá, ele reencontra aqueles que os historiadores julgam ser os últimos descendentes dos casares. A epopéia desse povo exerce uma fascinação exacerbada pelo seu mistério. Antes dce Marek Halter, que gosta de imaginar uma ascendência casar, ela dominou mais de um escritor." Arthur Koestler foi um deles, isto é contemporâneo. "Por que esse império optou pela conversão, em 740, ao judaísmo, religião já bastante perseguida?"
Halter leva o tema para a praia dele, usando para isso um alter ego, o romancista Marc Sofer (escritor em hebraico), que, ao descobrir os casares, também encontra um bom tema para novo livro. Em um de seus textos antigos, ele fala sobre a cena anual em que os judeus se dirigiam à sinagogas com seus xales de orações, para a noite do Kol Nidrei, poema que dá início às celebrações do Dia do Perdão, um momento supremo da fé israelita, quando as bombas começaram a cair do céu.
Como Elie Wiesel, ele decidiu dedicar-se a uma campanha infindável pelos direitos fundamentais da pessoa. E pela paz, sem o que nada disso faz o menor sentido. Nem a campanha nem as frustrações têm fim. Num de seus livros, ele fala com ironia a respeito da trajetória quixotesca do homem de fé, à volta com os senhores do poder, os senhores da guerra.
Apesar de todas as desilusões, mantém-se disposto a escrever para "mudar a cara do mundo e sobretudo levar à paz", um sonho soterrado pelos séculos, como a história dos casares, um povo nômade proveniente das estepes do oriente" cuja história-lenda Lemasson compara ao esplendor de uma Atlântida judaica.

O texto acima é uma cópia íntegra de reportagem assinada por Moacir Amâncio, publicada no jornal O Estado de São Paulo em 1 de julho de 2001.

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