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Alemanha envia refugiados de volta ao Kosovo

INTOLERÂNCIA -- The New York Times -- 21/11/2000
Alemanha envia refugiados de volta ao Kosovo

Roger Cohen

MUNIQUE - A menina é pálida e tem olhos verdes, com cabelos louros que vão até os seus ombros. Ela tem agora 12 anos e chegou à Alemanha, vinda do Kosovo, há quase dois anos. Ela já fala alemão de forma quase perfeita. Sentindo-se em casa na sua terra adotiva, ela é o que se poderia chamar de um modelo de imigrante, brilhante e integrada.

Mas Lumturije Bytyqi deve ser deportada da Alemanha nesta segunda-feira (20). Ela terá que partir com seus dois irmãos, de 15 e nove anos, e os pais. Eles receberam ordens das autoridades para se reunirem do lado de fora de sua casa para candidatos a asilo, em Munique, a fim de serem transportados ao aeroporto, onde um vôo especial para Pristina, a capital do Kosovo, estará aguardando a família de Bytyqi e outras na mesma situação.

"Eu gosto da minha vida aqui", diz a garota, sentada em um quarto onde as malas que estão sendo preparadas para a viagem se empilham em um canto. "Não foi difícil aprender alemão. Mas agora eu estou sendo mandada de volta e não entendo porque". O seu pai, Zymber, um homem envelhecido e com a barba por fazer, afirma que o único plano da família, tão logo chegue ao Kosovo, é "sobreviver de alguma forma ao frio do inverno".

Para as autoridades alemãs, esse é um caso típico. A família Bytyqi, assim como outros 160 mil kosovares albaneses, foi recebida na Alemanha com o status de refugiada devido à perseguição étnica e à guerra. Agora a guerra acabou e os kosovares têm que voltar para casa. "As alternativas legais foram todas esgotadas", diz Stefanie Weber, funcionária do Departamento do Interior da Baviera. "Eles têm que ir embora".

A palavra deportação se tornou um tabu na Alemanha, desde Hitler, e nenhum funcionário do governo daqui seria capaz de usar o termo "deportieren". Mas as partidas, forçadas ou não, têm aumentado em ritmo intenso no sul do Estado da Baviera, onde cerca de 22 mil albaneses kosovares se encontravam no início deste ano.

Desses, 16 mil já partiram, segundo Hermann Weishaupt, funcionário que trabalha no setor de estrangeiros. Cerca de 12 mil embarcaram em vôos de volta ao Kosovo "voluntariamente". Outros três mil escolheram livremente voltar por terra. E mil foram "mandados de volta".

Essa medida drástica, e as contorções lingüísticas ditadas pela história que cerca a situação, ilustra o clima pesado de um debate que se intensifica sobre o problema da imigração na Alemanha, o país europeu mais populoso e com o maior número de imigrantes - atualmente cerca de sete milhões.

Assim como em outros locais na Europa, o debate aqui se centra na questão de saber se estrangeiros como os Bytyqi devem ter permissão para ficar e, se tiverem essa permissão, até que ponto eles devem se adaptar à cultura local. A discussão se aprofunda: Será que a Alemanha, onde a nacionalidade há muito está associada a linhas de sangue, e onde a tradição sempre foi mais de emigrar do que de promover a integração de forasteiros, consegue enxergar a si própria como uma "terra de imigrantes"?

Essas questões refletem o que é no momento o fator fundamental de divisão em vários países europeus, acentuado na Alemanha, tanto pelo seu passado quanto pelo tamanho da sua minoria estrangeira.

De um lado se encontra um grupo ressurgente de patriotas, furiosos com aquilo que percebem como sendo uma diluição da nacionalidade alemã, através do influxo de estrangeiros. Em outro extremo estão os alemães "europeus", forjados por uma cultura de pós-guerra que afirma que o Estado nacional alemão morreu com Adolf Hitler e que o único futuro para o país se encontra em uma unidade multicultural formada pela União Européia.

Neste mês, o partido mais forte da Baviera, a União Social Cristã, que é aliada do oposicionista Partido Democrata Cristão, tornou pública a sua opinião de forma clara. "A Alemanha não é um país clássico de imigração e não deve vir a sê-lo no futuro", disse o comunicado do partido.

O partido acrescentou que todo estrangeiro na Alemanha tem que se adaptar a chamada "Leitkultur", ou "cultura guia", que é definida como tendo "fundações européias ocidentais de valores enraizados na Cristandade, no Iluminismo e no humanismo".

Levando-se em conta que mais de dois milhões de turcos na Alemanha são muçulmanos, assim como a maioria dos kosovares (embora poucos sejam muito religiosos), a referência a uma cultura guia ocidental e cristã soou como uma provocação.

Mas uma linguagem similar foi usada recentemente por vários políticos democrata cristãos. Laurenz Meyer, o novo secretário-geral do partido, declarou neste mês, "Sinto orgulho de ser alemão" - exatamente a mesma linguagem usada em várias faixas de partidos de extrema direita.

As reações foram intensas, incluindo uma explosão extraordinária de fúria neste mês da parte de Paul Spiegel, líder da maior associação de judeus alemães. "Que conversa é essa sobre cultura guia?", questionou Spiegel. "Será uma cultura guia alemã para caçar estrangeiros, incendiar sinagogas e matar pessoas sem teto? Qual é o objetivo de transformar a questão de imigração em um tema de campanha, de vir com essa ladainha sobre estrangeiros úteis e inúteis?".

Spiegel estava se referindo a um pequeno grupo de direitistas alemães que, neste ano, cometeu os atos descritos por ele, e à discussão sobre como impedir a entrada de estrangeiros profissionalmente não qualificados, como os Bytyqis, e ao mesmo tempo promover a captação de imigrantes com alto nível de escolaridade, a fim de dinamizar as indústrias de alta-tecnologia. Mas a sua ira reflete o crescente desconforto pelo qual passa a Alemanha.

Danijela Karic, filha de imigrantes que vieram da Iugoslávia para a Alemanha nos anos 60, através do antigo programa do país chamado de "gastarbeiter" (trabalhador convidado), hoje trabalha no Departamento do Interior da Baviera, o Estado alemão mais católico e conservador. Ela não tem dúvida alguma sobre a sua atual missão de mandar os kosovares albaneses de volta a suas casas.

"Não dá para comparar os motivos pelos quais gente como os meus pais vieram para cá, com aqueles que fizeram com que os kosovares viessem parar aqui", diz ela. "O meu pai veio como um trabalhador convidado, com o propósito de trabalhar na Alemanha por alguns anos e depois retornar à sua terra natal. Mas ele possuía o desejo de ficar e a disposição para aprender a língua e aceitar as leis básicas da sociedade alemã. Já os kosovares não estão trabalhando, a guerra acabou, e a sociedade alemã os está sustentando".

Um colega de Karic, Michael Ziegler, acrescenta que a própria Alemanha é um local muito diferente do país dos anos 60, quando a economia estava em grande expansão. Ele pergunta como é que se pode ter "trabalhadores convidados" nos dias de hoje, quando mais de três milhões de alemães estão desempregados.

Segundo ele, no Canadá, Austrália e nos Estados Unidos a presença dos imigrantes era desejada e necessária "para civilizar o país". Mas, segundo Michael, no caso da Alemanha, o que ocorre é o oposto. Ziegler acha que há o perigo de que o país perca a sua civilização, tornando-se um local onde pessoas de culturas diferentes vivem umas ao lado das outras, sem nenhum vínculo maior.

Tudo o que os Bytyqis sabem é qual será o seu destino imediato: o retorno forçado ao Kosovo, onde as suas casas foram destruídas pelos sérvios, e onde não existem empregos. Zymber Bytyqi leva uma bolsa cheia de correspondências oficiais que o informaram repetidamente que os seus pedidos de asilo haviam sido rejeitados.

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