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Etnocentrismo e Anacronismo no descobrimento do Brasil

Para o historiador Fernando Novais, professor aposentado do Departamento de História da USP e professor do Instituto de Economia da Unicamp, o ano de 1500 marca para a História do Brasil o surgimento das bases da colonização portuguesa, e nunca o descobrimento do Brasil. Autor de um dos principais clássicos da historiografia colonial - "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1801)" - Fernando Novais, em entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo em 24 de abril de 2000, enfatiza a crítica ao etnocentrismo e ao anacronismo presentes na história do Brasil com a viagem de Cabral.
Quando utilizamos o termo Descobrimento do Brasil, encontramos tanto etnocentrismo como anacronismo. O primeiro está presente na palavra Descobrimento e o segundo em Brasil. Para o historiador, o etnocentrismo encontra-se em nossa história, evidenciando a visão do conquistador, do vencedor, onde os portugueses seriam "o agente" e os índios "os descobertos", os protagonistas passivos do episódio. A crítica ao etnocentrismo porém, não deve nos levar à idéia de reconstituir a história do ponto de vista dos vencidos: "... nós não podemos nos transformar em índios. Uma coisa é fazer o estudo da visão dos índios e outra é reconstituir a história a partir do seu ponto de vista. A história precisa ultrapassar os pontos de vista do vencido e do vencedor e dizer alguma coisa a mais. Como nação, somos herdeiros dos europeus, dos índios e dos negros, mas todos não participam da mesma maneira na nossa formação. Um foi o vencedor e os outros foram os vencidos."
A questão do anacronismo é um pouco mais delicada, já que os historiadores não a discutem, como discutem o etnocentrismo. Para Fernando Novais, o anacronismo somente seria evitado se, no momento de reconstituir determinado segmento do passado, o historiador não soubesse o que aconteceu depois. "O historiador incorre no anacronismo quando ele imputa aos protagonistas o conhecimento sobre os acontecimentos posteriores. A reconstituição se torna uma profecia do passado."
O perigo do anacronismo é muito maior principalmente quando a nação, como objeto do discurso do historiador, precisa de passado para se legitimar. "Os franceses, por exemplo, vêem seu passado mais remoto na Gália romana. No caso do Brasil, reconstituir a viagem de Cabral como Descobrimento do Brasil pressupõe imaginar que ele já sabia que iria se reconstituir no século XIX uma nação com esse nome. Isso é anacronismo. E a viagem se torna fundadora, isto é, um mito."
Fernando Novais afirma que o Brasil é um povo que se constituiu numa nação, que posteriormente se organizou como Estado. Em 1500 não havia nenhuma dessas três coisas. Logo, não houve Descobrimento do Brasil, porque o Brasil não existia nem estava encoberto. Naquele momento surgiram apenas as bases da colonização portuguesa, que é a base da nossa formação. "A história do Brasil é essencialmente a de uma colônia que se transformou numa nação. Logo, a colonização é a base de nossa história e nesse sentido Cabral é importante."
Outra questão colocada na entrevista trata do momento em que a população começou a se pensar como diferente de seus antecessores. Esse sentimento da diferença do colonizador surge somente na segunda metade do século XVlll, como desdobramento de uma evolução natural à formação histórica do Brasil, onde a população, primeiro luso-brasileira, vai se sentindo menos lusa e mais brasileira até se sentir somente brasileira.
"Até o início do século XlX, ‘brasileiro’ era o comerciante do pau-brasil. É uma das diferenças entre os hispano-americanos e os luso-americanos. Na América Espanhola, desde o fim do século XVl, os espanhóis nascidos na colônia se chamavam de ‘criollos’.
Não há no Brasil palavra equivalente. Havia no Nordeste a palavra ‘mazombo’. A partir do século XVll usava-se por aqui a palavra ‘reinol’ para designar os portugueses nascidos em Portugal. Logo, diferentemente dos hispano-americanos que se identificavam por aquilo que julgavam ser (‘nossotros somos criollos’), os luso-americanos se identificavam negativamente por aquilo que sabiam não ser ( ‘ nós não somos reinóis ’ ). Isso é importante para compreendermos porque na América espanhola o processo foi muito mais revolucionário. Por aqui foi uma transição dinástica."
Nesses 500 anos que nos separam da expedição cabralina, é importante restabelecer o verdadeiro significado histórico da viagem de Cabral, reduzindo sua dimensão, ainda superestimada na história do Brasil. Em abril de 1500, Cabral apenas chegou em terras ocidentais e a partir daí, a intenção de Portugal sempre foi a de criar uma colônia, e não uma nação.
A viagem de Cabral - uma esquadra apenas secundária para coroa portuguesa, de caráter subsidiário à expedição de Vasco da Gama nas Índias - não significou Descobrimento e nem deve ser vista como iniciadora da colonização. Esta, começou de fato, somente por volta de 1532, com a expedição de Martim Afonso de Sousa, que além de ter fundado o primeiro núcleo de colonização - a vila de São Vicente - , trouxe para colônia, as primeiras mudas de cana-de-açúcar, inaugurando o primeiro engenho, no processo de consolidação do Antigo Sistema Colonial.

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