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A Espanha Islâmica - Parte 2

Por Mônica Muniz

OS ALMOADAS NA ANDALUZIA

Os almoadas invadiram a península e reconstruíram pela segunda vez a unidade andaluza, tornando-a independente do Marrocos. Também foram bem sucedidos em suas tentativas de conter o avanço cristão. Foram os responsáveis pela maior vitória militar contra o rei de Castela, em Alarcos.

Sob a dinastia almoada o comércio andaluz floresceu e Sevilha tornou-se a capital do mundo islâmico ocidental. No entanto, o fanatismo religioso e a intolerância incondicional trouxeram insatisfação à população. Averróes, o famoso filósofo, teve seus livros queimados e não fosse a iniciativa de seus discípulos em preservar sua obra, muito teria sido perdido.

Enquanto isso, Castela, Navarra e Aragão uniam-se contra os almoadas, que foram derrotados na batalha decisiva de Al Uqab. Esta vitória garantiu aos cristãos passagem pelo rio Guadalquivir.

Em 1224, pela terceira vez a Andaluzia sofreu mais uma fragmentação política. Foram instalados uma série de pequenos reinos "taifas", onde predominavam as tensões e lutas internas que viriam a enfraquecer definitivamente a Andaluzia, frustrando qualquer tentativa de impedir o avanço cristão.

As sucessivas conquistas alcançadas por Castela e Aragão reduziram a Espanha muçulmana aos domínios de Granada. Como um estado vassalo de Castela, a dinastia nasrida de Granada administrou o reino por cerca de dois séculos e meio. Embora sua importância política fosse pequena no comércio e nas artes, o califado de Granada alcançou grande prestígio. Finalmente, em 1492 , os reis católicos sitiaram a cidade de Granada, cumprindo o último estágio da Reconquista Espanhola e pondo um fim ao domínio muçulmano na península.


ESPANHA MUÇULMANA
Períodos almorávida e almoada



CONTRIBUIÇÕES DA ESPANHA ISLÂMICA

Para a civilização ocidental, as contribuições da Espanha islâmica foram de valor inestimável. Quando os muçulmanos entraram no sul da Espanha, os bárbaros do norte tinham devastado grande parte da Europa, a civilização clássica greco-romana tinha desaparecido e a Europa vivia um longo período de trevas imposto pela Igreja. Os muçulmanos da Espanha construíram uma civilização e produziram uma cultura que foi a mais sofisticada durante a Idade Média. A Espanha islâmica foi a ponte pela qual todo o legado científico, tecnológico e filosófico da antiguidade, dos abássidas e da própria cultura islâmica, foi passado para a Europa. Um tesouro que ficou materializado em obras que tornaram-se fontes inesgotáveis de conhecimento e aprendizado dos europeus por muitos séculos.

No primeiro século de governo muçulmano, a cultura foi fortemente influenciada pela próspera civilização que se desenvolveu em Bagdá, sob a égide dos abássidas. Mas foi no século X, durante o reinado de Abdul Rahman III (912-961), que a Espanha islâmica atingiu o seu apogeu e começou a apresentar suas próprias realizações. O comércio e a agricultura progrediram, as artes e as ciências tiveram grande estímulo por parte do estado e Córdoba tornou-se a mais sofisticada cidade européia. Abdul Rahman III, um apaixonado pela religião e pelas ciências seculares, estava determinado a mostrar ao mundo que sua corte em Córdoba igualava-se em grandeza à dos califas de Bagdá. Sem poupar esforços, tempo ou dinheiro, ele importou livros de Bagdá e recrutou sábios, poetas, filósofos, historiadores e músicos, e todos acorreram a Al-Andalus em busca de espaço para expressarem seus talentos. Ele construiu uma infra-estrutura composta de bibliotecas, hospitais, instituições de pesquisa e centros de estudos islâmicos, criando a tradição intelectual e o sistema educacional que tornariam a Espanha um centro de referência pelos quatro séculos seguintes.

No século X, Córdoba podia orgulhar-se de ter uma população de mais de 500.000 habitantes. A cidade possuía 700 mesquitas, perto de 60.000 palácios e 70 bibliotecas, sendo que uma delas abrigava 500.000 manuscritos e uma equipe de pesquisadores, tradutores e encadernadores. Córdoba também possuía 900 casas de banho e foi a primeira cidade européia a ter suas ruas iluminadas. Madinat al-Zahra, a residência do califa, era um complexo de mármore, estuque, marfim e ônix e foi considerada, até ser destruída no século XI, uma das maravilhas da época.


Casa de Banhos


O interesse pelas ciências da natureza começou a ser desenvolvido em Al-Andalus a partir do século XI. Os sábios muçulmanos entendiam que o conhecimento da natureza era uma forma de elevação a Deus. Os estudos iam da física à música, então considerada um ramo da teoria matemática, passando pela botânica, zoologia, astronomia, geografia, história, e, sobretudo, filosofia e medicina. Enquanto a Europa mergulhava em completa escuridão, o mundo muçulmano entrava em sua fase mais brilhante, que ficou conhecida como a Idade de Ouro do Islam. Trabalhos de filósofos e médicos gregos foram traduzidos para o árabe, e depois para o latim, e livros sobre medicina e oftalmologia foram adotados pelas universidades européias até o século XVI. Mas, foi no campo da matemática que eles se sobressaíram. Inventaram a álgebra, a trigonometria, os logarítmos e os cálculos trigonométricos, o seno e o coseno, tangente e cotangente, que abriram caminho para a ciência moderna.

Um dos primeiros sábios a chegar em Al-Andalus foi 'Abbas ibn Firnas, que veio para ensinar música. Ele não se limitou a um único campo de estudo e logo começou a investigar a mecânica do vôo. Construiu um par de asas presas a uma estrutura de madeira e fez a primeira tentativa de voar, antecipando-se a Leonardo da Vinci em mais ou menos seiscentos anos. Mais tarde, construiu um planetário, que era mecanizado e simulava fenômenos meteorológicos, como raios e trovões.

Al-Zarqali, conhecido no ocidente como Arzaquel, foi um notável matemático e astrônomo que viveu em Córdoba, no século XI. Combinando o conhecimento teórico com a habilidade técnica, construiu instrumentos astronômicos e um relógio d'água, capaz de determinar as horas do dia e da noite e de indicar os dias dos meses lunares, de fundamental importância para a determinação do calendário religioso dos muçulmanos. Contribuiu ainda para as famosas Tabelas Toledanas, uma compilação apuradíssima de dados astronômicos.

Um outro sábio importante foi al-Bitruji, que desenvolveu uma nova teoria do movimento estelar, baseado no pensamento de Aristóteles, exposto no Livro da Forma, um trabalho de grande circulação mais tarde no ocidente. Os nomes de muitas estrelas ainda são aqueles dados pelos astrônomos muçulmanos, como Altair (de al-tair, "aviador"), Betelgeuse (de bait al-jawza, "a casa dos gêmeos"), além de outros termos ainda em uso, como zenith, nadir e azimut.

Cientistas da Espanha islâmica também contribuiram para a medicina, a ciência islâmica por excelência, e embora os maiores clínicos muçulmanos estivessem em Bagdá, os de Al-Andalus não ficaram atrás. Ibn al-Nafs, por exemplo, descobriu a circulação sanguínea do pulmão. Abu-al-Qasim al-Zahrwi, o mais famoso cirugião da Idade Média, foi autor do Tasrif, um livro que, traduzido para o latim, tornou-se texto médico obrigatório nas universidades européias. Na parte dedicada à cirurgia, são encontradas ilustrações de instrumentos cirúrgicos extremamente práticos e de grande precisão. Ibn Zuhr, conhecido como Avenzoar, um clínico habilidoso, foi o primeiro a descrever abcessos pericardiais e a recomendar a traqueostomia quando necessário. O último dos grandes médicos andaluzes, Ibn al-Khatib, também famoso historiador, poeta e estadista, escreveu um livro importante sobre a teoria do contágio, onde ele diz: "A infecção fica clara para o investigador quando ele, não estando em contato, permanece a salvo", e descreveu como se dá a transmissão das doenças através de roupas, recipientes e brincos.

A Espanha islâmica também contribuiu para a ética médica e a higiene. Um dos mais eminentes teólogos e juristas, Ibn Hazm, insistia em que as qualidades morais eram obrigatórias para qualquer clínico. "Um médico", escreveu ele, "deve ser gentil, compreensivo, amigo e capaz de suportar insultos e a crítica adversa. Além disso, deve ter cabelos e unhas curtos, vestir roupas limpas e comportar-se com dignidade."

Os cientistas andaluzes também se interessaram por botânica. Ibn al-Baytar, por exemplo, botânico, escreveu um livro chamado "Drogas Simples e Alimento", um compêndio em ordem alfabética das plantas medicinais, muitas das quais eram nativas da Espanha e do norte da África. Em outro tratado, Ibn al-'Awwam listou cem espécies de plantas e deu instruções precisas a respeito de seu cultivo e uso. Ele escreveu, por exemplo, sobre como enxertar plantas, produzir híbridos, acabar com a ferrugem e outras pragas e como fazer perfumes.

A Andaluzia destacou-se também no estudo da geografia. Curiosa sobre o mundo e seus habitantes, a Espanha islâmica começou com os trabalhos de Bagdá e prosseguiu por conta própria, acrescentando outras contribuições, como a geografia básica da Andaluzia, de Ahmad ibn Muhammad al-Razi, e uma descrição da topografia do norte da África, de Muhammad ibn Yusuf al-Warraq. Um outro geógrafo foi al-Bakri, um ministro importante da corte de Sevilha, lingüista ilustre e literato. Um de seus dois mais importantes trabalhos sobre geografia é voltado para a península arábica.

Ainda no campo da geografia, o mais respeitado foi Ibn Battuta. Nascido no norte da África, então dentro da esfera cultural da Espanha islâmica, viajou por 28 anos e escreveu um livro sobre suas viagens, e que foi uma rica fonte de consulta tanto para historiadores como para geógrafos. Incluía informações preciosas sobre povos, lugares, navegação, rotas de caravans, estradas e até hospedagens. Um outro geógrafo importante foi Al-Idrisi, que estudou em Córdoba. Depois de viajar muito, Al-Idrisi se estabeleceu na Sicília e escreveu uma geografia do mundo, que ficou conhecida como o Livro de Roger, por causa de seu padrinho Roger II, o rei normando da Sicília. As informações contidas no Livro de Roger também foram gravadas num planisfério de prata, um mapa em forma de disco, considerado uma das maravilhas da época.


O planisfério de Al-Idrisi.
considerado o primeiro mapa científico do mundo


Inúmeros sábios em Al-Andalus também se devotaram ao estudo da história e das ciências lingüisticas. O espírito mais original do período, no entanto, foi Ibn Khaldun, o primeiro historiador a desenvolver e a explicar as leis gerais que regem a ascensão e declínio das civilizações. Em seus Prolegômenos, uma introdução à enorme história universal de sete volumes, ele abordou a história como uma ciência e desafiou a lógica de muitos relatos históricos até então aceitos. Num certo sentido ele foi o primeiro filósofo moderno de história.


Ibn Khaldun


Uma outra área de intensa atividade intelectual foi a filosofia, onde houve uma tentativa de conciliar os problemas intelectuais surgidos com a introdução da filosofia grega no contexto islâmico. Um dos primeiros a lidar com a questão foi Ibn Hazm, além de Ibn Bajjah, que era médico, e Ibn Tufayl, o autor de Hayy ibn Yaqzan, a estória de um menino que cresceu em completa solidão numa ilha deserta e que, por seus próprios esforços, descobriu as mais elevadas realidades físicas e metafísicas. Mas, foi Ibn Rushd, conhecido como Averróes no ocidente, quem alcançou a mais notável reputação. Ele nasceu em Córdoba e foi qadi nas cortes de Sevilha e de Córdoba. Era um aristotélico apaixonado e sua obra traduzida para o latim teve um impacto importante sobre o desenvolvimento da filosofia ocidental. Durante 500 anos seus livros foram adotados nas universidades do ocidente e do oriente. Por sua importância, principalmente para o ocidente, Averróes exigiria um capítulo à parte.

Averróes


Além das realizações nos campos da matemática, economia, medicina, botânica, geografia, história e filosofia, Al-Andalus também desenvolveu e aplicou importantes inovações tecnológicas: o moinho de vento e as novas técnicas para o trabalho em metal, tecelagem e construção, a cartografia e a confecção de instrumentos de navegação que possiblitariam as grandes navegações por espanhóis e portugueses, no final do século XV e início do século XVI.

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