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História da Arte

A Arte da Caligrafia Árabe

Por Mônica Muniz

A caligrafia é a mais sublime das artes islâmicas e a expressão mais típica do espírito muçulmano. "O teu Senhor -- revela o Alcorão - ... ensinou com o cálamo, ensinou ao homem o que ele não conhecia." Como Deus, por intermédio do anjo Gabriel, falou em árabe e as Suas palavras foram escritas em árabe, a língua e a escrita são consideradas tesouro inestimável por todos os muçulmanos. Só entendendo-as os homens poderiam esperar compreender o pensamento de Deus. Os muçulmanos não podiam ter uma missão mais importante que a de conservar e transmitir tesouro tão valioso. E o fizeram com toda a perfeição de que foram capazes.

Por isso, usaram a caligrafia como expressão religiosa e, no decorrer do tempo, a escrita tornou-se uma arte muito respeitada. Segundo o sábio muçulmano Yasin Hamid Safadi, "No Islam, a supremacia da palavra está refletida na aplicação universal da caligrafia. "

A escrita arábica é um ramo das escritas semitas, onde só as consoantes estão representadas. Ela é derivada da escrita nabatéia que, por sua vez, vem da aramaica. Os nabateus eram árabes semi-nômades que viviam numa área que se estendia desde o Sinai e norte da Arábia, até ao sul da Síria e seus domínios incluíam as cidades de Hijr, Petra e Busra. Embora o império tenha acabado em 105 d.C, a língua e a escrita tiveram profundo impacto no desenvolvimento do alfabeto arábico.

A partir de de 650 d.C, foram consignadas, por escrito, as primeiras versões completas do Alcorão, numa forma denominada jazm, o alfabeto arábico mais antigo de que se tem referência. Acredita-se que era uma forma mais avançada do alfabeto nabateu. As letras rígidas, angulares e bem proporcionadas do alfabeto jazm iriam influenciar mais tarde o famoso alfabeto kufi, a escrita cúfica que se desenvolveu na cidade de Kufi, no Iraque. A escrita cúfica, de traço vigoroso e angular, durante séculos foi o meio mais popular de registro do Alcorão sagrado. Simultaneamente, desenvolveram-se outras escritas cursivas com fins burocráticos e privados, e, em meados do século X, já estavam fixadas as seis escritas clássicas da caligrafia islâmica: Thuluth, Naskh, Muhaqqah, Raihani, Tawqi e Riqa.


Instrumentos usados na caligrafia.

Os instrumentos típicos do ofício de calígrafo incluiam penas de junco e pincéis, tesouras, uma faca para cortar as penas, um tinteiro e um apontador. A pena de junco era a preferida pelos calígrafos muçulmanos. Esta pena, chamada de cálamo, ainda é um instrumento importantíssimo para o verdadeiro calígrafo. Os juncos mais procurados eram oriundos das terras costeiras do Golfo Pérsico. Os cálamos eram objetos valiosos e foram comercializados por todo o mundo islâmico. Um escriba versátil precisava de diferentes cálamos, a fim de alcançar os diferentes graus de delicadeza. Modelar um junco exigia do escriba habilidades excepcionais. Além disso, ele tinha que ter um conhecimento meticuloso de como identificar a melhor vareta que fosse adequada para uma boa pena, de como aparar as pontas e de como cortar as varetas exatamente no centro, a fim de que o corte tivesse metades iguais. Uma boa pena, o cálamo, era cuidadosamente guardada e, algumas vezes, passava de uma geração a outra. Outras vezes, ela era enterrada com o calígrafo quando ele morria.

As tintas empregadas eram de muitas cores, sendo as mais usadas o preto e o marrom porque a intensidade e consistência podiam variar bastante. A tinha feita pelos persas, hindus e turcos conservavam o frescor por mais tempo. A preparação da tinha levava muitos dias e envolvia complicados processos químicos. Por causa de seu poder de preservação do conhecimento e da possibilidade de levá-lo a todos os recantos do mundo, a tinta era comparada com a água e o calígrafo a uma pena nas mãos de Deus.



A escrita Naskh



Foi uma das primeiras a evoluir. Ganhou popularidade depois de ser redesenhada pelo famoso calígrafo Ibn Muqlah, no século X. O seu sistema abrangente de proporção deu à escrita naskh um estilo bem característico. Mais tarde, ela foi reformulada por Ibn al-Bawaab e outros, que a transformaram numa escrita digna do Alcorão - muitos exemplares do Alcorão foram escritos em naskh, mais do que qualquer outro tipo de escrita. Tendo em vista que é relativamente fácil de ler e de escrever, a escrita naskh teve grande aceitação por parte da população em geral.

A escrita naskh é normalmente feita com traços pequenos horizontais e as curvas são cheias e profundas, os traços retos e verticais e as palavras geralmente bem espaçadas. Atualmente, a naskh é considerada a escrita máxima para quase todos os muçulmanos e árabes em todo o mundo.

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso - em escrita naskh




A escrita kufi



A escrita kufi (cúfica) foi a escrita sagrada dominante nos primórdios do Islam. Ela foi criada nas cidades de Basra e Kufa, no Iraque, na segunda década da era islâmica (século VIII). Tinha medidas proporcionais específicas, juntamente com uma angulosidade e linhas quadradas bem pronunciadas. Essa escrita exerceu um profundo efeito em toda a caligrafia islâmica. Em contraste com as linhas verticais, a escrita kufi tem linhas horizontais que são prolongadas. É uma escrita consideravelmente mais larga do que alta. Ela foi escolhida para ser usada em superfícies oblongas. Com sua construção geométrica, a escrita kufi podia ser adaptada em qualquer espaço e material, desde os pequenos quadrados de seda até os monumentos arquitetônicos.

Como a escrita kufi não se sujeitava a regras rígidas, os calígrafos a empregaram sem qualquer esquema de concepção ou execução para as suas formas ornamentais. A escrita assumiu diversas formas, ora com um fundo floral, com desenhos geométricos, ou formas geométricas interligadas, inclusive círculos, quadrados e triângulos - formando palavras, etc. Essas versões foram aplicadas a superfícies de objetos arquitetônicos, incluindo superfície de estuque, madeira,metal, vidro, mármore, têxteis, etc.




A escrita thuluth



Foi a primeira escrita formulada no século VII, durante o califado omíada, mas só se desenvolveu completamente no final do século IX. Embora muito raramente tenha sido usada para escrever o Alcorão, a escrita thuluth gozou de enorme popularidade como uma escrita ornamental e foi muito usada para as inscrições caligráficas, títulos, cabeçalhos, etc. É ainda a mais importante de todas as escritas ornamentais.

Ela se caracteriza pelas letras curvas, apresentando pequenos traços, como farpas, na parte de cima das letras. As letras são ligadas e algumas vezes entrecortadas, produzindo, assim, uma fluência cursiva de grandes e complexas proporções. A escrita thuluth é conhecida por seus traços elaborados e por sua incrível plasticidade.


Surata Al-Fatiha, em escrita Thuluth



A escrita riq´ah



A escrita riqa, também chamada de ruq´ah, evoluiu das escritas naskh e thuluth. Ainda que tenha uma afinidade maior com a escrita thuluth, a escrita riq’ah tomou uma direção diferente, ficando mais simplificada. As formas geométricas das letras são semelhantes às da thuluth, porém menores e com mais curvas. Ela é arredondada e estruturada de uma forma mais densa, com pequenos traços horizontais.

A escrita riq´ah foi uma das favoritas dos calígrafos otomanos e sofreu muitas modificações nas mãos do shaikh Hamdullah al-Amasi. Mais tarde, ela foi revista por outros calígrafos até transformar-se na escrita mais popular e a mais amplamente usada. Hoje, a escrita riq’ah é a preferida para a caligrafia no mundo árabe.


Hadice em escrita riq’ah


As escritas cursivas também foram rapidamente utilizadas para a transcrição do Alcorão, trazendo novas possibilidades de efeitos decorativos. E surgiram, assim, as outras quatro escritas importantes: Tumar, Ghubar, Taliq e Nastaliq, que, embora não fossem populares entre os árabes, foram durante quase quatro séculos a escrita favorita dos muçulmanos do Irã, Turquia e Índia.


A escrita taliq


Escrita Taliq


Acredita-se que foi uma escrita desenvolvida pelos persas, de uma antiga e pouco conhecida escrita árabe, chamada firamuz. A escrita taliq, também chamada de farsi, é uma escrita cursiva modesta, aparentemente em uso desde o início do século IX. Atualmente, ela goza de aceitação entre os árabes e é o estilo caligráfico entre os muçulmanos persas, hindus e turcos.


A escrita nastaliq

O calígrafo persa Mir Ali Sultan al-Tabrizi desenvolveu uma variedade mais leve e elegante de estilo que ficou conhecida como nastaliq. No entanto, os calígrafos persas e turcos continuaram a usar o taliq como escrita para as ocasiões especiais. Nastaliq é uma palavra composta que deriva de naskh e de taliq. A nastaliq foi muito usada nas antologias, épicos, miniaturas e outros trabalhos literários, mas não para o Alcorão.

Os exemplos de caligrafia como motivo ornamental encontram-se por todo o lado: nas pedras dos túmulos e nos têxteis, nas ânforas, nas armas, nos azulejos e na decoração dos edifícios.

FONTE:
"As origens da Caligrafia Arábica" - Khalid Mubireek

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