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Brasil Império

O mercenário no Brasil

 Por Cristiano Catarin


 
Vez por outra, quando nos dispomos a visitar temas envolvendo a independência brasileira, logo lembramos da participação de personagens mais populares destacados pelos estudiosos durante este processo como, D. Pedro I, José Bonifácio de Andrada e Silva e a própria imperatriz Maria Leopoldina. No entanto, após o famoso Grito do Ipiranga, oficializado em 7 de setembro de 1822, o Brasil precisaria muito da ajuda daqueles que apoiavam os projetos do imperador, desejando a autonomia brasileira e, principalmente, querendo uma unidade entre as diversas regiões que compunham, neste sentido, a vastidão territorial do nascente país.

Evidente que não seria prudente, nem correto e tão pouco inteligente negligenciar as articulações e manifestações havidas durante todo o caminho para a aclamação de D. Pedro I em defesa da independência brasileira frente a Portugal, (pelo menos entre 1808 e 1822). Mas, nesse momento, nossa discussão situa-se depois do 7 de setembro, quando então percebe-se que as dificuldades pós-independência não foram poucas; muitos aliados pela autonomia brasileira temiam uma fragmentação dos diferentes territórios que, depois deste episódio, deveriam ser considerados como o caminho para uma única nação.

É diante deste cenário que direcionaremos nossas atenções agora para o escocês Thomas Alexander Cochrane, uma espécie de herói e vilão da Independência do Brasil que atuou também como o primeiro almirante da precária, pelo menos antes de sua interferência, Marinha de Guerra brasileira.


O histórico de sucesso de Thomas Cochrane


Aos vinte e cinco anos de idade Thomas realizou sua primeira façanha em 1800 defendendo os interesses britânicos como oficial da Marinha; com sua apurada habilidade nos mares, ele conseguiu capturar um navio espanhol denominado El Gamo, com tripulação de aproximadamente trezentos homens, armado com 32 canhões; Cochrane alcançou tal feito a bordo de uma embarcação bem mais humilde, equipada com 14 canhões e 84 marinheiros. A principal estratégia utilizada pelo escocês era a de navios incendiários; resumidamente, refere-se a uma pequena embarcação carregada de materiais inflamáveis (pólvora, óleo, dentre outros) em chamas deslocando-se ao encontro das embarcações inimigas que, ao serem atingidas, são tomadas pelo fogo da explosão proveniente do navio incendiário lançado em sua direção.

Thomas Cochrane também “atrapalhou bastante” às conquistas francesas de Napoleão Bonaparte, impondo derrotas significativas à esquadra da França. Suas campanhas iniciais de sucesso lhe renderam muito dinheiro, cerca de 75 mil libras esterlinas (equivalente a 30 milhões de reais na atualidade); além de enfrentar e derrotar forças marítimas de Espanha e França, Cochrane também foi contratado como mercenário (aquele que não trabalha por zelo, mas por interesse de fazer jus a pagamento) nas campanhas de independência do Chile e Peru contra os espanhóis; da Grécia, contra os turcos do Império Otomano; do Brasil – que nos interessa –, contra os portugueses.  Sua participação nestes importantes episódios foi decisiva.


O lado pirata de Cochrane


Os feitos de Thomas Cochrane são muitos, especialmente na participação decisiva no processo de independência da América espanhola; entretanto, sua fama de louco por dinheiro perpetuou e até superou, na opinião de alguns historiadores – inclusive brasileiros, suas habilidades de estrategista dos mares. Durante sua campanha em defesa do Peru, Thomas mais uma vez alcançou êxito e, ao final de seus trabalhos, acusou o general San Matín como responsável pelo não pagamento do valor acordado e estipulado quando de sua contratação para os serviços prestados. De acordo com relatos, Cochrane roubou uma embarcação na qual San Matín (por precaução) transportava todo o Tesouro Público do Peru; saques em cidades [atos dignos de pirataria] acompanharam a trajetória do competente e polêmico escocês.


Thomas e a Independência do Brasil


Logo depois dos desentendimentos com os peruanos, Thomas Alexander Cochrane voltou suas atenções para o Brasil que, logo depois do 7 de setembro, precisava, com urgência, organizar sua Marinha para enfrentar os conflitos intensificados com a formalização da autonomia brasileira. Além de desorganizada, sem liderança e despreparada, a Marinha brasileira era composta por portugueses, o que gerava grande desconfiança no sentido de apoiar a causa do Brasil.

Felisberto Caldeira Brant Pontes, o marquês de Barbacena, foi quem teve a ideia de contratar Cochrane; no dia 6 de maio de 1822, portanto, antes mesmo do conhecido Grito do Ipiranga, Barbacena transmitiu tal intenção a José Bonifácio. Daí em diante, o que se viu foi uma negociação de valores e condições do governo brasileiro para convencer Thomas a enfrentar as forças portuguesas aqui no Brasil. Tal convencimento aconteceu no dia 11 de dezembro, por meio de decreto oficial, onde a administração pública do Brasil determinou, em linhas gerais, que toda e qualquer carga tomada na guerra será de propriedade exclusiva de quem as capturar.

Thomas juntou-se a D. Pedro I para realizar uma inspeção nas embarcações e tripulação a serviço da Marinha brasileira. A precariedade era tanta que em sua primeira investida, contra portugueses na Bahia em abril de 1823 não alcançou sucesso. Diante deste episódio, Cochrane, com apoio do imperador, decidiu recrutar brasileiros e contratar mercenários ingleses e americanos para lutarem ao seu lado nas campanhas que viriam. Dois meses depois, o escocês comandou uma nova investida contra os portugueses e toda a esquadra lusitana deixou Salvador rumo a Portugal em julho de 1823; Thomas perseguiu os portugueses em fuga conseguindo capturar 16 dos 17 navios da frota inimiga.

Depois do sucesso na Bahia, Cochrane dedicou-se nas duas últimas províncias brasileiras que se mantinham fiéis a Lisboa: Pará e Maranhão. Em 18 de maio de 1825, Thomas praticamente encerrou sua participação com total sucesso pela causa da independência brasileira, aprisionando centenas de paraenses e portugueses, atuando decisivamente também na Confederação do Equador bloqueando o porto do Recife. Por outro lado, São Luis do Maranhão não foi poupada da mania de saquear cidades de Cochrane. Aliás, o pagamento pelos serviços prestados por Thomas ao governo brasileiro, como de costume em outros negócios realizados, foi motivo de desentendimentos entre as duas partes. Thomas entendia que deveria receber mais do que o oferecido pelos brasileiros; para o habilidoso almirante escocês, o Brasil deveria pagar-lhe 250 mil libras esterlinas (cerca de 75 milhões de reais atuais), mas, acabou recebendo parte desta quantia, pois o governo brasileiro entendia que nem todo este valor era proveniente de presas de guerra. Em novas negociações, Cochrane ainda conseguiu receber mais 21 mil libras dos maranhenses. Por esta razão, o nome de Thomas Cochrane não pode sequer ser mencionado no Maranhão; para eles, o escocês não passou de um grande mercenário e pirata saqueador de cidades.

O curioso é saber que o senador José Sarney (maranhense) também reserva tal ódio pelo almirante, logo ele, que já foi muito questionado em seus mandatos e perpetua como uma dinastia no poder político brasileiro às custas do ultrapassado código civil, de ética e penal daqui; de qualquer forma, isto é assunto para outra oportunidade.

Thomas Alexander Cochrane morreu em 1860. Seus herdeiros ainda receberiam do império brasileiro mais de 40 mil libras esterlinas como acerto de valores contestados por Cochrane ao final de sua campanha de sucesso nas guerras da independência do Brasil.


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catarin@estadao.com.br

dezembro de 2011 

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