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Casa Aberta ensina a paz no Oriente Médio

Por Paulo Daniel Farah (Folha de São Paulo 18/jun/2001)

Centro administrado por palestinos e israelenses promove tolerância em meio a onda de violência na região.
Um encontro entre uma israelense e um palestino em 1967 abriu caminho para um centro de promoção de paz que acolhe árabes e judeus em Ramle e que se mantém aberto apesar da Intifada, o levante palestino contra a ocupação israelense. Vinda da Bulgária, a família de Dalia chegou a Ramle em 1948 e se instalou em uma grande casa de pedra, sem saber que ela havia pertencido a palestinos expulsos da cidade por militares israelenses.
Pouco após a guerra de 1967, o palestino Bashir al Krayri, 26, bateu à porta, pediu para ver o local onde viveu e convidou Dalia para ir a Ramallah, cidade palestina na Cisjordânia para onde se mudara.
Mais tarde, o pai de Bashir, "idoso e cego’, reconta Dália, visitou a casa e tocou o limoeiro que havia plantado no quintal. Antes de morrer, ele costumava apalpar um limão que o pai de Dália lhe dera, segundo ela. "Eles bateram à porta e eu escolhi abri-la", diz Dalia. "Como membro do povo judaico, tenho direito de assumir responsabilidade por nossa história nesta terra e pela injustiça que causamos a outro povo."



Dália resolveu, após consultar os Al Khayri, dedicar a casa a um centro em prol da paz. Em 1991, a Casa Aberta passou a abrigar o primeiro centro de Ramle para crianças palestinas, que tem aulas em árabe. Também se tornou o primeiro centro cultural judaico-árabe da cidade. Ramle é um microcosmo das relações entre a maioria judaica e a minoria palestina em Israel -18% de seus 80 mil habitantes são árabes.
Na parede um quadro escrito em hebraico, árabe e inglês, sob o título "Viver em Paz", ensina às crianças palavras como "concessão", "amizade", "coexistência", "esperança" e "futuro". O termo "guerra" aparece riscado.
Adolescentes israelenses e árabes participam com freqüência de acampamentos com o objetivo de facilitar sua convivência e prepara-los para um futuro pacífico.
"Nossa casa está preparando a próxima geração para encarar a responsabilidade de forjar uma sociedade comum baseada na igualdade e na solidariedade mútua", diz Michail Fanous, diretor executivo. "Começamos com crianças e percebemos que podemos atingir adultos. Assim, criamos um grupo para famílias."
"Meu primo vive em Ramallah. Não posso simplesmente sentar e assistir o que acontece. Preciso promover tolerância", diz. Boa parte dos parentes, palestinos, permanece refugiada na Jordânia.
O centro recebe professores judeus e árabes para que eles possam passar a experiência de coexistência a alunos e famílias.
Em maio, o centro levou 75 pessoas a Sakhnin, que perdeu dois de seus habitantes em confrontos com o Exército israelense em outubro do ano passado. Foi a primeira vez que judeus visitaram essa cidade árabe desde então.



"Não perdemos esperança na possibilidade de uma coexistência verdadeira", diz Yeheskel Landau, co-diretor da Casa Aberta, onde se comemoram festas judaicas, muçulmanas e cristãs. Em julho, 110 árabes e judeus, entre 9 e 16 anos, vão participar do Décimo Acampamento pela Paz.
"Estou convencido de que ainda vai levar uma geração, se não duas, para haver compreensão por aqui. A paz ainda dá mais medo que a violência. O sacrifício envolve muito mais que território", afirma Michail Fanous.

Desafio é promover tolerância, diz pacifista
"O trauma vivido por judeus e árabes deixou sua marca em nossas atividades de coexistência. Estamos trabalhando para por fim ao estranhamento, facilitando encontros conjuntos e reuniões entre pais e professores. As crianças em ambas comunidades foram bem menos afetadas pelos confrontos violentos e ainda participam de nossas atividades sem a dor e a mágoa quer seus pais carregam", afirma Yeheskel Landau, co-diretor da Casa Aberta.
O pacifista israelense defende a humanização dos envolvidos no conflito israelo-árabe, "Após décadas desumanizando os envolvidos, hoje o desafio ante pais e professores, tanto em Israel quanto na Palestina, é encontrar uma forma de promover a tolerância."
Landau costuma contar a história de um soldado israelense chamado Shuki que, durante a invasão do Líbano (1982), abandonou o front para protestar diante do escritório do premiê Begin.
Shuki foi ao campo de refugiados palestinos de Ein al Hilweh, perto de Sidon, onde sua unidade deveria eliminar membros da Organização para a Libertação da Palestina. Shuki e outros militares entraram no campo, o maior do Líbano, atirando. De repente dois refugiados vieram em sua direção carregando um objeto e gritando.
Shuki e seus colegas gritaram para que eles deixassem o local. Quando os dois chegaram perto, a cerca de 20 metros, os soldados puderam ver que eles tinham nas mãos um engradado de refrigerantes que lhes ofereciam.
Shuki afirmou: "Se estivessem a 200 metros nós teríamos atirado contra eles e ficaríamos contentes se os atingíssemos". A pergunta que ele coloca: "Quão longe um ser humano precisa estar antes que ele se torne um alvo? Quão perto ele deve estar antes que seja humano?" .
Segundo Landau, "há muitas histórias pessoais como a de Shuki, demonstrando que uma experiência direta pode alterar a imagem projetada do outro, substituindo-a por múltiplas imagens que refletem o espectro humano em qualquer sociedade".
"Minha mulher cresceu ouvindo o mito de que os árabes fugiram, depois compreendeu que os habitantes de Ramle foram expulsos. Hoje estamos promovendo a terceira revolução sionista. Primeiro, éramos agricultores. Depois, militares. Agora somos defensores da paz", diz o pacifista.
Michail Fanous tem promovido iniciativas de paz entre judeus, cristãos e muçulmanos há vários anos. Ele ensinou geografia em escolas estaduais durante 134 anos. Atualmente é membro do comitê de planejamento urbano de Ramle. O diretor-executivo da Casa Aberta diz que sua experiência pessoal mostra que construir a paz é um processo de longo prazo.
"Construir a paz leva tempo. Investimos em crianças e adolescentes justamente por isso, para garantir o futuro", diz.

O texto e as gravuras acima são uma reprodução íntegra de matéria do jornal Folha de São Paulo em 18 de junho de 2001, realizada pelo jornalista Paulo Daniel Farah.

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