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Movimento quer reabilitar a suástica

SOCIEDADE - The NY Times -- 09/07/2000
Sarah Boxer


É uma questão simples: a suástica pode ser redimida?

Antes do Partido Nazista adotar a suástica e transformá-la em um dos maiores ícones do ódio racial, ela atravessou o mundo como um símbolo de boa sorte. Era conhecida na França, Alemanha, Grã-Bretanha, Escandinávia, China, Japão, Índia e nos Estados Unidos. Costumava-se dizer que as pegadas do Buda eram suásticas. Cobertores dos índios navajos eram tecidos com suásticas. Sinagogas no Norte da África, na Palestina e em Hartford, Connecticut, foram construídas com mosaicos de suásticas.

Agora há um pequeno movimento que tenta ajudar "a suástica a recuperar seu lado benigno", separando-a dos "pecados do nazismo". Será que isto é possível?

O nome suástica vem da palavra em sânscrito svastika, que significa bem-estar e boa fortuna. As mais antigas suásticas conhecidas datam de 2.500 ou 3.000 A. C. na Índia e na Ásia Central. Um estudo de 1933 sugere que a suástica migrou da Índia, cruzou a Pérsia e a Ásia Menor até a Grécia, depois seguindo para a Itália e em seguida para a Alemanha, provavelmente no primeiro milênio A. C.

O elo fatal foi feito pelo arqueólogo alemão Heinrich Schliemann. De 1871 a 1875, Schliemann escavou o local da cidade de Tróia, dos tempos de Homero, na costa do estreito de Dardanelos. Quando ele encontrou artefatos com suásticas, ele rapidamente as associou com as suásticas que tinha visto nas proximidades do Rio Oder na Alemanha. Steven Heller, diretor de arte do The New York Times Book Review, escreve em "The Swastika: Symbol Beyond Redemption" (a suástica: símbolo além da redenção): "Schliemann presumiu que a suástica era um símbolo religioso de seus ancestrais alemães, que ligava os antigos teutões, a Grécia de Homero e a Índia védica"

Logo as suásticas estavam por toda a parte, rodando tanto no sentido horário quanto no anti-horário. Madame Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica, incluiu a suástica no selo da sociedade. "Rudyard Kipling combinou a suástica com sua assinatura em um círculo como um logo pessoal", informa Heller. E a suástica fazia parte do logo do movimento Bauhaus, sob Paul Klee.

A suástica também se espalhou até os Estados Unidos. A Coca-Cola lançou um pingente de suástica. A cerveja Carlsberg gravou suásticas em suas garrafas. Durante a Primeira Guerra Mundial, a 45a Divisão de Infantaria americana usava uma suástica laranja como um emblema no ombro. Pelo menos uma linha ferroviária possuía suásticas em alguns de seus vagões. O Girl’s Club publicou uma revista chamada The Swastika (a suástica). E até 1940, os escoteiros distribuíam um distintivo de suástica.

Como os nazistas se apoderaram dele? Segundo Heller, a ordem Germanen, um grupo anti-semita que usava capacetes com chifres de Wotan e tramava "contra os elementos judeus na vida alemã", usava como insígnia uma suástica curvada em uma cruz. Em 1914, o Wandervogel, um movimento juvenil alemão, o transformou em seu emblema nacionalista.

O Partido Nazista não se apossou dela até por volta de 1920. Em seu livro "Mein Kampf", Hitler, que tinha aspirações artísticas tanto quanto políticas, descreveu "sua luta para encontrar o símbolo perfeito para o partido". Ele se entreteu com a idéia de usar as suásticas. Mas foi Friedrich Krohn, um dentista de Starnberg, quem desenhou a bandeira com a suástica preta em seu centro. "A maior contribuição de Hitler", escreve Heller, "foi inverter a direção da suástica" para que ela parecesse girar no sentido horário.

A queda da suástica foi tão rápida quanto sua ascensão. Em 1946, sua exibição pública foi proibida constitucionalmente na Alemanha. Nos Estados Unidos, nunca houve uma lei que proibisse a exibição de suásticas, mas a aversão ainda persiste.

A pergunta agora é: a suástica pode ser retomada dos nazistas ou, como argumenta Heller, continuar a representar seus "crimes inomináveis"?

A questão é complicada pela história da suástica na Índia e em outras partes da Ásia, onde ela não possui nenhuma das conotações que ela tem no Ocidente. Na Índia, há o sabão Suástica; na Malásia, um estúdio fotográfico Suástica; no Japão, há cards de Pokémon que possuem o "manji", as suásticas anti-horárias; na China, a seita Falun Gong usa as suásticas anti-horárias como seu emblema.

E agora as suásticas estão voltando a serem vistas no Ocidente.

Nos anos 1960, por exemplo, a suástica era motivo recorrente na arte abstrata geométrica e nas pinturas hard-edge, notavelmente em uma exposição no Museu Guggenheim.

Mas o esforço mais coordenado para redimir a suástica vem dos Friends of the Swastika (Amigos da Suástica), um grupo formado em 1985 e sediado nos Estados Unidos. O grupo, cujo site na Internet promete "não ter nenhum vínculo com nenhuma propaganda racista" e nenhuma intenção de negar o Holocausto, é liderado por um artista chamado ManWoman (homemmulher) que alega ter 200 suásticas tatuadas em seu corpo. De forma a "desintoxicar" e "ressantificar" a suástica, o grupo vende camisetas, selos, cartões postais e "outras coisas legais" com suásticas. O lema deles é "To hell with Hitler!" (que Hitler vá para o inferno).

E segundo eles, o trabalho já está funcionando. "A suástica está reemergindo na cultura pop alternativa... no mundo do punk rock, nos cultos de discos voadores, e nas gangues de rua". Há adolescentes usando suásticas apenas por achá-las legais.

"No filme ‘O Dorminhoco’ de 1973", nota Heller, "Woody Allen previu sarcasticamente que em um futuro distante, a suástica seria vestida como um acessório de moda". O futuro distante é agora.

Ela se tornou um ícone de rebelião. O logo dos skates ZZ Flex parece muito com uma suástica. O rótulo do CD de heavy metal Sacred Reich possui suásticas engrenadas. O logo da banda Kiss, que originalmente era formada por três membros judeus, foi feita para se parecer com a insígnia da SS - não uma suástica, mas dois esses paralelos parecidos com raios.

Será que importa o fato das suásticas terem representado a ignorância e o ódio e serem reabilitadas como símbolo? Claro que sim, diz Heller: "Os ícones nazistas foram fortes o suficiente para seduzir uma nação, e ainda contém um poder gráfico que pode ser liberado hoje". Os defensores da suástica respondem com uma pergunta: "Como um símbolo pode ser culpado pelos atos de um louco?"

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