HISTORIANET

Atualidades

O Crescimento do Islam e o Taleban

Por Mônica Muniz

Dizer que o Islam é a religião que mais cresce no mundo já é consenso. Com quase um bilhão e meio de adeptos espalhados pelo mundo, os muçulmanos representam perto de 25% da população mundial e não dá mais para dizer que eles não são uma realidade social, política e religiosa. Muito se fala sobre o Islam, mas pouco se sabe sobre ele. Em recente pesquisa realizada pelo HISTORIANET sobre a expansão do Islam, em um universo de mais de 650 pessoas, 48,1% manifestaram a opinião de que o Islam representa uma ameaça para o imperialismo americano. Trata-se de um percentual elevado que só demonstra como o preconceito existe e como está enraizado em nós. Desde cedo somos direcionados no sentido de ver o Islam como uma ameaça, seja política, religiosa ou social. No nosso imaginário, Islam é sinônimo de fanatismo, terrorismo. Um avião que cai, um prédio que explode, logo somos induzidos a achar que se trata de obra de algum muçulmano árabe fanático, em plena "guerra santa" contra o ocidente.



Um dos erros mais comuns é a associação que se faz do Islam com a cultura árabe. Apesar de o Islam ter surgido na península arábica, e de ter na língua árabe - a língua do Alcorão - o fator de unidade, atualmente os árabes representam uma minoria nesse universo, menos de 18% do total. O próprio uso da palavra "árabe" expressa um preconceito, pois coloca sob o mesmo denominador, africanos, curdos, persas, turcos. Desconhecemos suas origens, suas culturas, suas tradições, as particularidades específicas de cada povo. Muito do que é passado pela mídia traz o viés do etnocentrismo, nós, o ocidente, civilizados, cultos, eruditos, belos e formosos, e eles, o oriente, a barbárie, a ignorância, o atraso. Como no século XIX, continuamos a impor a nossa maneira de ver o mundo, os nossos valores, nossa cultura, estes sim, verdadeiros e legítimos. Estranhamente apagamos de nossa memória o fato de que muito do nosso cotidiano é devido à cultura islâmica que dominou o mundo por muito tempo.

Esta postura, em grande parte, deve-se a uma política colonialista européia, iniciada no século XIX, que, ao "levar a civilização aos povos bárbaros", na verdade representou um processo contínuo de apartheid, exploração, expropriação e genocídio. Muitas das questões que afligem o mundo contemporâneo têm origem nessa política de dominação.


Meca


Contrariamente ao que se pode pensar, o Islam reconhece, entende e aceita a existência dos diferentes povos. Em um de seus versículos, o Alcorão, o livro sagrado do muçulmano, diz que os homens foram criados em nações para que se conhecessem e se compreendessem e não para que fossem inimigos. Em seu "Sermão da Despedida", o profeta Mohammad, cujo exemplo de vida é seguido por todos os muçulmanos, disse que um árabe não é superior a um não árabe, nem um não árabe é superior a um árabe; o branco não é superior ao negro, nem o negro tem qualquer superioridade sobre o branco, exceto quanto à temência a Deus; que os homens têm certos direitos em relação às mulheres, mas elas também têm direitos sobre os homens

Quanto à mídia, esta faz a sua parte, limitando a nossa forma de compreender o mundo aos padrões convencionados como "civilizados". Salienta o que é estranho à cultura ocidental e esconde o que efetivamente acontece naquelas regiões. Enfatiza as proibições, as restrições impostas às mulheres, enfim, o aspecto exterior da questão, sem estabelecer uma relação de causa e efeito dos acontecimentos, sem definir o que são costumes e tradições e o que é verdadeiramente islâmico. Sob essa ótica, para o ocidente, tudo é esquisito no Islam, e do ponto de vista da aparência externa, não há muita diferença do Afeganistão para a Arábia Saudita ou a Jordânia, muito embora Arábia Saudita e Jordânia se alinhem politica e ideologicamente com o ocidente.

Vivemos num mundo globalizado, e por isso, altamente interdependente. As transformações no oriente e no ocidente influenciam um e outro profundamente. De um lado, temos os muçulmanos querendo recuperar-se dos efeitos perversos do colonialismo e sua sociedade exigindo mudanças sociais e politicas, mas qualquer mudança põe em perigo a correlação de forças atual. Do outro lado, as grandes potências se opõem a iniciativas que ponham em cheque sua hegemonia política, e os países dependentes, temendo perder uma soberania recém conquistada, vêem com desconfiança qualquer tentativa por parte de quem, até bem pouco tempo, era o opressor. A preocupação humanitária em relação à condição da mulher muçulmana é muitas vezes acompanhada por um discurso que sataniza o Islam, o que faz com que os muçulmanos fiquem mais desconfiados ainda. As consequências desses embates, cultural, político e social, invariavelmente acabam repercutindo na mulher, o elo mais fraco dessa corrente.

O caso do Afeganistão, mais em evidência, chega até nós sob a forma de aberração. No entanto, não nos ensinam que se trata de um país que vem de uma história de invasões, ocupação soviética por mais de 10 anos, que desestruturou sua economia, que sua população vive sob um cotidiano de guerra constante, uma vez que o Taleban não detém o controle total do país, que existe uma luta interna de poder entre facções muçulmanas. Como se não bastasse, os Estados Unidos acusaram o rico empresário saudita Osama bin Laden de estar envolvido nos atos de terrorismo contra as suas embaixadas no Quênia e na Tanzânia. Quando o regime do Taleban se recusou a entregar bin Laden aos Estados Unidos, a ONU, em represália, impôs pesadas sanções ao Afeganistão, cujos ônus, como sempre, recaem sobre a população indistintamente, homens, mulheres, crianças.

Quando o Taleban usa a retórica ideológica para privar a mulher muçulmana do acesso à educação básica, a mídia ocidental condena, e com razão. Afinal, há 14 séculos o Islam assegurou direitos sociais e econômicos que objetivaram garantir igualdade entre homens e mulheres, inclusive o acesso igual à educação, o direito de expressão, de propriedade, de voto. Mas, não tem razão quando define as restrições impostas à mulher afegã como parte da doutrina islâmica. O Islam não é a prática que dele fazem alguns muçulmanos. A crítica ao Taleban, assim, transforma-se num pretexto para condenar os legítimos movimentos islâmicos em geral, e mostrar ao ocidente que o Islam é incompatível com as modernas exigências sociais e políticas e que nada poderia ser pior do que uma sociedade fundada nos princípios islâmicos.

Na verdade, grupos como o Taleban, em nada diferem de tantos outros espalhados pelo mundo, na medida em que são o resultado das condições incertas do mundo moderno. Movimentos semelhantes podem ser encontrados em outros países e entre as muitas religiões do mundo e não imaginamos que eles possam ameaçar a hegemonia das grandes potências. Os cristãos americanos que bombardeiam clínicas de aborto, hindus que atacaram a mesquita de Babri, e que estão de olho nas inúmeras mesquitas espalhadas pela Índia, judeus ultra-ortodoxos que atiram pedras em mulheres que andam pelas ruas vestindo calças ou mangas curtas, enfim, todos são a expressão contemporânea da intolerância e, nesse sentido, têm mais em comum com o Taleban do que eles (ou o Taleban) percebem, e muito menos a ver com o Islam, como somos levados a supor.

Todos esses movimentos, apesar de suas diferenças externas, são uma reação às dramáticas mudanças sociais, políticas e econômicas que vêm ocorrendo nos últimos 150 anos. As transformações são rápidas, adquiriram uma dinâmica própria e estão além do controle das pessoas comuns. Os muçulmanos em geral acalentam o sonho do estado islâmico, mas percebem que esse sonho vai ficando cada vez mais distante, diante do avanço inexorável de uma civilização global secular agressiva e teconologicamente mais avançada. Em seu movimento de reação, esses grupos acabam por enfatizar o lado material, porque mais fácil de ser controlado e de ser imposto ás pessoas. Na verdade, a violência do Taleban contra os que desrespeitam as regras não deixa de ser a implementação da moderna visão de que a interferência do estado na vida das pessoas é a resposta para a maior parte dos problemas sociais.

Mas, certamente o Islam não é isso e a prova é toda sua história de tolerância e convivência pacífica com as diversas culturas com as quais ele interagiu no decorrer dos séculos.

Pesquisar em
1132 conteúdos

Notícias

França e Alemanha lembram 100 anos da Primeira Guerra

Presidentes Hollande e Gauck homenageiam mortos nas batalhas e destacam importân

Livros

O capitalismo como religião

apresenta um recorrido por ensaios do filósofo Walter Benjamin, organizado e int

Notícias

Série refaz a trajetória de líderes da Segunda Guerra

'Guerras Mundiais', que estreia no History Channel, mostra a participação de Hit

Notícias

Vou passar no ENEM

Acompanhe as orientações e dicas para enfrenar esse desafio

COPYRIGHT © HISTÓRIANET INTERNETWORKS LTDA

PRODUZIDO POR

SOBRE O HISTORIANET